17 de Novembro: A esmola


A ESMOLA
O sufrágio da esmola
Um socorro aos mortos dos mais valiosos é a esmola. Não é mister lembrar aqui o valor da cari­dade. É auxílio ao pobre na terra, alívio aos mortos nas chamas expiadoras do purgatório. Há tanta mi­séria a socorrer no mundo! Por que não fazermos do dinheiro, que perde tanta gente, um meio de sal­vação para nossa alma, e alívio do pobre e alívio do Purgatório? Não é conselho de Nosso Senhor que aproveitemos e façamos da riqueza meio de salva­ção empregando-a nas boas obras como os pecadores a empregam para o mal?

Socorramos o pobre em sufrágio das almas do pur­gatório.
Contam piedosos autores esta parábola tão ex­pressiva: Um homem tinha três amigos. Dois lhe eram muito queridos. O terceiro nem por isso. Um dia fora acusado e levado ao Tribunal da Justiça. Chama os amigos para o defender.
O primeiro escusou-se. Tinha negócios e famí­lia, era impossível!
O segundo foi até à porta do Tribunal e o deixou.
O terceiro o acompanha sempre fiel, defende-o com ardor, dá testemunho de sua inocência e salva o acusado do castigo.
Assim, o homem tem neste mundo três amigos: o dinheiro, os parentes e as boas obras. O dinheiro o abandona na morte, quando há de comparecer no Tribunal da Justiça de Deus. Os parentes o levam até a beira da sepultura e o deixam; e o esquecem de­pois. O terceiro amigo — as boas obras, a caridade praticada, as obras de misericórdia, tudo quanto o homem fez de bom neste mundo, só isto o acompa­nha e o defende no Tribunal da Justiça de Deus.
Pois bem. Neste mundo toda sorte de boas obras se­jam os nossos amigos. Tudo o mais falha. Diz São João que as obras do homem o hão de seguir depois da morte: Opera enim illorum sequntum illos.
Socorramos o pobre em sufrágio dos mortos. Praticaremos dupla obra de caridade. E tenhamos a certeza de que Aquele Deus de Misericórdia não dei­xará que se perca nossa pobre alma no Tribunal do Dia do Juízo.
Eis porque rezar pelos mortos, socorrer as almas do purgatório na prática da caridade pela esmola, é das maiores riquezas do cristão neste mundo.
A esmola, disse o Anjo a Tobias, salva o ho­mem da morte, apaga os pecados e faz achar a graça diante de Deus[1]. O Livro Eclesiástico ensina que “assim como a água extingue o fogo mais ardente, assim a esmola apaga o pecado"[2].
Sim, e a esmola apaga também o fogo do pur­gatório.
Dai esmola ao pobre em sufrágio das benditas almas. As lágrimas que vossas esmolas enxugarem, o alívio que tiverdes dado aos que padecem fome, sede e frio, serão alívio no purgatório para as almas sofredoras, talvez almas de vossos entes queridos. É uma dupla caridade socorrer os pobres por amor das santas almas.

A esmola que salva
São João Crisóstomo faz este belo e poético elo­gio da esmola: “A esmola, diz ele, é uma celeste in­dústria e a mais hábil de todas. Protege os que a exercem. É amiga de Deus e está ao lado do Senhor e alcança facilmente a graça aos que ela ama. Que­bra os ferros, dissipa as trevas, extingue o fogo... Diante dela se abrem com toda segurança as portas do reino do céu[3]”. Como se aplicam bem as pa­lavras do eloquente e Santo Doutor à esmola dada em sufrágio para alívio e libertação das almas do purga­tório! Nossa esmola ao pobre vai quebrar as cadeias de ferro e fogo que retém no purgatório as pobres almas, dissipa-lhes as trevas horríveis da ausência e da separação do Bem Infinito que tanto as faz so­frer naquele cárcere medonho. E diante da esmola, quantas vezes não se abrem com segurança as portas do reino do céu às pobres cativas! Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão miseri­córdia, diz Nosso Senhor no evangelho.
Sim, sejamos agora misericordiosos para com os infelizes, os desgraçados, os pobres, e alcançaremos misericórdia para nós e para as almas do purgatório. Diz o Livro de Tobias: “As esmola livra de todo pe­cado e da morte, e não deixará a alma descer nas trevas"[4]. Sim, a esmola nos livrará da morte eterna, e, se nesta vida tivermos aplicado nossos recursos em socorrer os pobrezinhos, livraremos nossa alma da eterna morte, das trevas do inferno, e livraremos as almas das trevas do purgatório.

Pelas almas sofredoras tenhamos compaixão dos pobres.
Um dia, em Saint Lazare, São Vicente de Paulo ia dar a bênção à mesa frugal da comunidade dos seus padres, quando de repente sentiu-se profunda­mente comovido e as lágrimas lhe corriam pelas fa­ces. Soluçava. O seu pensamento sentia-se agora transportado para a Lorreine, onde o povo tinha fo­me como nas províncias devastadas pela guerra. Ah! Dizia o Santo, lá há muita fome, muita fome...
“Ó, si nós soubéssemos meditar e ter compaixão daquelas pobres almas que têm fome de Deus! E Je­sus, que na pessoa do pobre tem fome e sede, como nos diz no Evangelho, não sentirá também a fome das benditas almas? Tive fome e me destes de comer, estive doente e me visitastes. Jesus nos fala assim nas almas do purgatório[5]”.
“A esmola, escreveu o ilustrado Henri Bremond[6], é, no pensamento da Igreja, um dos ele­mentos essenciais do culto dos mortos. Obra de cari­dade e de sacrifício eucarístico, o ágape primitivo reunia estes dois elementos. Muito antes de ter sido abolido, o ágape era uma espécie de reunião de bene­ficência para socorrer os pobres, visando obter por esta obra o alívio e a libertação das almas do purgatório. Os Santos Padres falam sempre nisto. Na Ida­de Média, esta idéia de socorrer os pobres para alívio das almas do purgatório teve uma influência decisi­va na organização das obras de caridade”.

Dupla caridade
Podemos dizer: dar esmola em sufrágio e para alívio e libertação das almas do purgatório é dar duas vezes, é dupla esmola. Socorre os vivos e os mortos. Os amigos das santas almas não deixam esquecido este meio poderoso e meritório de praticar a caridade.
São Pedro Damião conta que, numa festa da Assunção de Maria, um homem de Deus teve uma visão. Viu na igreja a Santíssima Virgem num tro­no, cercada de Anjos e de Santos. Diante dela apa­rece uma pobre mulher em andrajos, em estado de grande miséria, mas trazendo sobre os ombros uma capa de seda e pedrarias ricas. Ajoelhou-se a po­brezinha diante da Virgem e entre lágrimas lhe disse: “Ó Mãe de misericórdia, eu vos suplico, tende pie­dade de João Patrizzi que acaba de morrer e sofre no purgatório. Sabei, ó Mãe de misericórdia, que eu sou aquela mendiga que um dia pedia esmola na por­ta da vossa basílica e tiritava de frio. João, a quem pedi uma esmola, privou-se da sua capa para me co­brir”. Ao ouvir isto, a Virgem Santíssima sorriu, cheia de bondade, e disse: “O homem pelo qual pedes misericórdia estava condenado a sofrer muito tempo na expiação, mas já que ele praticou este ato de ca­ridade, e além disto sempre teve muita devoção para comigo, adornou meus altares, eu quero usar de bondade para com ele”. E Patrizzi foi logo libertado do purgatório[7].
Assim fará para conosco a Mãe de Deus, se jun­tarmos a sua devoção bem fervorosa à caridade para com os infelizes. É muito grande o mérito da esmola.
São João Crisóstomo aconselhava, numa exorta­ção, uma maneira de aliviar o sofrimento da sauda­de dos mortos, de um filho querido que a morte arre­batou, de um ente, enfim, que vimos partir para a eternidade, deixando-nos saudosos. Diz o Santo Dou­tor: “Perdeste um filho querido e não sabeis o que fazer para testemunhar a vossa dor. Quereis ser útil ainda ao vosso filho? Nada mais simples. Assiste a um coerdeiro pobre. Tomai um pobre para socor­rer. Dai aos pobres o que desejaríeis dar ao morto querido que chorais. Não tereis perdido o herdeiro do céu e arranjareis um coerdeiro na terra, que é o pobre. Em vez de uns miseráveis bens temporais que havíeis de deixar para um filho, lhe dareis a he­rança da posse de Deus no céu nos bens eternos. Eis como podeis socorrer vossos entes queridos muito mais do que se estivessem neste mundo[8]”.
Ordena a admirável e santa Regra de São Bento que quando morra um monge, durante trinta dias se ofereçam por sua alma o Santo Sacrifício e a ração de alimento que lhe pertencia seja dada aos pobres.
Que bela tradição! Sejamos caridosos para com os pobres da terra o apliquemos o mérito desta cari­dade para o alívio e libertação das santas almas so­fredoras do purgatório. Pratiquemos a dupla caridade.
  
