Indulgências


“(...) Há ainda um assunto que reclama a nossa atenção enquanto nos ocupamos da oração
vocal. Um homem dado à oração vocal está em grande parte à mercê dos livros de orações. A escolha
das devoções preferidas é, portanto, de grande importância, e que devoções podemos escolher com
mais segurança do que as aprovadas pela Igreja e por ela indulgenciadas?
Há uma grande relação entre as indulgências e a vida espiritual; e o emprego das devoções
indulgenciadas é, pois, a pedra de toque pela qual reconhecemos de modo quase infalível um bom
católico.
Segundo Santo Afonso, para tornar-se santo basta ganhar todas as indulgências possíveis, e
São Leonardo de Porto-Maurício tem mais ou menos a mesma opinião. As revelações particulares e
aprovadas dos Santos projetam uma luz importante sobre esta matéria. Santa Brígida foi suscitada em
grande parte, como ela mesma diz, para propagar a glória das indulgências; e assim Santa Maria
Madalena de Pazzi viu almas castigadas no Purgatório somente por havê-las menosprezado.
Há na vida espiritual o que chamarei as oito bem-aventuranças das indulgências.
Em primeiro lugar, por terem relação com o pecado, com a Justiça de Deus e com a pena
temporal devida ao pecado, as indulgências conservam em nós certos pensamentos que pertencem à
fase da purificação, o que para nós é salutar, embora desejemos com impaciência ir adiante e livrarnos
deles.
Em segundo lugar, produzirão em nós a feliz disposição de nos afastar deste mundo:
conduzem-nos a um mundo invisível; cercam-nos de imagens sobrenaturais; infundem em nosso
espírito uma ordem de idéias que nos desapega das coisas mundanas e exprobra os prazeres terrestres.
Em terceiro lugar, guardam continuamente diante de nós a doutrina do Purgatório, e assim
nos obrigam ao constante exercício da fé e ao mesmo tempo nos sugerem motivos de um santo temor.
Em quarto lugar, fazem-nos praticar para com os fiéis falecidos o exercício da caridade, que
facilmente chegará ao heroísmo, estando assim ao alcance dos que não podem fazer outras esmolas, e
produz deste modo em nossa alma os efeitos que acompanham as obras de misericórdia.
Em quinto lugar, a glória de Deus tem muito interesse nas indulgências, por uma dupla razão:
porque libertam as almas do Purgatório, apressando a sua entrada na corte celestial, e porque
patenteiam especialmente algumas das perfeições divinas, tais como Sua infinita pureza, Seu ódio ao
pecado ainda mesmo ínfimo, e o rigor da Sua justiça, aliada à mais engenhosa misericórdia.
Em sexto lugar, elas prestam homenagem às satisfações que Jesus ofereceu por nós. São para
estas satisfações o que para os Seus méritos é a doutrina de que todo pecado não é perdoado senão
devido a Ele. Portanto podemos dizer que, aproveitando d’Ele e dos Seus méritos o mais possível, as
indulgências realçam a copiosidade da Redenção. Honram também as satisfações da Virgem Maria e
dos Santos, de modo a honrar mais ainda a Jesus.
Em sétimo lugar, elas nos dão uma ideia mais séria do pecado e aumentam o horror que lhe
temos. Com efeito, as indulgências lembram-nos constantemente a verdade de que o castigo é devido
mesmo ao pecado perdoado, que este castigo é terrível ainda mesmo que seja apenas por algum
tempo, e que só é possível livrar-nos dele pelas satisfações de Jesus.
Em oitavo lugar, elas nos mantêm em harmonia com o espírito da Igreja, o que é de suma
importância para os que se esforçam por levar uma vida devota e caminham entre as dificuldades do
ascetismo e da santidade interior. Depreciar as indulgências é um sinal de heresia, e o ódio que esta
lhes vota é um indício de que o demônio as detesta, e isto mostra o valor do poder delas diante de
Deus e da sua aceitação por parte d’Ele. Elas estão envolvidas em tantas particularidades da Igreja,
desde a jurisdição da Santa Sé até à crença no Purgatório, nas boas obras, nos santos e na satisfação
[das penas devidas ao pecado], que são, de certo modo, o sinal inconfundível da nossa ortodoxia [isto
é, da nossa catolicidade]. A infeliz história dos erros que a Igreja sofreu a respeito da vida espiritual
nos mostra que, para sermos verdadeiramente santos, devemos ser verdadeiramente católicos e
católicos romanos, pois fora de Roma não pode haver nem catolicismo, nem santidade alguma.
Além do que, as devoções indulgenciadas oferecem em si a seguinte vantagem: temos certeza
de que são mais que aprovadas pela Igreja. Sabemos que no mundo numerosas almas piedosas as
empregam todos os dias, e unindo-nos a elas participamos mais inteiramente da Comunhão dos
Santos e da vida da Igreja, que constitui sua unidade. Por todas as razões que enunciei, o emprego das
indulgências espiritualiza cada vez mais a nossa alma a aviva a nossa fé. Elas nos levam a rezar como
quer a Igreja e sobre assuntos por ela indicados, e assim podemos alcançar muitos fins ao mesmo
tempo. Pois pelo mesmo ato não somente rezamos, como fazemos ato de veneração às chaves da
Igreja, honramos a Jesus, Sua Mãe e os Santos, evitamos o castigo temporal que nos é devido, ou, o
que é ainda melhor, libertamos os mortos [do Purgatório] e assim glorificamos a Deus. Podemos
ainda verificar que, ao percorrermos as devoções indulgenciadas, transferimos para o nosso espírito
muita doutrina tocante, que serve de alimento à oração mental e a um amor cheio de reverência.
Tomemos um exemplo. Não posso conceber que um homem seja espiritual se não tem o
hábito de rezar o terço, que pode ser chamado a rainha das devoções indulgenciadas. Em primeiro
lugar, considerai a importância do Rosário como sendo uma devoção própria da Igreja, imprimindo
em nossa alma um caráter particularmente católico, conservando perpetuamente em nosso espírito a
lembrança de Jesus e de Maria, e como sendo um precioso auxílio para alcançarmos a perseverança
final, se o recitarmos com fidelidade, como no-lo provam diversas revelações. Considerai, em seguida,
que São Domingos o instituiu em 1214, inspirado por uma visão, com o fim de combater a heresia, e
considerai o êxito que o consagrou. (...)
Nada desejaria dizer que pudesse restringir qualquer devoção. Todavia, considerando bem
todas as coisas, quando a Igreja indulgenciou um tão grande número de orações e devoções, por que
recorrer a outras orações vocais em vez de procurar as indulgenciadas?”

(FABER, Padre Frederick William [1814-1864], in: O PROGRESSO NA VIDA ESPIRITUAL,
tradução de Marianna Nabuco, Editora Vozes, Petrópolis: 1924, páginas 278-282, grifos nossos)

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