Exemplo
Esmola pelas almas
Cristovão Sandoval, ainda menino, era devotís­simo das santas almas do purgatório. Procurava so­corrê-las de todos os modos. Privava-se até do ne­cessário para sufragar as pobres almas sofredoras. Quando estudava na Universidade de Louvain, aconteceu que as cartas da Espanha demoravam a che­gar com recursos e o pobre estudante ficou reduzido a uma extrema miséria sem ter do que se sustentar. Sempre que lhe pediam alguma esmola em nome das almas do purgatório, nunca a negava. Doía-lhe o co­ração ver pobres rogando: uma esmola por amor das santas almas do purgatório! Assim amargurado en­trou numa igreja pensando: não posso socorrer as almas do purgatório com minhas esmolas, mas posso rezar por elas. Quero ajudá-las com minhas orações. Acabou de rezar e ao sair da igreja um moço muito educado e de ar nobre o veio cumprimentar, dizendo estar de volta da Espanha, e lhe entregava uma gran­de soma de dinheiro, porque quando voltasse à Es­panha, seu pai lhe havia de pagar. Convidou-o para um almoço. Sandoval aceitou o generoso convite, pois até àquela hora nada havia comido. Depois, o moço desapareceu. Nunca mais Sandoval chegou a saber quem era aquele moço. Fez várias pesquisas, mas tu­do em vão. Um dia, contou o fato ao Papa Clemen­te VIII. O Santo Padre lhe disse: Meu filho, é pre­ciso publicar muito este fato para mostrar como Deus recompensa os que dão esmolas em nome das almas do purgatório e sufraga os mortos com atos de ca­ridade.
Uma mulher em Nápoles, conta Rossingnoli (91.ª Maravilha), chegou a uma extrema miséria, porque o marido fora preso por muitas dívidas. Os filhos passavam fome. Recorreu a um grande rico da cida­de e pediu-lhe uma esmola. Recebeu uma moeda de prata. Entrou numa igreja e pôs-se a considerar a triste situação em que se encontrava. Recorreu às almas do purgatório, procurando sufragá-las com fervorosas preces. Depois, tomou a moeda de prata, im­portância exata de uma espórtula de Missa, e mandou celebrar uma santa Missa pelas almas. Sai da igreja muito consolada e cheia de confiança. Encontra na rua logo um velho muito pálido que lhe quer falar.
 — Coragem, minha senhora, diz-lhe o desconhe­cido, peço o favor de me levar esta carta a Fulano, tal rua, número tal. É um dos homens mais conhecidos e ricos do lugar.
A senhora executou logo o pedido. O jovem des­tinatário tomou a carta, abriu-a e empalideceu:
— A letra de meu pai... E meu pai já morto!
Indagou muito e veio a concluir que aquela po­bre viúva havia salvo do purgatório a alma do seu pai querido. A carta dizia assim: “Meu filho, teu pai acaba de ser libertado do purgatório graças a uma santa Missa mandada celebrar por esta senhora, por­tadora desta. Está ela numa extrema miséria e eu a recomendo à tua gratidão”.
Grande foi a comoção do jovem. Após acalmar­-se disse à pobre: “Minha senhora, acaba de fazer uma grande obra de caridade e lhe devo uma eterna gratidão: libertou meu pai do purgatório com uma Missa, esta manhã... Doravante eu me encarrego de protegê-la”. 
E assim o fez. — (Carfora — For­tuna hominis. Lib. I — Rossignoli, 91.ª Maravilha).

[1] Tob. XVV, 9.
[2] Eccl. II, 33.
[3] S. —. Cripost. Hom. XXXII — Epist. ad Hebreus
[4] Tobias — IV, 8, 12.
[5] Rousic — Le Purgatoire — C. XXIV
[6] Bremond — Le Correspondent — 11, 916 — Priere pour les morts.
[7] S. Petr. Dami. Opus. 34 c. 4.
[8] Crepost — Sermo de fide ressuctionis.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão
Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

16 de Novembro: As indulgências

AS INDULGÊNCIAS
Que são as indulgências?

Entende-se por indulgência a remissão ou per­dão das penas temporais devidas a Deus pelos peca­dos já perdoados em quanto à culpa, remissão con­cedida pela Igreja pela autoridade eclesiástica fora do Sacramento da Penitência.
As penas eternas são perdoadas ao pecador que faz penitência, mas nem sempre as penas temporais. Há necessidade de fazer penitência e sofrer um pou­co em reparação dos pecados cometidos. Daí a pena temporal pelos pecados. Ora, a Igreja que recebeu o poder de perdoar a pena eterna, muito mais o tem para remir da pena temporal. “Tudo o que ligares na terra, será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu”, disse Jesus a Pedro. Na Igreja primitiva os fiéis recebiam grandes penitências pelos seus pecados acusados. Havia pe­nitências públicas bem duras e longas. Jejuns a pão e água por vários dias na semana e por alguns anos. Em crimes mais graves como o homicídio, por exem­plo, o penitente fazia doze e mais anos de penitên­cias públicas, algumas das quais bem humilhantes. Nas faltas mais leves, o jejum de quarenta dias (uma quarentena). Depois, com o tempo, atendendo à fraqueza humana e aos tempos, a Igreja permitiu que as penitências públicas fossem substituídas por es­molas, cruzadas, peregrinações e outras obras que ser­viam para expiação dos pecados. As penas canôni­cas foram substituídas pelas indulgências concedi­das aos que fizessem algumas boas obras ou atos de piedade. Quando eram perdoadas todas as penitên­cias, era a indulgência plenária, e quando uma par­te, a indulgência parcial. Assim, quando se diz uma indulgência plenária quer dizer que o fiel lucra um perdão de todas as penitências que deveria fazer pe­los seus pecados e os castigos que deveriam merecer suas faltas com penas temporais. Uma indulgência de cem dias, por exemplo, se entende que deveria fazer cem dias de penitências por seus pecados e com uma oração recitada piedosamente ou outra boa obra po­de satisfazer esta dívida que tem para com Deus.
A indulgência é uma espécie de absolvição das penas temporais, é uma anistia do Soberano Juiz de nossas almas. Não se poderia dizer propriamente que a indulgência é a remissão das penas canônicas, mas uma remissão verdadeira da pena com que Deus castiga o pecado. Não dispensa a penitência e nem a confissão humilde de nossos pecados.
Há muita noção errada sobre as indulgências. Assim, muita gente pensa que ganhar indulgências, por exemplo, de trezentos dias é perdoar trezentos dias de purgatório, ou uma indulgência plenária im­porta numa remissão total das chamas expiadoras. Também não significa que ao ganhar duzentos ou quinhentos dias de indulgências pelas almas do pur­gatório lhes aliviamos outros tantos dias de sofrimento. Esta medida do tempo da expiação é o segre­do de Deus e depende muito do fervor e das disposi­ções de quem lucra as indulgências.
A Igreja, pelos méritos superabundantes de Jesus Cristo e os méritos de Maria e dos Santos, e pelo tesouro das boas obras dos justos, aplica para o bem dos fiéis neste mundo e para alivio das almas do purgatório as indulgências.

Vantagens das indulgências
Todo pecado trás como consequência duas coi­sas: a culpa e a pena. Pela verdadeira contrição e pelo sacramento da Penitência, ficam perdoadas as culpas e a pena eterna. Deus nos perdoa e nos livra da condenação eterna. Todavia, fica-nos o dever da penitência e da reparação do mal que cometemos. Fica uma dívida que devemos pagar à Justiça de Deus, neste mundo ou no purgatório, se a dor destes pecados não foi tão grande que tudo tivesse remido. Pelas indulgências podemos diminuir e até pagar toda esta pena temporal. Tiramos do tesouro da Igre­ja, formado pelo Sangue de Cristo, os méritos, e de Maria e dos Justos, o que precisamos para o paga­mento de nossas enormes dívidas. É o que demons­tram os teólogos.

A Igreja, todavia, nunca ensinou que as indul­gências nos dispensassem de fazer penitência e levar a cruz da mortificação. Com umas poucas orações e boas obras, quantas graças não podemos obter para nós e para os fiéis defuntos?
Três coisas são necessárias para se ganharem indulgências: o estado de graça — em estado de pe­cado grave não se lucram indulgências. A intenção de lucrar as mesmas. Para isto basta a intenção vir­tual e podemos já fazer pela manhã a intenção de lucrarmos todas as indulgências anexas às orações e boas obras que praticarmos naquele dia. E, finalmente, é mister praticar as obras prescritas, por exemplo, rezar tais e tais orações, visitas às igrejas, etc. Ora, já pelas suas condições vemos que as indulgências são de grande vantagem para quem as deseja lucrar, pois obriga-o a levar uma vida de es­tado de graça e procurar se aperfeiçoar sempre para poder lucrá-las com mais segurança. O estímulo das indulgências leva os fiéis a muitas obras meritórias. Para lucrar a indulgência plenária é mister a con­fissão e a Santa Comunhão e orar nas intenções do Soberano Pontífice, além das orações ou obras pres­critas para lucrá-las. Não é um estímulo para a prá­tica dos Sacramentos, e para que tenhamos sempre a consciência limpa? Não percamos o tesouro das in­dulgências que é riquíssimo na Santa Igreja. A con­dição da confissão e comunhão para lucrar a indul­gência plenária se satisfaz com a confissão semanal ou de quinze em quinze dias, excetuadas as indul­gências do Jubileu do Ano Santo, que exigem uma confissão e comunhão especiais para lucrá-las.
O zelo pelas indulgências leva o cristão a ter sempre seu coração livre do pecado e fazer penitên­cia, porque bem sabe, que quanto mais pura for nos­sa alma diante de Deus, tanto mais méritos pode ob­ter e salvar muitas almas do purgatório.
E demais, quantas penitências não deveríamos fazer por tantos e tão grandes pecados que comete­mos em nossa vida! Aproveitemos o tesouro das in­dulgências que irão descontando nossas enormes dí­vidas, e além do mais, socorrendo tantas pobres al­mas sofredoras no purgatório. Seremos muito bem recompensados por este grande ato de caridade. Quantas vantagens, pois, nas indulgências! E como se perdem e se desprezam tamanhos tesouros!

Indulgências pelos fiéis defuntos
Podemos lucrar indulgências pelos nossos mor­tos? — Diz Santo Tomás de Aquino com a sua autoridade de Doutor da Igreja: “Não há razão algu­ma para que a Igreja, que pode transferir os méritos dos vivos, não possa também transferi-los aos mor­tos, pois Santo Agostinho ensina que as almas dos que morreram na amizade de Deus não são separa­das da Igreja”.
Muito antes de Santo Tomás o Concilio de Arraz ensinou esta doutrina: “É preciso não acreditar que a penitência aproveita só aos vivos e não aos defun­tos”. Muitos doutores da Igreja, como São Gregório Magno nos seus Diálogos, e outros mais antigos, en­sinam esta consoladora doutrina que vem dos primeiros séculos da Igreja.
As indulgências podem, pois, servir aos vivos e aos mortos. Em linguagem teológica podem ser apli­cadas aos vivos e aos defuntos. Santa Madalena de Pazzis aproveitava quantas indulgências podia lu­crar pelos defuntos. Deus a recompensou com uma miraculosa visão. Uma das suas irmãs, muito vir­tuosa, acabava de falecer e fôra condenada ao pur­gatório. Santa Madalena se pôs a rezar e ganhar indulgências pela defunta. Havia quinze horas que a morta havia comparecido diante de Deus, quando apareceu à Santa e lhe disse, toda bela e resplande­cente: Adeus, ó minha irmã querida!
“Ó alma feliz, exclama Santa Madalena, como é grande a vossa glória! Como foi curto vosso purga­tório! Vossos restos mortais ainda não foram sepul­tados e já entrastes na eterna pátria!”.
Nosso Senhor revelou à grande Santa que esta alma deveria ter um longo purgatório, mas se livrou em tão pouco tempo pelas indulgências que ela ha­via lucrado pela defunta.

Conta-se na Vida de Santa Teresa, a Matriarca do Carmelo, um fato consolador. Uma Carmelita de uma vida muito simples e que em nada se distinguia das outras, veio a falecer, e a Santa a viu subir ao céu com grande glória pouco tempo depois da morte, de sorte que teria tido talvez um brevíssimo purga­tório. E como Teresa revelasse grande surpresa com isto, Nosso Senhor lhe disse que aquela religiosa sempre teve grande respeito pelas indulgências da Santa Igreja e durante toda vida sempre se esforçou por ganhar o maior número que lhe foi passível. E isto fez com que tivesse pago a maior parte das suas dívidas para com a Divina Justiça.
Aliviemos os sofrimentos de nossos mortos que­ridos, procurando ganhar por eles muitas e numero­sas indulgências. Grande parte deste tesouro é apli­cável às almas. Deus aceita sempre esta satisfação dos vivos pelos mortos, diz o grande teólogo Suarez. Talvez haja para nós dificuldades e obstáculos para lucrarmos indulgências, porém Deus sempre as acei­ta pelas almas do purgatório.
O Santo Rosário, a Via Sacra, que riqueza de indulgências para os mortos nos oferecem estas duas práticas piedosas! Recitemos jaculatórias indulgen­ciadas. É tão fácil repeti-las em toda parte e a toda hora! Duplo proveito: nossa união com Deus e alívio das pobres almas. Vamos, pois, cheios de generosi­dade aproveitar o tesouro das indulgências em favor do purgatório!

Exemplo
O que vale um Requiem
Autores antigos como Dorlandus, na Crônica Cartusiana, e Teófilo Regnaud, em Heter Spirituale — Pars II, Sect. II — narram este fato que por aí às vezes tem sofrido variantes acrescentadas pelo povo:
Um rico senhor, de uma fortuna bem considerável, deixou uma herança para o filho, único herdei­ro. Este, muito piedoso, lembrou-se logo da alma do pai e quis sufragá-la generosamente. Logo após o enterro do pai, vai a um mosteiro e oferece uma gran­de soma ao Prior, rogando muitas orações pelo mor­to querido. No mesmo instante, os monges se reuniram e o Prior lhes disse: “Meus irmãos, acaba do falecer e foi hoje sepultado um grande benfeitor des­te convento. Oremos por sua alma”. Imediatamente os monges entoaram um “Requiescat in pace”. E o Superior responde: Amen. Logo depois se retiram to­dos do coro.
O moço, filho do benfeitor, admirou-se de tão pouca oração, após ter oferecido tão grande soma. “Tão pouco, diz ele ao Prior, por tão generosa ofer­ta?” O Prior, inspirado por Deus, quis dar uma lição ao jovem e mostrar-lhe o valor da oração. Mandou que os religiosos escrevessem todos num papel estas palavras que rezaram: Requiescat in pace! E depois lho trouxessem. Mandou chamar ao jovem e pôs os papeis num prato de balança, e noutro prato a soma de dinheiro em moedas pesadas, oferecidas pelo ben­feitor. Ó prodígio! No mesmo instante o prato da balança pendeu para o lado do papel, com admiração geral. Diante disto, reconheceram todos o quanto vale um Requiescat in pace pelos defuntos. O moço se retirou contente e convencido de que não se po­dem comparar os bens materiais com os espirituais.

A Bem-aventurada Maria de Quito foi arrebata­da em êxtase e viu uma mesa cheia de pedrarias e jóias e moedas de ouro. Uma voz lhe dizia: Estas são as riquezas oferecidas a todos. Cada um pode delas se servir como queira. Era uma figura das riquezas espirituais das indulgências que todos podemos juntar e aproveitá-las para nossa alma e principalmente em favor das pobres almas do purgatório.

15 de Novembro: Penitência pelos mortos



PENITÊNCIA PELOS MORTOS
Um meio de socorrer as almas

Somos obrigados a fazer penitência se quisermos salvar nossa alma. Só há dois caminhos para en­trar no céu: o da inocência e o da penitência. Nosso Senhor dos adverte: “Se não fizerdes penitência, to­dos vós igualmente perecereis”. Ora, a penitência, além de nos ser necessária, é muito meritória, e a podemos aplicar em sufrágio das pobres almas do purgatório. Tiraremos duplo proveito: nossa san­tificação e o alívio das almas sofredoras.
O sofrimento junto com a prece tem uma eficá­cia extraordinária para alcançar de Deus todas as graças. Outrora, vemos na Escritura, quando os Pro­fetas e o povo de Deus desejavam obter do céu mise­ricórdia ou graças, entregavam-se aos jejuns, cilícios e austeridades. Nossa penitência aqui é muito meritória. Soframos pelos mortos!
“Aliviemos as almas do purgatório, diz São João Crisóstomo, aliviemo-las por tudo o que nos penali­za, porque Deus tem cuidado em aplicar aos mortos os méritos dos vivos”. Escreve Berlioux: “O sofri­mento é a grande satisfação que o Senhor pede aos devedores da Justiça. Logo, soframos pelos nossos mortos, a fim de que eles sofram menos. Oh! Se ti­véssemos uma fé mais viva, uma caridade mais arden­te, que mortificações nos imporíamos a nós mesmos para libertar nossos parentes e amigos do purgatório, eles que tanto nos amaram, que sofreram talvez por nós e estão agora sofrendo de uma maneira tão hor­rível! Já que não somos capazes de tamanhas peni­tências como os santos, tenhamos generosidade para alguns pequenos sacrifícios. O sacrifício de um pra­zer, de uma afeição perigosa, de uma leitura má, de uma vaidade, etc”. “Escolhei a melhor vítima, acon­selha o Pe. Felix, S.J., escolhei-a, sobretudo, no fun­do de vosso coração”. “Por aqueles que amais, sacri­ficai o que tendes de mais caro. Sacrificai-vos a vós mesmos, e que o preço do sacrifício pessoal se torne o resgate do sofrimento”. “Ah! vejo, acrescenta o Pa­dre Berlioux, vejo essas almas felizes elevarem-se para o céu, nas asas de nossos sacrifícios, de nossas austeridades e sofrimentos!”.
Que objeto de consolação e de esperança! Ó, meu Deus! Ó, Jesus Crucificado, fazei-nos compreender o valor do sofrimento!

Aceitação da cruz pelas almas
A idéia da penitência dos Santos e das grandes austeridades nos assustam, mas não podemos ofere­cer a Nosso Senhor a cruz de cada dia pelos nossos mortos? Quem não tem a sua cruz?
O sofrimento é fecundo e vai frutificar além das fronteiras da vida, vai aliviar as chamas do purga­tório. Nesta vida faz tanto bem e repercute tanto nas almas! Pois devemos crer que também na outra vida o sofrimento salva e resgata a dívida das pobres al­mas da Igreja padecente. Ouvi esta página de uma grande alma: “O sofrimento, escreve a admirável Elizabeth Leseur, o sofrimento atua de um modo im­petuoso em nós, primeiro, por uma espécie de renovamento íntimo, em outros também, talvez muito lon­ge e sem que saibamos neste mundo o trabalho que fa­zemos por eles. O sofrimento é um ato. Cristo fez mais na cruz pela humanidade do que falando e trabalhan­do na Galiléia ou em Jerusalém. O sofrimento faz a vida: ele transforma tudo o que toca e tudo o que atinge”.
“O sofrimento é um ato”. Que fórmula impres­sionante! Convém guardá-la. Trabalha quem sofre bem. Pode salvar almas como o apóstolo da palavra, como o sacerdote missionário mais ativo e ardente. A grande missionária dos últimos tempos, o Anjo do Carmelo de Lisieux, pôde dizer e experimentou o va­lor do sofrimento pela salvação das almas. “Pelo so­frimento e a perseguição, disse ela, muito mais que por brilhantes pregações, Deus quer firmar o Seu Reino nas almas. Nossos sacrifícios, nossos esforços e os mais obscuros de nossos atos não estão perdidos, é minha opinião absoluta: todos têm repercussão lon­gínqua e profunda”.

Sim, o sofrimento tem uma repercussão tão lon­gínqua e profunda que vai até o purgatório, vai ali­viar os tormentos das pobres almas, vai ajudá-las a pagar a dívida que contraíram com a Justiça Divina, vai abrir-lhes as portas do céu! Há em família tan­tas cruzes cotidianas, doenças, aborrecimentos, re­vezes, tanta coisa que nos vai crucificando todo dia! Por que não aproveitar tudo isto pelas almas? Ó, meu Deus, digamos na hora da dor, seja tudo por vosso amor e para o alívio das pobres almas! Se não temos coragem para grandes penitências, pelo menos acei­temos a de cada dia pelo purgatório.

Vítimas pelas almas
Há muitas almas generosas que chegam ao he­roísmo de se oferecerem como vítimas pelas almas do purgatório. É um ato heroico e um meio extraor­dinário que não podemos aconselhar a todos, mas que só algumas almas generosas com aprovação do con­fessor e em circunstâncias especiais o poderiam fazer.
Pertencemos a família cristã, somos membros de Cristo, somos um com Cristo e em Cristo. Ele é a ca­beça e somos os membros. Ora, em uma família um irmão não pode se oferecer para pagar a dívida de outro irmão? É o que faz a alma vítima que se oferece para sofrer pelas almas do purgatório.
Temos tocantes exemplos desta oferta generosa entre os Santos. Quando Santa Catarina de Sena per­deu o pai, que era um homem de uma piedade edifi­cante, pediu a Nosso Senhor que o levasse logo, sem demora, para o céu e que ela se oferecia para sofrer tudo quanto tivesse ele de padecer no purgatório. “Enviai-me, Senhor, os sofrimentos que deveria pa­decer meu pai; eu os suportarei por ele!” Este ato generoso e heroico obteve o céu para Giacomo — con­ta Joergensen[1]. Todos soluçavam na morte do velho e uma alegria imensa invadia a alma da Santa. Ela mesma colocou no caixão o corpo do pai e, incli­nada sobre aquela face pálida, murmurava: “Ó, se eu pudesse estar agora onde estás!”.
Um sofrimento horrível invadiu a alma de Santa Catarina de Sena. Era uma dor terrível, acompa­nhada de uma doce paz. Compreendeu ela que seria a dor das almas do purgatório.
Outro exemplo de vítima pelas almas nos deu esta Santinha ainda há pouco canonizada, Santa Ge­ma Galgani. Ofereceu-se pela conversão dos peca­dores e pelas almas do purgatório. Um dia, diz ela, sofri durante duas horas em favor de uma alma do purgatório. Tinha a cabeça dolorida, que o menor movimento me era insuportável. Era terrível! Gema soube que uma religiosa Passionista do Mosteiro de Corneto estava para morrer. Ela pediu a Nosso Se­nhor que desejaria pagar a dívida da Divina Justiça por aquela alma, a fim de que entrasse logo no céu. O Senhor ouviu-a. A Irmã faleceu e pouco depois apareceu a Gema, dizendo estar sofrendo muito no purgatório. A Santa não teve sossego. Fez toda sorte de penitência e clamava: Jesus, salvai-a! Jesus, mandai logo para o céu nossa Irmã!
Durante dezesseis dias consecutivos os sofri­mentos de Gema foram incríveis. Finalmente, che­gou a hora da libertação. A Irmãzinha aparece a Ge­ma, livre do purgatório: Sou feliz, vou para meu Je­sus para sempre! Agradeceu e partiu para o céu[2].
Contam-se inúmeros fatos de penitências extraordinárias dos Santos pela libertação das almas do purgatório. São Nicolau de Tolentino, o Anjo do purgatório, jejuava e tomava sangrentas disciplinas pelo purgatório. Santa Margarida Maria fazia o mes­mo com uma grande generosidade e heroísmo. Que disciplinas sangrentas e que sofrimentos pelas almas!
Se não podemos imitar o heroísmo dos Santos, saibamos pelo menos oferecer algum sacrifício pelas pobres almas, pelos nossos defuntos queridos.

Exemplo
O Padre Mateus Leconte, O.P., e o purgatório
Em 1887 morreu, em Jerusalém, o célebre Padre Dominicano, Frei Mateus Leconte, homem de grande talento e de uma virtude admirável. Foi um missio­nário que converteu muita gente em pregações pelas principais cidades da Europa. Quis, depois de uma vida apostólica cheia de méritos, recolher-se na Cida­de Santa e fundar lá um convento da sua Ordem rio lugar onde foi martirizado o protomártir Santo Es­tevão. Caiu gravemente enfermo e foi transportado para um hospital, onde esteve sob os cuidados de uma santa religiosa que fora sua dirigida espiritual lon­gos anos, outrora. O piedoso Frei Mateus se assus­tava com as contas que havia de dar a Deus no tribunal do Juízo.
– Meu padre, consolava-o a enfermeira, fizes­tes tanto bem com vossa pregações e salvastes tan­tas almas! Que podeis temer?
— Ó, minha filha, respondia o bom padre, não basta fazer boas obras, é mister fazê-las bem feitas e com muita pureza de intenção! Quando eu morrer, reze muito e muito por mim...
— Rezarei, sim, meu padre, e se um dia não precisar mais, venha me avisar.
— Minha filha, responde sorrindo o Padre Ma­teus da simplicidade da Irmã, não é assim tão fácil voltar a este mundo. Em todo caso, prometo ajudá-la quando estiver no céu pela misericórdia de Deus. Ajude-me muito a entrar no céu, socorrendo-me no purgatório.
Poucos dias depois falecia santamente o bom pa­dre. Durante uma semana mais ou menos a religiosa orou muito pela alma do Padre Mateus. Depois, ou por ocupações, ou porque pensasse que o padre tão santo não precisasse mais de orações e sufrágios, deixou de orar por ele.
Um dia a boa religiosa estava na cela, em tra­balho, quando sentiu de repente um forte cheiro de fumaça e alguma coisa que se queimava e muita fumaça insuportável. Em meio do fumo ouviu um gemido angustioso e terrível, que a gelou toda de horror.
— Minha filha! Minha filha! Reze muito por mim, reze muito por mim!
E tudo desapareceu num instante. Quinze dias depois, o mesmo fenômeno se repete, mas já não com tanta intensidade. A religiosa, neste espaço de tem­po, rezou e sofreu muito pela alma que lhe pedira orações. Desta vez, a voz misteriosa lhe disse: mui­to agradecido, minha filha, as tuas orações me alivia­ram muito, foram um refrigerante orvalho nas cha­mas do purgatório que estou padecendo. Eu te peço uma caridade: a de dizer ao Prior do Convento que fundei, mande celebrar uma novena de Missas pela minha alma.
A religiosa, sem hesitar, foi transmitir o reca­do ao Superior. Este recebeu-a com certa descon­fiança, julgando se tratasse de uma visionária. Em todo caso, pensou ele, uma novena de Missas por al­ma do Padre Mateus não lhe fará mal. E sem demo­ra mandou celebrar as Santas Missas.
No último dia da novena, depois de celebrada a última Santa Missa, o Padre Guardião e os reli­giosos, após as últimas orações da noite, se retira­ram para suas celas. Um Irmão Leigo, homem muito equilibrado e de um temperamento positivo, nada sujeito a ilusões, sentiu que lhe batiam à porta da cela.
— Entre! Gritou logo.
Qual não foi o seu espanto ao ver entrar o Pa­dre Mateus, todo resplandecente e belo, cheio de ale­gria. O defunto se adiantou para o Irmão e tal como o fazia em vida, sorriu e perguntou com iam as coi­sas pelo convento.
— Tudo vai bem, Padre Mateus, só as saudades de V. Revma. e a falta que nos faz...
— Coragem, diz o defunto, eu agora parto para o céu e lá vos serei mais útil do que neste mundo.
E estendeu a mão, apertando a mão do leigo com tanta força, que este sentiu por muitos dias este aperto. E Frei Mateus desapareceu num halo de luz.

O Irmão, comovido, quis acordar o Superior e a Comunidade àquela hora. O Superior ouviu-o e con­ferindo as datas e as circunstâncias, e atendendo ao espírito equilibrado do Irmão leigo, viu que se trata­va de uma verdadeira aparição. Louvou a misericór­dia de Deus por ter mandado sufragar a alma do san­to sacerdote, segundo o pedido da Irmã. — (Il pur­gatorio — I nostri morti — Luigi Falletti, S.M.).

14 de Novembro: A oração pelos mortos

A ORAÇÃO PELOS MORTOS

Saudade e oração
Não julguemos que lembrar nossos mortos é ter apenas deles uma saudade que aos poucos vai decres­cendo em intensidade, à medida que passam os anos. Chorar nossos mortos e perpetuar-lhes a lembrança no mármore, na tela, no livro é permitido, sim. Po­rém, não fiquemos só nisto. Juntemos à saudade a oração. Não basta chorar, precisamos orar. E nun­ca se precisa tanto de oração como depois da morte. No purgatório as pobres almas estão como o paralítico da piscina que dizia a Jesus: — Hominem non habeo! Senhor, eu não tenho um homem que me lan­ce na piscina para ser curado.
Dependem aquelas almas santas de nossos sufrá­gios, de nossas orações e sacrifícios. Deus as entre­gou à nossa caridade. Sempre é eficaz a nossa oração pelas almas.
“É infinitamente mais útil e eficaz a oração pela libertação dos defuntos que padecem no purgatório, que a oração pelos pecadores da terra, cuja perversi­dade e más disposições paralisam os esforços para os salvar. As santas almas não põem obstáculo algum à eficácia das orações que por elas fazemos.” Tal é a opinião do piedoso oratoriano Pe. Faber.
Juntemos à nossa imensa saudade dos mortos nossos queridos, a oração e sempre a oração.
Escreveu o Pe. Sertillanges: “A lembrança dos mortos sem a oração, é uma lembrança fria, um tris­te pensamento. É uma exploração do nada. Porém com a oração, é um vento que sopra em direção a Deus, é uma ascensão nas asas da esperança”. (Le probléme de la prière. Revue de Jeunes — Nov. 1915.)
Oremos pelas almas benditas que padecem no purgatório! Demos-lhe a esmola de nossas preces fer­vorosas e da riqueza das indulgencias do tesouro da Igreja.
Dizia São Francisco de Sales: “Vós que chorais inconsoláveis a perda de vossos entes queridos, eu não vos proíbo de chorar, não! Chorai, mas procurai adoçar vossas lágrimas com o suave bálsamo da ora­ção que muito mais do que todas as demonstrações exteriores de pesar, pode concorrer para aliviar as almas que a morte vos arrebatou”.
Esta é também a linguagem da Igreja, nossa Mãe. Não proíbe nossas lágrimas. É tão humano chorar! Todavia não fiquemos tão só num pranto estéril e desesperado. Oremos! Juntemos ao pranto nossas orações. Saudade e oração. Choremos nossos mortos como cristãos verdadeiros.

Meio fácil
Sim, é o mais fácil dos meios de socorrer os mor­tos, a oração. Alguns podem achar difícil o jejum, ou a mortificação, podem se queixar da pobreza que: não lhes permite dar esmolas, mas quem pode se excusar e desculpar-se de não poder orar?
A mais curta oração feita com as devidas disposições é um alívio para os fiéis defuntos. Quem não pode bradar: dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!  
Fez Nosso Senhor tantas promessas à oração! “Pedi e recebereis, batei e se vos há de abrir. É pre­ciso sempre orar”. A oração de Marta e Maria leva Jesus a ressuscitar Lázaro. Nossas preces pelos de­funtos hão de tirar as pobres almas daquele estado de morte em que se encontram.
As lágrimas, as flores, os mausoléus pomposos nada aproveitam aos mortos. É melhor rezar por eles. “Poupai vossas lágrimas, dizia São João Cri­sóstomo, pelos defuntos e dai-lhes mais orações”. Es­creve Santo Ambrosio numa das suas cartas a Faustinus, que acabava de perder a irmã: “É preciso assisti-la com orações mais do que chorá-la, e convém recomendar a sua alma muito a Deus na oração. Cho­ra menos e reza mais”.
Repitamos também esta recomendação a tantos que choram seus mortos sem se lembrarem de uma prece, de uma Santa Missa, de uma obra de cari­dade para sufragar-lhes as pobres almas. Quantas orações tão belas e eficazes e poderosos para o su­frágio dos nossos mortos! O Padre Nosso, a Ave Ma­ria, o De Profundis, o Ofício dos mortos. A Igreja, nossa Mãe, nos dá exemplo de oração pelos defuntos. Termina muitas vezes as suas preces litúrgicas como as Horas canônicas pela súplica tocante: “Fidelium animas per misericordiam Dei requiescat in pace”. E as almas dos fiéis pela misericórdia de Deus descansem em paz! Desde os tempos primitivos, e já nas catacumbas, a prece pelos defuntos era conhecida e praticada na Igreja. Encontram-se nas pedras inscrições como estas: Vitório, que Deus refrigere o teu espírito! Antonia, doce alma, que Deus te de o refrigério! Que Cristo te ponha na paz! Que tua alma re­pouse em Deus! Sempre as súplicas a Deus pedindo refrigério, luz e paz para os mortos. É muito agra­dável a Deus a oração pelos mortos.
Um dia, Santa Gertrudes rezava com fervor pe­los defuntos, quando Nosso Senhor lhe fez ouvir es­tas palavras: “Eu sinto um prazer todo especial pela oração que me fazem pelos fiéis defuntos, principalmente quando vejo que à compaixão natural se junta a boa vontade de a tornar mais meritória. A oração dos fiéis desce a todo instante sobre as almas do pur­gatório como um orvalho refrigerante e benéfico, co­mo um bálsamo salutar que adoça e acalma suas do­res e ainda as livra das suas prisões mais ou menos rapidamente, conforme o fervor da devoção com que é feita”. Noutra ocasião, disse Nosso Senhor a sua serva querida: “Muitíssimo grata me é a oração pe­las almas do purgatório, porque por ela tenho oca­sião de libertá-las das suas penas e introduzi-las na glória eterna”.
Eis aí um meio tão poderoso de ajudar as pobres almas, e tão fácil, tão ao nosso alcance! Oremos e muito pelas pobres almas!

Oremos pelos fiéis defuntos!
Sim, já que a oração é tão poderosa para socor­rer os mortos, aliviar as penas das pobres almas, va­mos em socorro do purgatório! “A oração da alma fervorosa, diz São Bernardo, sobe até o céu e de lá não desce sem ser ouvida. Se pede amor de Deus, vem dele cheia; se pede humildade, esta logo a vem adornar; si pede a libertação das almas do purgató­rio, tem igualmente todo poder para alcançá-la”.
São João Damasceno escreve: “Não vos pode­ria narrar tantos testemunhos encontrados na vida dos santos pelos quais se provam claramente as van­tagens da oração que se fazem pelos defuntos! Não é em vão que se reza pelos mortos!”.
Todas as orações são úteis para as almas, mas algumas mais do que outras. Por exemplo, as orações canônicas do Breviário ou Divino Ofício são muito mais valiosas e eficazes. Que valor não terá uma prece oficial da Igreja pelos mortos! Depois, apro­veitemos o tesouro da Via Sacra, acompanhando os mistérios dolorosos da Paixão do Salvador e ofere­cendo o Preciosíssimo Sangue para refrigério do pur­gatório. Que dizer do Rosário? Que tesouro da Igre­ja padecente!
Apliquemos todas as indulgências do Rosário pe­las almas. Uma jovem libertada do purgatório pelo rosário de São Domingos, apareceu a este servo da Virgem e lhe disse: “Em nome das almas do purga­tório eu vos conjuro, pregai por toda parte e fazei conhecer a toda gente a devoção do Rosário. Que os fiéis apliquem às pobres almas as indulgências e os outros favores espirituais desta devoção tão santa. A Santíssima Virgem e os Anjos e Santos se alegram com o Rosário, e as almas libertadas por ele rezam no céu pelos seus libertadores”.
Façamos novenas e orações em comum pelos mor­tos, principalmente logo depois que deixaram eles este mundo. Há o piedoso costume de se fazer uma novena pelo falecido, começando logo no dia seguinte ao da morte ou do enterro. Durante nove dias se reúne a família em torno de um altarzinho para im­plorar a misericórdia do Senhor pelo defunto. Mul­tipliquemos fervorosas preces pelos nossos mortos queridos e pelas almas mais abandonadas. “Minha filha, dizia certa vez Nosso Senhor a Santa Lutgarda, não posso resistir às tuas súplicas. A alma pela qual pedes logo estará livre dos seus sofrimentos”. Ó, não será esta a resposta que nos dará Nosso Se­nhor também, si orarmos com todo fervor de nossa alma, com toda caridade pelos defuntos?
 Um santo bispo, conta Rossingnolli em suas Ma­ravilhas do purgatório, um santo bispo teve um so­nho. Viu uma criança que com um anzol de ouro e uma linha de prata retirava uma mulher de um pro­fundo poço. Acordou, abriu a janela e viu no cemi­tério, que lhe estava no fundo da casa e vizinho, um menino tal como o que viu em sonho, ajoelhado junto a um túmulo, em oração.
— Que faz aí, menino? pergunta-lhe o bispo.
— Eu rezo um Padre Nosso e um De Profundis pela alma de minha mãe, que aqui está sepultada.
Entendeu logo o santo prelado que a oração sin­gela do pequenino era o anzol de ouro e o Padre Nos­so e o De Profundis o fio misterioso que vira em so­nho. Tal é a nossa oração pelos mortos.

Exemplo
Santa Margarida de Cortona e as almas do purgatório
A grande pecadora que foi Margarida de Cortona e que convertida veio a ser a Madalena dos últimos tempos, pela admirável penitência e a grande santi­dade a que chegou, era uma grande devota das santas almas do purgatório. Desde que se converteu dedi­cou-se, cheia de caridade, a socorrer as almas sofredoras. Nosso Senhor lhe permitiu ver muitas vezes a triste condição destas almas para lhe excitar a com­paixão e interceder por elas. Dois negociantes foram assassinados, e por misericórdia de Maria Santíssima, da qual eram fervorosos devotos, alcançaram uma contrição perfeita na hora derradeira e se sal­varam. Apareceram à Santa e lhe disseram:
— “Escapamos da eterna condenação pela especial proteção de Maria Santíssima, mas teremos que padecer um horrível purgatório para expiar nossas injustiças e mentiras e pecados, ó Serva de Deus, nós vos pedimos que mandeis avisar nossos amigos e pa­rentes que façam restituições de nossos maus negó­cios e dêem muitas esmolas aos pobres em paga de nossas injustiças. Ajudai-nos, Margarida, com vos­sos sufrágios”.
A Santa se empenhou muito com orações e peni­tências em socorrer estas pobres almas. E assim fa­zia sempre que Nosso Senhor lhe revelava a necessi­dade e as aflições de algumas almas do purgatório. Quando faleceu o pai da Santa penitente, ofereceu ela por aquela alma querida muitas orações e toda sorte de sufrágios, penitências e santas Comunhões.
Deus Nosso Senhor lhe fez conhecer que as suas orações aliviaram as almas do seu pai e da mãe, e que tiveram muito abreviados dias de purgatório.
Também ao saber da morte de uma criada, Gillia, que durante muito tempo ficou com ela, Margari­da não cessou de recomendar esta alma da pobrezi­nha a Nosso Senhor. Foi-lhe revelado que a criada ficaria no purgatório apenas até a festa da Purifi­cação de Nossa Senhora e logo seria levada ao céu pelos Anjos.

Na hora da morte, Santa Margarida de Cortona viu uma multidão de almas com esplendor da glória do céu que vinham ao encontro da sua benfeitora, cheias de gratidão. Era a recompensa da sua dedi­cação e devoção às almas do purgatório.

13 de Novembro: A Santa Comunhão pelos mortos


A SANTA COMUNHÃO PELOS MORTOS
Depois da Santa Missa...

Sim, depois da Santa Missa, não há sufrágio me­lhor e mais poderoso para socorrer as pobres almas que a Santa Comunhão. Escreveu São Boaventura: “Que a caridade te leve a comungar, porque nada há tão eficaz para proporcionar descanso aos que pade­cem no purgatório”.
É verdade que a Eucaristia como alimento espi­ritual é destinada aos vivos. É o cibus viatorum — alimento dos viajores, no expressivo e belo dizer da Liturgia. Tem por fim sustentar a alma na peregri­nação terrena, fortificá-la na luta contra os inimi­gos. Como pode ser um auxílio e sufragar os mortos? Discutiram os teólogos esta questão, mas todos estão de acordo que muito mérito e muitas obras boas faz quem recebe o Corpo de Cristo e esta união íntima da alma com seu Deus á torna mais agradável e mais poderosa para interceder pelos mortos, e torna a Co­munhão um dos mais poderosos e úteis sufrágios de­pois da Santa Missa. Dizia Tobias: “Põe o teu pão e o teu vinho sobre a sepultura do justo”. Como se aplica bem esta passagem da Escritura à Comunhão pelos mortos! É o Pão de Vida eterna e o Vinho transubstanciado no Sangue de Jesus Cristo que vamos colocar em nosso coração para implorarmos a mise­ricórdia pelos nossos queridos e saudosos mortos! A lembrança dos mortos unida à Santa Eucaristia é tão bela e consoladora! Não é só pelo Sacrifício do Cor­po e do Sangue de Jesus Cristo que se podem aliviar as almas do purgatório. A Sagrada Eucaristia como sacramento pode ser de grande alívio para os defuntos, principalmente quando os fiéis vivos se unem para aplicar o fruto de uma Comunhão geral. É uma prá­tica autorizada pela Igreja. A Comunhão dignamen­te recebida é muito proveitosa para os fiéis defuntos. Quantos atos bons não se praticam numa só Comu­nhão! Preparação habitual pelo estado de graça que muitas vezes custa tanto ao cristão conservá-lo, pre­paração próxima pelos atos de fé, esperança e de amor, enfim, os sacrifícios que tornam meritória pa­ra os defuntos como sufrágio, a Comunhão. E de­mais, aquela união íntima da alma com seu Criador e Redentor nos momentos depois da Comunhão, não fazem de quem comunga um mediador entre Deus e as pobres almas, para pedir, com fervor, o alívio dos mortos?
Diz Santo Ambrósio que “a Eucaristia é um sa­cramento de descanso e paz para os defuntos e ao mesmo tempo um banquete”. Logo, a Comunhão pode aliviar os mortos, na opinião do Santo Doutor. São João Crisóstomo chama a Comunhão auxílio dos defuntos. E São Cirilo, o maior auxílio dos defuntos — maximum defunctorum juvamen.
Se soubéssemos quantas graças de santidade po­demos atrair para nossas almas com a Santa Comu­nhão, com a participação do Corpo e do Sangue de Cristo, quanto consolo e alívio podemos dar aos que sofrem no purgatório, sentiríamos um desejo arden­te de comungar muitas vezes pelos nossos mortos e aplicar em sufrágio das pobres almas sofredoras to­dos os méritos que podemos adquirir com as nossas comunhões fervorosas. Procuremos fazer boas Comunhões, lembrando-nos de quanto melhor as fizer­mos, tanto mais aliviaremos os mortos.

A Comunhão mensal pelas almas do purgatório
Sejamos práticos. Precisamos socorrer os mor­tos e santificar nossa alma.
A Sagrada Eucaristia é nosso tesouro da terra e é nossa, nosso alimento o Sacramento dos viajores, dos que peregrinamos por esta vida em demanda da eternidade. Para nosso proveito espiritual, e, em su­frágio das pobres almas, vamos comungar com mais frequência. A Comunhão mensal pelas almas não se­ria um incentivo poderoso para a nossa vida espiritual e um grande alívio para os mortos?
É celebre a sentença do Papa Alexandre VI: “Si quis pro animabus in purgatorio detentis, animo illis proficiendi, orationem fecerit, obligat eas ad antidota isve gratitudinem” — Todo o que reza, e muito mais ainda quem comunga pelas almas detidas do purgatório, com o desejo de aliviá-las as obriga à gratidão e remuneração.
A prática da Comunhão mensal pelos fiéis de­funtos é muito antiga. Em algumas regiões é muito concorrida e produz frutos maravilhosos. Começou este piedoso costume em Roma, no pontificado do Papa Paulo V, que se mostrou muito favorável a ela e ele mesmo a pôs em prática, na Cidade Eterna, com frutos surpreendentes. Era incrível como os fiéis afluíam às igrejas cada mês para sufragar seus mor­tos queridos pela Santa Comunhão. Os sucessores de Paulo V continuaram a devoção que se desenvolveu tanto a ponto de só em Roma se ver num dia trinta mil Comunhões pelas almas. A prática passou de Roma para outras cidades da Itália, depois para a França e muitos países europeus.
Ora, entre nós onde o povo é tão devoto das al­mas do purgatório, por que não se há de generalizar o dia da Comunhão mensal pelas almas? Cada Co­munidade religiosa, cada paróquia deveria ter o seu dia mensal das almas. O dia da Comunhão pelas al­mas. De preferência deveria se escolher uma segun­da-feira, quando possível. Nas paróquias talvez um dos domingos, para favorecer o povo. Ó, quem nos dera tivéssemos cada mês, um dia dos mortos, um dia para as santas almas! Missa, Comunhão geral, sufrágios e orações pelos mortos! Entretanto, se esta prática não se faz coletivamente, que nos impede fa­zê-la em particular, e estimular outros a fazerem ó mesmo? Sejamos apóstolos da Comunhão mensal pe­los defuntos. Vamos à Mesa Santa levar algum refrigério ao purgatório, pelas nossas orações e sacrifí­cios em união com Jesus Hóstia. Dizer com Jesus no coração: Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno e bri­lhe para elas a perpétua luz! Oferecer o Sangue Pre­ciosíssimo de Jesus ao Eterno Pai, para o alívio das santas almas!
Não podemos fazer tudo isto numa Comunhão? Há pessoas piedosas e compassivas que oferecem ca­da segunda-feira uma Comunhão pelas almas. É a Comunhão semanal pelos fiéis defuntos. Tanto me­lhor. De vez em quando novenas de Comunhões pe­las almas. Como fazem bem a nós e às pobres al­mas, estas práticas tão edificantes e de tão grande valor! Façamos muitas Comunhões por nossos mor­tos. Propaguemos o uso da Comunhão mensal pelas almas!

Alguns exemplos
Temos tocantes exemplos para nosso estímulo na prática da Comunhão pelos mortos. Santa Madalena de Pazzi perdera um irmão, e ela o vira no sofrimen­to do purgatório, em meio de grandes tormentos. Pôs-se a rezar e sofrer por ele.
Um dia, diz esta pobre alma sofredora à irmã: “Minha irmã, eu padeço e necessito de cento e sete Comunhões para me livrar do purgatório”. Santa Ma­dalena de Pazzi com todo fervor começou logo a sé­rie de Santas Comunhões pela libertação daquela al­ma querida e o conseguiu. Costumava a Santa ex­clamar em êxtase: “Ó Sangue precioso de Jesus Cris­to! Piedade, Senhor! Misericórdia! Livrai as almas da prisão de fogo!”. E oferecia o Sangue de Jesus pe­las almas e comungava muitas vezes por elas.
O Venerável Luís de Blois, conta que um piedo­so servo de Deus foi visitado por uma alma do pur­gatório que lhe fez conhecer os tormentos horríveis que padecia. Estava sofrendo muito por ter recebido a Santa Comunhão sem preparação devida. “Meu amigo, diz a pobre alma num gemido, eu te rogo que faças por minha alma uma Comunhão bem fervoro­sa”. O amigo piedoso assim o fez e sem demora. Esta boa Comunhão obteve o que havia pedido a pobre al­ma, que se viu livre do suplício. Apareceu cheia de gratidão a feliz alma salva. “Graças, mil graças, meu querido amigo. Vou contemplar a face de meu Deus para sempre!”.
Não podemos duvidar da eficácia da Santa Co­munhão para alívio dos mortos. Na vida de uma ser­va de Deus, Maria Luisa de Jesus[1] se conta que num dia da Festa do Corpo de Deus, na hora da San­ta Comunhão, Nosso Senhor lhe apareceu e disse: “Eis o meu corpo que eu entreguei à morte para re­missão do gênero humano e que permanece no Sacramento do Altar”. Jesus, diz a vidente, me fez re­citar nove vezes: “Louvado e agradecido seja a cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento, e depois me disse: “Toma todas as indulgências e vai ao purgatório aliviar as almas que lá estão prisio­neiras”.

No momento da Santa Comunhão, Nosso Senhor diz à sua serva que tome uma chave simbólica, me­tade ouro e metade ferro, traduzindo pelo ouro a mi­sericórdia e pelo ferro a Justiça, e vá libertar as prisioneiras do purgatório.
Que tocante e belo simbolismo! Na hora de nos­sa Comunhão pelos fiéis defuntos, por nossas orações fervorosas e pelos méritos deste ato tão sublime, co­mo que recebemos das mãos de Nosso Senhor a cha­ve de ouro da Misericórdia e de ferro da Justiça, para podermos com ela pagarmos a dívida das pobres al­mas e abrir as portas do purgatório.
Não só a Comunhão, mas nossas adorações e vi­sitas ao Santíssimo podem aliviar muito as pobres almas. Quantas indulgências não tem a devoção eucarística! Vamos aproveitá-las pelos defuntos.

Exemplo
Santa Teresa e a alma de D. Bernardino
Na vida de Santa Teresa lemos um acontecimen­to que nos mostra como Nossa Senhora recompensa seus devotos.
Um jovem fidalgo, de nome Bernardino de Mendoza, muito devoto de Nossa Senhora do Carmo, de­sejava dar a Nossa Senhora uma prova de seu amor. Por isso ofereceu a Teresa uma casa que pos­suía perto da cidade de Valadolid para que ela insta­lasse ali um convento de Nossa Senhora do Carmo. A Santa no começo não se sentia muito disposta a aceitar o donativo para não abrir convento fora da cidade. Mas como a oferta era feita de muito boa vontade e em louvor de Nossa Senhora, não queria privar do merecimento o jovem fidalgo a quem a Virgem Santíssima de certo ajudaria a converter-se para uma vida cristã e virtuosa. Levada por esta es­perança, aceitou a doação da casa.
Cerca de dois meses depois, o fidalgo caiu gra­vemente enfermo. Perdeu a fala e não pôde confes­sar-se, mas deu sinais de arrependimento dos seus pe­cados, pouco depois faleceu. Teresa estava em ou­tra cidade distante dali. Mas Nosso Senhor apare­ceu-lhe e disse: “Minha filha, a salvação deste ho­mem correu grande risco, mas tive dele compaixão e aceitei-o com misericórdia à vista da sua devoção à minha Mãe e da homenagem que lhe prestou dando a casa para ser fundado um convento em seu louvor. Mas ele só sairá do purgatório no dia em que for ce­lebrada a primeira Missa neste novo convento”.
Desde então Teresa tinha continuamente diante dos olhos os sofrimentos desta alma e ardia em de­sejos de instalar o novo convento. Mas apesar de sua boa vontade, apareciam muitas dificuldades que re­tardavam os trabalhos da adaptação da casa e o começo da construção da nova igreja. Um dia, quando ela estava no convento de São José de Medina, Nosso Senhor lhe disse: Apressa-te, pois esta alma sofre muito. A Santa fez novos esforços e empregou toda energia para vencer os empecilhos e apressar as obras. Enfim, pôde ser lançada a primeira pedra da nova igreja e Teresa alcançou a permissão de ser celebra­da no lugar uma Missa campal.
Entretanto, não julgou que a alma do fidalgo já ficasse livre do purgatório por esta Missa, pois as palavras de Nosso Senhor tinham sido muito claras. Urgiu, pois, por todos os meios a execução rápida da construção e afinal viu-a concluída.
Durante a primeira Missa, à hora da Comunhão o sacerdote aproximou-se de Teresa e das outras Ir­mãs para dar-lhes a Sagrada Hóstia. No momento em que Teresa recebeu Nosso Senhor, ela viu a seu lado o falecido fidalgo com o rosto todo resplande­cente; cheio de alegria e de mãos postas, ele lhe agra­deceu o que tinha feito para livrá-lo do purgatório. Depois ela viu-o elevar-se ao céu.
Contando este fato em um de seus livros, Santa Teresa acrescenta: "Ó que grande importância tem toda homenagem que se presta à Mãe de Deus! Quem poderia descrever quanto ela agrada a Deus e quão grande é a misericórdia de Nosso Senhor!”.

[1] Vie — Servante de Dieu Souer Marie Louise de Jesus — Naples, 1897

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Fonte: Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas.  Monsenhor Ascânio Brandão

11 de Novembro




O PURGATÓRIO E AS ALMAS CONSA­GRADAS A DEUS

Maior responsabilidade

Sim, todos os que se consagraram ao serviço de Nosso Senhor assumiram tremendas responsabilida­des com a consagração ou os votos que fizeram. Re­ceberam mais luzes e graças do que os simples fiéis. Foram privilegiados pela vocação, que os colocou num plano superior. Muitas graças e privilégios, sim, po­rém muitas e tremendas responsabilidades. Hão de dar contas mais severas a Nosso Senhor.
Que zelo não devem ter para conservarem a pu­reza de consciência e evitarem todo pecado, ainda o mais leve!
Santa Francisca Romana, cujas visões do pur­gatório são bem conhecidas, dizia ter visto no fundo do abismo as almas consagradas a Deus, e que pade­ciam no purgatório e abaixo, muito abaixo dos leigos. As penas, dizia ela, eram proporcionadas à dignida­de e à posição que ocupavam na Igreja.
As visões de Santa Francisca são confirmadas por muitas outras idênticas de outros santos e almas eleitas, que sempre atestam o rigor com que a divina Justiça pune no purgatório as faltas e imperfeições dos seus eleitos.
Que isto cause impressão nas almas consagradas e se lembrem que sofrimento estão preparando para depois da morte quando levam vida de tibieza e não se esforçam por corrigir defeitos que talvez julguem sem importância! Tremam os Superiores! Tremam os Prelados! Que excusa podem achar diante do Senhor o grande Juiz dos vivos e dos mortos quem recebeu com a teologia e com a ciência sagrada tantas luzes sobre a vida espiritual e viveu inundado num oceano de graças e de misericórdia? E as almas que foram entregues aos pastores e das quais hão de prestar contas ao Senhor? Compreende-se porque os Santos fugiam das prelaturas e dignidades, porque tremiam diante de uma mitra ou de um báculo pastoral.
É preciso ser muito fiel à vocação e cumprir a missão confiada com muita perfeição. A Madre Fran­cisca do Santíssimo Sacramento, uma santa religiosa carmelita de Pampeluna, teve 220 aparições de almas do purgatório. Entre estas almas viu dois Papas, Cardeais, Arcebispos e Bispos, Cônegos e Padres e muitos religiosos e religiosas. Nestas revelações, os dignitários eclesiásticos lamentavam dolorosa e ter­rivelmente terem desejado e procurado dignidades na Igreja. E muitos sofriam por negligências no ser­viço de Deus. — Ó Francisca, gemia uma alma sacer­dotal, um Bispo! Um Bispo! Meu Deus! Antes eu nunca o tivesse sido... Que responsabilidade! Outra se lamentava: “Os homens pensam que basta ser pa­dre. É um estado que exige uma grande pureza de vida! Francisca, eu apenas me salvei!” (Le Purga­toire — Louvet).
Devemos rezar com muito fervor e oferecer mais sufrágios pelas almas consagradas a Deus. Elas da­rão contas mais severas a Nosso Senhor e terão um purgatório mais longo e doloroso. Não canonizemos muito depressa sacerdotes e religiosos logo após a morte. O purgatório das almas consagradas a Deus é terrível, dizia uma vidente. Por quê? Porque tive­ram mais facilidade e muitos meios para evitar e abre­viar o seu purgatório, e não os souberam aproveitar.

Quem mais recebeu...
Quem de Deus recebeu mais graças, há de dar contas das graças com mais rigor. Os ignorantes, os simples, os que não receberam tantos favores e pri­vilégios do céu, naturalmente terão que dar a Deus menos contas dos seus pecados e serão julgados com menos severidade. Que não será o juízo de um sa­cerdote, de uma religiosa, almas estas cercadas de luzes e enriquecidas de uma multidão de graças?! Eis porque mais terrível há de ser o purgatório dos sacerdotes e das almas consagradas a Deus, bem co­mo das pessoas que possuem mais conhecimento e re­ceberam mais graças de Nosso Senhor nesta vida. Não nos lembramos da parábola dos talentos? Santa Francisca Romana teve muitas visões admiráveis, e Nosso Senhor a fez descer em espírito ao purgatório.
Viu ela sacerdotes e religiosas muito abaixo dos leigos, em sofrimentos horríveis e padecen­do muito mais do que leigos que haviam cometido faltas bem graves e alcançaram o perdão na hora da morte. Foi revelado à Santa que padeciam mais por­que neste mundo receberam muito mais graças, ocupa­va um lugar muito alto no sacerdócio e a consagração ao serviço de Deus.
— Minha filha, dizia uma alma do purgatório a uma religiosa, segundo conta Mons. Louvet, minha filha, seja bem santa, porque o purgatório dos sacer­dotes e das religiosas é terrível!
No dia primeiro do ano, Santa Margarida Maria rezava por três pessoas recentemente falecidas. Duas religiosas e um secular. Nosso Senhor lhe apresentou as três almas, dizendo-lhe: Qual das três queres sal­var primeiro, filha?
— Senhor, escolhei Vós mesmo, segundo o que for para vossa maior glória.
Então Nosso Senhor escolheu a pessoa secular, dizendo que as religiosas tiveram nesta vida muito mais graças e meios para expiar os pecados pela ob­servância da Regra, e que o secular não havia rece­bido tantos privilégios e favores...
Os ignorantes, os pobrezinhos, os humildes cheios de boa vontade e que não receberam de Deus tantas graças e meios de se santificar como as almas con­sagradas a Deus, terão naturalmente muita excusa no Tribunal divino e bem aliviado lhes será o purga­tório pela divina misericórdia.
Os religiosos meditem como em diversas apari­ções particulares Nosso Senhor revela quanto pune na outra vida a falta de observância da Santa Regra e como esta Santa Regra facilita a expiação da pena temporal neste mundo e abrevia, senão livra a alma consagrada do purgatório.
A observância regular é um meio poderoso de santificação, uma grande penitência que enche a al­ma de méritos. Por um pouco de sacrifício de quan­tas penas não se livram na outra vida os religiosos fiéis à santa Regra. E como devem tremer as almas consagradas ao pensarem nas contas mais rigoro­sas que hão de dar a Deus pelo número tão grande de graças escolhidas que receberam e às quais talvez não tenham correspondido.

Até os Santos...
Para entrar no céu é mister uma pureza angéli­ca, uma alma bem purificada e sem a menor mancha de imperfeição. Eis porque até santos, homens de gran­de virtude passaram pelas chamas expiadoras do pur­gatório, segundo diversas revelações particulares. O Venerável Pe. Cláudio de La Colombière, diretor es­piritual de Santa Margarida Maria e um homem de extraordinária virtude, chamado por Nosso Senhor amigo e fiel servo, segundo foi revelado à Santa sua dirigida, passou pelo purgatório. Morreu ele em Paray le Monial em 15 de Fevereiro de 1682, às cinco horas da manhã. Uma jovem veio trazer a notícia à Santa: rezai por ele e mandai rezar por sua alma! Pouco depois do enterro, recebeu a Santa outro re­cado misterioso: deixai de rezar por ele, porque agora ele é quem rezará por vós.
Algum tempo depois, a Superiora do Mosteiro notou que Margarida não rezava nem pedia mais ora­ções pelo seu Diretor espiritual e perguntou-lhe a causa.
— Minha Madre, o Pe. La Colombière não está mais em condições de receber nossos sufrágios. Ago­ra é ele quem reza e pede por nós. Está no céu. Gra­ças à misericórdia do Sagrado Coração de Jesus, ocupa um belo lugar no céu. Apenas para expiar algumas pequenas negligências no exercício do amor divino, passou ele pelo purgatório e esteve privado da Visão Divina até o momento de ser sepultado.
Eis um grande servo de Deus privado do céu por algumas longas horas de um dia.
Santa Lutgarda viu o grande e virtuoso Papa que foi Inocêncio III, nas chamas do purgatório.
— Quem és? Pergunta a Santa a uma aparição que sofria muito.
— Sou o Papa Inocêncio III.
Meu Deus! Um Papa tão santo no purga­tório?!...
— Sim, expio minhas faltas. Pela misericórdia de Maria fui salvo, mas ainda me falta uma longa expiação. Tenha pena de mim! Tenha pena de mim!
São Roberto Belarmino, no seu livro De Gemitu Columbae — Livro III, cap. IX — refere-se a esta aparição, concluindo: Qual será o prelado, o homem de responsabilidade que não trema diante disto? Quem não há de escrutar bem seu coração e procurar evi­tar as menores faltas?
Até os Santos passaram e passam pelo purga­tório. Como é necessário ser angélico e muito santo para entrar no céu!
Viram-se homens de uma grande virtude, santos, que passaram no purgatório, segundo o testemunho de revelações particulares, como as de Santa Brígi­da, Santa Teresa, Santa Margarida Maria e outras.
Quanta delicadeza de consciência não é preciso a um sacerdote para oferecer cada dia o Santo Sa­crifício da Missa e desempenhar a missão divina do seu ministério. Que purgatório terrível o do sacer­dote tíbio! Que purgatório terrível também o das re­ligiosas e religiosos que tão facilmente transgridem a Regra!

Exemplo
O purgatório e a Ordem Seráfica
A prática do sufrágio às almas é uma tradição da Ordem Seráfica! À grande penitente Santa Mar­garida de Cortona disse Nosso Senhor numa revela­ção: Recomenda da minha parte aos meus irmãos menores que se lembrem muito das almas do purga­tório, porque o seu número é incalculável, e quase ninguém reza por elas. Dize-lhes também da minha parte que não se imiscuam nas coisas do mundo e le­vem uma vida de pobreza e de recolhimento para que não sejam severamente castigados na outra vida.
Que lições para a nossa alma! E para consolo nosso, meditemos este exemplo que nos trás a Auréo­la Seráfica:
Uma crônica manuscrita do século XIII narra isto: “Um nosso irmão da Província da Saxônia vol­tava para o convento após uma pregação, quando lhe anunciaram que haviam falecido dois religiosos: o Padre Guardião e o Padre Vigário. Eis o que sucedeu. Na seguinte noite o padre estava em oração, quando vê entrarem na cela os dois defuntos cheios de esplendores e de uma beleza incomparável. Trê­mulo de emoção, pergunta-lhes:
— Como vos achais?
— Salvos pela misericórdia de Deus, — respon­dem os bem-aventurados — e gozamos da visão bea­tífica.
— Não passastes pelo fogo do purgatório?
— Não, porque fizemos nosso purgatório no fo­go da pobreza e Deus a aceitou em expiação. Fiquem todos sabendo que nenhum de nossos irmãos irá para o purgatório se observar fielmente a Regra de São Francisco e a santa pobreza, porque o crisol da pobre­za purifica tudo”.
Unde noveris quod nullus, servans Regulam Bea­ti Francisci et sanctam paupertatem ejus, purgato­rii poenas sustinet quia per caminum paupertatis om­nia purgantur.
O Terceiro Franciscano aí no século, trazendo oculto sob as vestes do mundo o hábito do Pai Se­ráfico, fiel à Regra, não tem uma garantia segura do céu?
A santa Regra das Ordens e Congregações re­ligiosas e das Ordens Terceiras, é sempre uma garan­tia de salvação, e ou livra ou alivia muito o purgató­rio a sua observância.

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Fonte: