23 de Novembro: O mérito do sufrágio


AS ALMAS DO PURGATÓRIO NOS AJUDAM
O mérito do sufrágio

Que os sufrágios que prestamos às pobres almas sofredoras do purgatório seja uma obra muito meri­tória e receberá certamente grande recompensa de Deus, nenhum teólogo o contesta. É uma obra de ca­ridade, e Nosso Senhor, que promete recompensa até a um copo de água dado em seu nome, como não há de ser propício a quem socorre as mais miseráveis e infelizes e desprotegidas criaturas: as pobres almas, que nada podem fazer por si para se livrarem dos tormentos a que estão submetidas pela Divina Justiça e dependem da nossa caridade! É certo que as almas libertadas das chamas da expiação, no céu, interce­dem por seus benfeitores, porque estão cheias da Di­vina Caridade e podem, como os Santos, nos valer neste mundo. Portanto, o mérito que adquirimos com a caridade do sufrágio será bem recompensado por­que a ingratidão nunca entrou no céu e as santas almas salvas por nós serão nossas advogadas e tudo farão por nós junto de Deus.
São Francisco de Sales vê no socorro que pres­tamos às almas, todas as obras de caridade. “Não é visitar os enfermos, diz o Santo Doutor, obter por nossas orações o alívio das pobres almas que sofrem no purgatório? Não é dar de beber aos que têm sede tão grande da visão de Deus, dar o orvalho da nossa oração às que estão entre as chamas? Não é dar de comer aos que têm fome, ajudá-las pelos meios que a fé nos oferece? Não é verdadeiramente libertar os prisioneiros? Não é vestir os nus e lhes dar uma ves­te de luz e de glória? Não é dar hospitalidade, dar entrada na Celeste Jerusalém e fazer as almas ami­gas de Deus e dos Santos, fazendo-as moradoras eter­nas da Eterna Sião?” [1].
Ora, se Nosso Senhor declara que no dia de Juízo há de dar o céu e uma grande recompensa às obras de caridade, não há de recompensar generosamente estas obras de caridade para com as benditas almas?

Tem muito mérito o sufrágio, o socorro às ben­ditas almas.
Diz também o piedoso oratoriano Pe. Faber[2], como que comentando São Francisco de Sales: “A principal devoção da Igreja consiste nas obras de mi­sericórdia, e vede como elas se encontram todas reu­nidas na devoção para com os mortos! Ela sacia a fome das almas dando-lhes Jesus, o Pão dos Anjos. Para estancar a sede inextinguível que as devora, apresenta-lhes o Precioso Sangue de Jesus. Dá, aos que estavam nus, a veste da glória. Visita os doen­tes, consola-os e dá-lhes remédios. Livra os cativos de cadeias mais terríveis que a morte e os põe em liberdade celeste e eterna. Acolhe os peregrinos e lhes dá a hospitalidade do céu. Sepulta os mortos no seio de Jesus para que aí gozem o eterno descanso”.
Ó, quando vier o dia de Juízo, felizes os que ti­verem socorrido as pobres almas! Quanto mérito nes­ta obra de caridade — o sufrágio dos mortos!

Podem as almas interceder por nós?
Já não contestamos que possam as almas nos ajudar quando no céu, e que Deus pelos méritos do sufrágio e da grande obra de caridade que praticamos socorrendo o purgatório nos conceda muitas graças e tudo podemos alcançar só com o mérito de tão boa obra. Todavia, vamos mais além e podemos afirmar: as almas podem nos ajudar mesmo no purgatório. Alguns teólogos o negam. Todavia a quase maioria deles e muitos dos mais autorizados, afirmam que as almas mesmo no purgatório, no estado de sofrimen­to, podem interceder por nós. A Igreja, apesar do silêncio sobre a questão, permite no entanto a ora­ção dos fiéis às almas e deixa esta devoção se desen­volver cada vez mais. Grandes Santos e até Douto­res da Igreja tiveram esta devoção e a aconselharam muitos autores seguros. Nas catacumbas se encon­tram inscrições como estas: que tua alma repouse em paz! Reza por tua irmã. É uma oração pelo defunto e uma prece ao defunto.
Diz o grande teólogo Suarez[3] (3) que em geral as almas do purgatório podem orar pela Igreja militan­te, e isto é conforme a idéia que devemos ter da Bon­dade de Deus. As almas do purgatório são santas e devem rezar como os Santos rezam. E, como os Santos, são atendidas na medida da gloria que deram a Deus quando estavam neste mundo. O sofrimento em que elas estão, longe de diminuir, aumenta, o va­lor e a eficácia das suas orações. Dizia um piedoso autor: “aqui na família da terra, os pedidos e as sú­plicas de um membro doente e que padece mais, não são atendidas com mais carinho e simpatia? Não são as almas os membros doloridos da Igreja?”[4].
Dizem alguns que as almas do purgatório não podem nos valer porque não podem conhecer nossas necessidades. Ainda que assim fosse, responde Sua­rez, as almas pedindo pela Igreja militante nos fazem participantes da sua oração em nosso favor. E não poderiam ter conhecimento de nossas necessidades pelo ministério dos Anjos? Diz Santo Tomás: “As almas dos mortos podem se interessar pelos vivos ainda que ignorem o seu estado, assim como os vivos podem se interessar pelas almas ainda que as igno­rem. Podem as almas do purgatório conhecer as ne­cessidades dos vivos pelas almas que partem deste mundo, ou pelos Anjos”[5].
Portanto, não podem as almas se interessarem pela nossa sorte neste mundo e rezarem por nós? É sentença comum dos teólogos, diz São Roberto Belarmino que as almas podem rezar pelos vivos[6].
Dizem também que o sofrimento das pobres almas é tão intenso e profundo, que elas não podem pensar em nós e nem nos valer.
O sofrimento das santas almas não as torna egoístas e não, lhes tira o sentido, o conhecimento da extrema necessidade em que nos encontramos muitas vezes e dos perigos a que estamos expostos nes­ta vida. As almas do purgatório estão numa ordem sobrenatural superior. Podem, pois, interceder por nós. É doutrina de muitos Santos Doutores e teólo­gos seguros.

As almas do purgatório nos socorrem
As almas do purgatório podem nos ajudar e o mérito da caridade de nossos sufrágios tudo pode nos alcançar da Divina Misericórdia em nosso favor. Pois estas benditas almas nos ajudam realmente e a experiência tem provado há tantos séculos quanto é eficaz invocar a proteção do purgatório.
Sim, as almas do purgatório por si não podem merecer na outra vida, mas podem fazer valer em nos­so favor, os méritos que adquiriram neste mundo. Por isto Santo Afonso, São Roberto Belarmino, dou­tores da Igreja, ensinaram que podemos invocar a proteção das almas do purgatório para obterem de Deus favores de que necessitamos. Dizia Santa Tere­sa: “Tudo quanto peço a Deus pela intercessão das almas do purgatório me é concedido”. Demos sufrá­gios às almas e Deus por esta caridade nos ajudará pelas orações e os méritos destas santas almas libertadas das chamas expiadoras.
Santa Catarina de Bolonha escrevia: “Quando quero obter com segurança uma graça, recorro às al­mas padecentes e a graça que suplico sempre me é concedida”.
Daí as expressões do Santo Cura d’Ars, que sem­pre repito: “Se soubéssemos quão grande é o poder das santas almas do purgatório e quantas graças po­demos alcançar por sua intercessão, não seriam elas tão esquecidas”.
Vamos, pois, tenhamos caridade, tenhamos pie­dade das pobres almas sofredoras. Deus não permi­tirá que sofra muito no purgatório quem neste mun­do socorreu os mortos. Portanto, é de nosso interes­se, sufragar os mortos. A experiência o prova mil vezes quanto a devoção às almas é útil e vantajosa aos vivos. “O que nós lhes dermos em sufrágios, diz Santo Ambrósio, se muda em graças para nós, e os havemos de achar depois da morte”.
 Nas revelações de Santa Brígida[7] lê-se que a Santa viu um Anjo que descendo ao purgatório para consolar as almas dizia: Bendito seja aquele que ain­da na terra, enquanto vivo, ajuda as almas do pur­gatório com orações e boas obras!
E ao mesmo tempo, das profundezas do abismo das chamas do purgatório, se ouvia um coro de vozes suplicantes: Ó Jesus Cristo, justo Juiz, em nome de vossa misericórdia infinita, não olheis nossas faltas inumeráveis, mas aos méritos de vossa preciosa Paixão. Ponde, Senhor, no coração dos eclesiásticos um sentimento de verdadeira caridade, a fim de que por suas orações, suas mortificações e esmolas e as in­dulgências que nos aplicarem nos socorram em nes­sa triste situação.
Outras vozes respondiam: Graças, mil graças aos que nos aliviam em nossas desgraças. Ó Senhor, que o vosso poder infinito dê o cêntuplo aos nossos ben­feitores que os levam à morada da vossa eterna luz.
 As santas almas repetem sempre esta súplica em favor dos seus benfeitores.
Diz a Sagrada Escritura: Benefac justo et inve­nies retributionem magnam. Fazei o bem ao justo e tereis grande recompensa. As almas do purgatório são santas almas de justos, cheios de méritos e de virtudes. Quanta santidade naquelas chamas expiadoras! Pois bem. Tudo o que fizemos por elas terá grande recompensa. É a palavra de Deus que no-lo garante!

Exemplo
A criada devota das almas do purgatório
Diversos autores, entre eles Berlioux, no seu “Mês das Almas”, Mons. Louvet, no seu “Le Purgatoire”, narram este fato, que este último autor diz ter se dado em Paris e no ano de 1817.
Uma piedosa e humilde criada tinha o costume de todos os meses tirar do seu pobre ordenado uma espórtula para uma missa pelas almas do purgatório. Fazia todo sacrifício, mas não deixava de mandar celebrar cada mês a Missa da sua devoção. Ia assis­tir ao Santo Sacrifício com muito fervor e pedia pela alma que mais necessidade tivesse de uma Missa pa­ra entrar no céu.
Deus a provou com uma doença que a fez sofrer muito e ainda perder o emprego. No dia em que saiu do hospital, só tinha consigo a importância necessá­ria para a espórtula de uma Missa. Pôs toda con­fiança em Deus e andou à procura de um emprego. Em vão. Não o achava em parte alguma. Passou pela igreja de Santo Eustáquio e entrou. Lembrou- se logo de que naquele mês não pode mandar cele­brar a Santa Missa pelas almas. Tirou da bolsa o dinheiro e pensou consigo: Se agora mando celebrar a Missa, que mc restará hoje para comer? Que será de mim? Que importa! Deus há de ter pena de mim. E demais, as pobres almas sofrem mais do que eu.
Foi à sacristia e perguntou se era possível celebrar-se ainda uma Missa. Felizmente, lá eslava um sacerdote sem intenção de Missa para aquele dia. Deu-lhe a espórtula, pediu a Missa pelas almas, assis­tiu-a com todo fervor e se retirou da igreja absolu­tamente sem vintém e sem saber para onde ir.
Estava assim pensando na sua pobre vida quan­do um moço alto, muito pálido, se aproximou dela e disse:
—A senhora anda à procura de um emprego?
— Sim, meu senhor, e necessito muito uma co­locação hoje mesmo...
— Pois então vá à casa de Madame X, rua tal, número tal, e creio que ela vos receberá, porque vai precisar de uma empregada hoje.
A pobre criada tão satisfeita ficou, que nem agradeceu ao moço. Quando voltou para trás, nem o viu mais. Foi à procura do endereço e ao chegar à casa indicada deu de encontro com uma mulher que descia a escada furiosa e a gritar contra al­guém.
— É aqui que mora Madame X? Pergunta-lhe.
— Sei lá! Desta casa não quero ver nem a som­bra. Bata na porta. Não quero saber desta mulher. Adeus!”.
A criada bateu timidamente a campainha e es­perou. Apareceu-lhe uma senhora de certa idade e aspecto muito bondoso.
— Minha senhora, diz a criada, eu acabo de sa­ber esta manhã que a senhora estava precisando de uma empregada e, como estou sem colocação, aqui venho me apresentar, e me disseram que a senhora é muito bondosa e me havia de acolher muito bem...
— Minha filha, diz a velha, isto é extraordiná­rio! Pois esta manhã eu não disse isto a ninguém e faz apenas meia hora que eu expulsei de minha casa esta empregada insolente que me perdeu o respeito.
Só eu sei que tenho necessidade de uma empregada. Quem te disse isto?
— Encontrei um moço na rua e ele me deu o nome da senhora, rua e número da casa, e aqui cheguei.
A velha não podia compreender quem pudesse ser o tal moço que havia indicado a casa. Neste ínterim, a empregada levanta os olhos e vê na parede um retrato.
— É aquele moço, minha senhora, ele mesmo...
 A pobre velha empalideceu.
— É meu filho, e meu filho morto!
A criada contou-lhe toda a sua devoção às santas almas, a Missa que havia mandado celebrar. A ve­lha tomou a pobrezinha num longo abraço e banhada em lágrimas lhe disse: Minha filha, este moço é meu filho já morto. Deveria estar no purgatório. Faleceu há dois anos. Tua Santa Missa o aliviou e libertou. Vamos, daqui por diante, orar juntas e não serás mi­nha criada, não, serás minha filha”.
Tomou a pobre criada abandonada e adotou-a co­mo membro da família.
Eis como Nosso Senhor recompensa os corações generosos para com as santas almas.

[1] L’Esprit de Saint François de Salles — II p., cap.
[2] Faber — O Purgatório — 36.
[3] Lib. I — De orat. — Cap. II.
[4] Jugie — Le Purgatoire — Chap. IV — II part.
[5] Sum. Theol. I — quest. 89 — art. 8 ao 1.
[6] R. Belarm. — De Purgatorio — I, 2 e 15.
[7] Revel. — Liber IV, cap. VII.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão
Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

22 de Novembro: Os pecadores ou as almas?


OS PECADORES OU AS ALMAS?
A questão

Levanta-se a questão célebre — o que será mais útil e necessário: rezar pela conversão dos pecadores ou pela libertação das almas do purgatório?
A dizer a verdade, penso que não há escolha en­tre as duas obras. Ambas são necessárias e não é possível que quem ame a Nosso Senhor possa ficar indiferente à sorte de tantos miseráveis pecadores arriscados a se perderem eternamente. Que zelo não precisamos ter pela salvação das almas remidas pelo Sangue de Cristo! “Os pecadores estão arriscados a se perderem, e no caminho da eterna condenação, di­zem, e as almas estão já na segurança do céu. Sob este aspecto parece mais necessária realmente a ora­ção pelos pecadores. Todavia, sabemos que a glória de Deus exige a libertação das pobres almas, almas queridas, cuja sorte depende de nós somente. Que será delas sem nós? O pecador abusa da graça, está no tempo de poder lucrar méritos e graças e não aproveita, põe obstáculo aos nossos esforços, não aproveita muita vez o que fazemos por ele. Pela opi­nião de vários autores piedosos e teólogos, e entre outros o rei dos teólogos, Santo Tomás de Aquino com a sua autoridade de maior Doutor da Igreja, afirma que Deus acolhe com mais fervor a oração que Lhe fazemos pelos mortos do que a que Lhe di­rigimos pelos vivos.
Eis a razão porque às vezes não alcançamos gra­ças por nenhum outro meio senão pelo sufrágio das benditas almas do purgatório. Deus que tanto dese­ja a posse no céu das almas queridas, abençoa mil vezes tudo quanto fazemos por elas. Santo Agosti­nho, outro Doutor da Igreja, diz: “Nada há mais agradável ao Senhor que o alívio dos fiéis defuntos”. E o grande orador sacro Bourdaloue o prova com sé­rios argumentos: “Não há um apostolado mais belo, mais meritório. É mais belo e mais meritório ainda que a conversão dos pecadores, dos infiéis e dos pagãos”.
Trabalhar pelas almas do purgatório é ter a doce certeza de que não trabalhamos em vão, porque nada se perde de nossos sufrágios. Os pecadores resistem à graça. As santas almas aproveitam todos os nossos sufrágios. No purgatório, diz o Pe. Faber, não se co­nhece a ingratidão.

Tudo será retribuído magnificamente um dia aos benfeitores.
O mais prático, então, será trabalharmos com grande zelo pela conversão dos pecadores, fazermos um bom apostolado, um generoso sacrifício para le­var almas a Nosso Senhor e oferecermos todos os méritos desta obra divina, desta obra de caridade es­piritual pelas almas do purgatório. Está solucionada a questão, sem inúteis e sutis discussões. — O mais perfeito e o melhor, é trabalhar pela conversão dos pecadores em sufrágio das almas do purgatório. E em nossas orações fazermos a mesma coisa. Unir nosso grito de compaixão pelas almas sofredoras, ao grito de compaixão pelos pecadores.

Uma discussão célebre
São Luiz Bertrão, dominicano, celebrava frequen­temente a Santa Missa pela conversão dos pecado­res, e raramente o fazia pelas almas do purgatório.
Um dos Irmãos da Ordem lhe perguntou porque assim procedia.
— Ora, meu irmão, as almas do purgatório têm já garantida a salvação eterna e os pecadores, coita­dos, estão expostos à eterna condenação do inferno.
— Sim, é verdade, responde o Irmão, mas, há outra consideração a fazer e bem séria. Suponhamos que dois pobres vos pedem esmola. Um, é estropiado e paralítico, absolutamente incapaz de se mover por si, não pode ganhar a vida, é-lhe impossível traba­lhar. O outro, ao invés, é moço, forte, está na misé­ria e implora a vossa caridade. A quem dareis de preferência a vossa esmola?
— Ao que não pode trabalhar... Responde o santo.
— Pois bem, meu caro padre, as almas do pur­gatório estão neste caso. Nada podem fazer por si. Para elas acabou o tempo da penitência e do mérito, da oração e das boas obras. Dependem de nós, da nossa caridade. O pecador, neste mundo, pode tra­balhar para sua salvação, tem os meios e a graça à sua disposição. Não vos parece, meu padre, que as almas do purgatório sejam mais necessitadas que os pecadores, das nossas orações?
São Luiz Bertrão meditou seriamente nas razões do Irmão e dali em diante orava pelos pecadores, sim, mas veio mais em auxílio das pobres almas do pur­gatório.
Realmente, neste mundo o pecador pode traba­lhar pela sua salvação e abusa da graça. É um pobre que necessita de esmola, sim, mas porque não trabalha. As almas são os pobres sem ninguém por elas. Não podem mais lutar nem merecer como nós. Para elas passou o tempo de lucrar. Estão entregues à Divina Justiça.

Todavia, creio que nesta matéria só Deus pode julgar.
A razão de Santo Tomás de Aquino é bem séria: os sufrágios pelos mortos são mais agradáveis a Deus que os que fazemos pelos vivos, porque aqueles se acham em mais premente necessidade e não podem se valer a si mesmos.
Os Santos que tiveram contato com o purgató­rio em revelações particulares, puderam nos dizer o quanto sentiram a necessidade de orar e sofrer e su­fragar por todas as maneiras as pobres almas sofre­doras. Não cometamos o erro de abandonar a oração pelas almas, sob o pretexto de que os pecadores têm mais necessidade e estão arriscados à condenação eterna.

Razões para socorrer as almas do purgatório
Estas razões são múltiplas e já as recordamos aqui em outros lugares. Sugerimos algumas outras. A primeira, o amor de Deus. Se amamos a Deus não havemos de querer vê-lo glorificado e amado cada vez mais pelos seus eleitos? Onde se encontra a per­feição do Amor? No céu. Uma alma salva dá tanta glória a Deus e vai para o seio do Amor eterno! Tudo que fazemos pelo nosso próximo glorifica a Deus.
Nosso Senhor mostrou o valor das obras de ca­ridade quando disse que seria feito a Ele mesmo o que fizermos ao próximo. Que maior obra de cari­dade que socorrer as pobres almas, como já vimos na opinião de São Francisco de Sales? Ora, o que mais glorifica a Deus é a alma na posse da eterna glória. Não é pois uma necessidade para quem ama a Deus desejar ver mais amado no céu por algumas almas salvas do purgatório? Se há muita alegria no céu quando se converte um pecador, há maior alegria ain­da quando um Justo entra na Glória. Eis mais uma razão para trabalharmos pelas almas do purgatório — a glorificação dos eleitos.
E depois a gratidão. Temos o dever de justiça e de gratidão para com os mortos. Havemos de so­corrê-los porque muitos deles são nossos pais, pa­rentes, amigos, súditos, e talvez muitos estejam sofrendo no purgatório por nossa causa, por nosso mau exemplo, por algum escândalo que lhes demos. Só Deus sabe quanta repercussão têm nossas faltas! Não é um dever orar pelos mortos? Cuidemos da con­versão dos pecadores, mas não nos esqueçamos des­te dever de justiça e de caridade. Dever muito mais grave do que estamos pensando.
Não hesitemos — vamos dar nossas preferên­cias ao sufrágio pelas santas almas, embora nunca deixemos de orar, trabalhar e sofrer pelos pobres pecadores. E demais, a devoção às almas é muito proveitosa e santificadora e concorre para nosso pro­veito espiritual, nos santifica e nos torna mais aptos para rogar e trabalhar pelos pecadores.
Tivéssemos sempre o purgatório diante dos olhos e não viveríamos assim, na tibieza, no orgulho, na sensualidade, numa vida espiritual tão relaxada!
Realmente, quem pensa, quem medita seriamen­te na Justiça Divina dos tormentos da expiação além-túmulo, vê, à luz das chamas do purgatório, como é horrendo o pecado, e como é preciso ser puro, santo, e trabalhar nesta vida para obter o mérito das boas obras e se preparar para a eternidade!

Exemplo
Salvo pelas almas do purgatório
Nos arredores de Roma vivia um moço cuja vida de escândalos e de pecados era bem conhecida de todos. Todavia, o infeliz, apesar de tão pecador, con­servava a fé e não deixava a devoção de sufragar quanto podia as almas do purgatório. Mandava cele­brar Missas por elas, rezava e dava esmolas aos po­bres nesta intenção. Era a única prática de piedade em meio de tantos pecados. Naturalmente, este moço com seu temperamento arrebatado e valentão, tinha grande número de inimigos, e andavam estes plane­jando matá-lo em um momento oportuno. Sabiam os inimigos que havia de passar ele pela estrada de Trivoli e preparam-lhe uma emboscada. Ao se aproxi­mar da estrada, numa encruzilhada perigosa, a ca­valo, deu com um pobre moço enforcado numa árvo­re. Era um criminoso condenado à morte, cujo cadá­ver ainda pendia para escarmento dos bandidos. O jovem tinha costume de nunca deixar de rezar pela alma de quantos via mortos. Parou, desceu do cava­lo, ajoelhou-se diante do cadáver e rezou por aquela alma. Uma voz misteriosa se ouviu: desce e corre, porque te perseguem! Assustado, desceu, correndo pela estrada. Os inimigos descarregaram as armas e como viram o cadáver do enforcado caído, julgaram ser o jovem, e fugiram às pressas.
Uma voz se fez ouvir, então, ao jovem: meu amigo, aquela descarga deveria te matar e lançar tua alma pecadora no inferno. A misericórdia de Deus te salvou pela caridade que praticas para com as al­mas do purgatório. Elas te socorreram. Muda de vida enquanto é tempo.
O moço, todo contrito e sinceramente arrependi­do da sua má vida, resolveu deixar o mundo; entrou numa ordem austera, fez penitência e levou vida san­ta até o fim dos seus dias. — (Citado por Rossingnoli, 5.ª maravilha — e J. B. Manni, Sacra Trig. Disc. 12.).
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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

21 de Novembro: Maria Santíssima, Mãe e Consoladora do purgatório



MARIA SANTÍSSIMA, MAE E CONSOLADORA DO PURGATÓRIO
Maria pode socorrer as almas

Um dia, escreve Santa Brígida nas suas Reve­lações, disse-me a Virgem Santíssima:
 — “Eu sou a Rainha do céu, eu sou a Mãe de misericórdia, e o caminho por onde voltam os pecadores a Deus. Não há pena no purgatório que não se alivie e que por mini não se torne menor do que si o fora sem mim”[1]. Outra vez a Santa ouviu Jesus dizer à sua Mãe: “Tu és minha Mãe, és a Rainha do céu, és a Mãe de mi­sericórdia, és o consolo dos que estão no purgatório e a esperança dos pecadores na terra”[2]. A provi­dencia maternal de Nossa Senhora se estende sobre seus filhos na terra e no purgatório. Ela nos socorre e ajuda até depois da morte nas chamas expiadoras. É uma verdade de fé que as almas do purgatório po­dem ser não só aliviadas em seus padecimentos, mas até libertadas das chamas expiadoras pelas orações, sa­tisfações e boas obras, e pelo Santo Sacrifício da Missa, enfim, pelos sufrágios dos vivos. Todavia, a Igreja nada definiu sobre o socorro que possam os Santos do céu dar às almas padecentes. Não houve necessi­dade de uma definição, porque o que os hereges con­testaram desde Lutero principalmente, foi o sufrágio dos vivos e até a existência do purgatório. Quem en­tretanto pode negar que a Igreja triunfante possa au­xiliar a Igreja padecente?
Segundo Santo Tomás de Aquino, duas coisas concorrem para que o sufrágio dos vivos aproveitem aos mortos: a caridade que une a todos, e a intenção que tem eles de socorrer os mortos. Quanto ao pri­meiro, nenhum meio existe maior de um vínculo de caridade que o Santo Sacrifício da Missa, o Sacra­mento que é o vínculo dos fiéis da Igreja. Quanto à outra, a oração, tem a vantagem de levar nossa in­tenção diretamente a Deus quando se invoca a Divina Misericórdia.
Ora, quem pode negar que os Santos do céu já purificados, possuam a caridade em estado de perfei­ção na glória e a intenção reta de ajudar às benditas almas sofredoras? Quem melhor do que eles conhece o sofrimento daquelas almas? Não há dúvida, os San­tos na glória podem e socorrem as almas do purga­tório. Quanto mais a Rainha dos Santos!
Contestaram alguns com subtilidades teológicas que Maria nada poderia fazer pelas almas entregues à Justiça Divina no purgatório. “Alguns autores, diz o piedoso Pe. Faber, pretendem que a Santíssima Vir­gem não pode ajudar as almas do purgatório senão de uma maneira indireta, porque não está mais em esta­do de satisfazer por elas. Não gosto de ouvir isto. Não gosto que falem de uma coisa que nossa terna Mãe não possa fazer”[3].
 Pois se Maria tem todo poder no céu e na terra, se é Mãe dos remidos, Mãe de Deus, não há de poder socorrer como e quando queira os seus filhos da Igre­ja padecente?
 Sim, não há teólogo seguro que o conteste, e a tradição de tantos séculos confirma esta consoladora verdade: Maria socorre seus fiéis servos depois da morte. Estende até o purgatório seu manto prote­tor de Mãe e Refúgio dos pecadores.
  
Como socorre Maria as almas sofredoras?
 Há muitas maneiras do poder misericordioso de Maria socorrer às benditas almas padecentes. O pri­meiro meio e mais frequente, diz o Pe. Terrien, S. J.[4] é o pensamento e a vontade que inspira aos fiéis ainda vivos neste mundo, de orar, sofrer e tra­balhar pela libertação das pobres almas. Quantos de­votos de Nossa Senhora não sentem de repente uma inspiração, um desejo de sufragar os seus mortos queridos ou o desejo de trabalharem pelo sufrágio do purgatório! É a Mãe bendita quem inspira estes bons desejos e resoluções. Não tem Ela nas mãos os cora­ções de seus filhos? Um dia um santo Irmão coadju­tor da Companhia de Jesus orava fervorosamente diante de uma imagem da Virgem Imaculada. En­quanto rezava, veio-lhe um certo escrúpulo do pouco zelo que tinha em orar e sufragar as almas do pur­gatório. Uma voz misteriosa lhe disse, então:
— “Meu filho, meu filho, lembra-te dos defuntos!
— Sim, minha Mãe, o farei doravante, respondeu o piedoso Irmão. E desde aquele dia se entregou às boas obras e sacrifícios e orações pelas almas[5].
Quantas vezes Nossa Senhora em tantas reve­lações particulares pediu orações pelos mortos! Ain­da em Fátima recomenda aos Pastorinhos a jaculatória: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do in­ferno, aliviai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas!”. Maria, pois, ajuda os fiéis do purgatório inspirando sufrágios aos seus filhos da terra e depois, oferecendo por estas almas cativas, não as satisfações atuais, pois no céu não há sofri­mento nem expiação, mas o que Ela padeceu e mere­ceu neste mundo. Haverá maior tesouro depois dos méritos de Cristo que os méritos de Maria?
Maria Santíssima, pois, por estes dois meios po­de e realmente socorre as almas. A Igreja, na sua liturgia, confirma esta piedosa crença e esta verdade consoladora quando assim ora na Missa dos Defun­tos: “Ó Deus que perdoais aos pecadores e desejais a salvação dos homens, imploramos a vossa clemên­cia por intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem, e de todos os Santos em favor de nossos ir­mãos, parentes e benfeitores que saíram deste mun­do, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.
Por terem as almas maior precisão de socorro, escreve Santo Afonso de Ligório, empenha-se a Mãe de Misericórdia com seio ainda mais intenso em au­xiliá-las. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino que Maria desce ao cárcere do purgatório onde tem certo domínio e poder para aliviar e libertar estas esposas de Jesus Cristo. Trás alívio às almas. Aplica-lhes o Santo es­ta palavra do Eclesiástico: Caminho por sobre as on­das do mar[6]. Compara as ondas às penas da pur­gatório, porque são transitórias, e por isso diferentes das do inferno, que nunca passam. Chama-as 0ndas do mar porque são penas muito amargas. Os de­votos da Virgem, aflitos com estas penas, são por Ela visitados e socorridos frequentemente. Eis, pois como socorre Maria as almas do purgatório.

Nossa Senhora do Carmo, Mãe do purgatório
As aparições da Virgem Misericordiosa a São Simão Stokler e ao Papa João XXII são muito conhe­cidas e hoje a piedade de toda Igreja tem na devoção à Virgem do Carmo um motivo para chamar a Nossa Senhora Mãe e Rainha do purgatório. Diz a Mãe de Deus a São Simão: “Recebe, meu querido filho, este escapulário de tua ordem como sinal distintivo da minha confraria e prova de privilégio que obtive para ti e para os filhos do Carmo. Aquele que morrer re­vestido do escapulário será preservado das penas do outro mundo. É um sinal de salvação, uma defesa nos perigos, o penhor de paz e proteção especial até o fim dos séculos”. Promete a Virgem a proteção aos seus fiéis devotos do escapulário. Esta promessa foi confirmada setenta anos depois, após uma revela­ção feita por Maria ao Papa João XXII. Declarou este Pontífice numa Bula, que estando em oração, Maria lhe apareceu e disse: “João, Vigário de meu Filho, és devedor da alta dignidade a que chegaste a mim, que pedi por ti. Eu te livrei dos laços dos teus adversários; espero de ti uma confirmação da Ordem do Carmo, que me foi sempre especialmente dedicada. Se entre os religiosos ou confrades, quando morrerem, se acharem alguns cujos pecados tiverem merecido o purgatório, eu descerei como terna Mãe no meio de­les, no purgatório, no sábado que seguir a sua morte. Livrarei aqueles que eu lá encontrar e os levarei à Montanha Santa, à feliz morada da vida eterna”.

É Maria revelando-se Mãe carinhosa das almas do purgatório.
A arte cristã sempre representa a Virgem do Carmo estendendo o seu escapulário sobre o purgató­rio onde as almas em meio das chamas expiadoras le­vantam os braços e olhos suplicantes implorando a misericórdia da boa Mãe e procurando no escapulário um meio de saírem das chamas.
Como isto é significativo e simbólico! Não é esta a Missão da Virgem Santíssima, Consolo e alívio e libertação do purgatório e o que encontram com segu­rança os devotos verdadeiros de Maria Santíssima? Podemos crer no grande privilégio dos Carmelitas. A Sagrada Congregação das Indulgências em 1.° de De­zembro de 1886 decidiu: “Seja permitido aos Padres Carmelitas pregarem ao povo que se pode crer pie­dosamente na assistência que esperam os Irmãos e confrades da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, a saber: que esta Senhora ajudará com suas orações contínuas e sufrágios e méritos e com uma proteção especial depois da sua morte (princi­palmente ao sábado, dia que lhe está consagrado pela Igreja), aos irmãos e confrades falecidos na carida­de, com a condição de que tenham levado durante a vida 0 escapulário, guardado a castidade de seu esta­do, rezado 0 Ofício Parvo, ou se não puderam rezá-lo, que hajam observado os jejuns da Igreja e abstido de carne nas quartas e sábados”.
Este decreto foi publicado em Roma em 15 de Fevereiro de 1615 pelo Santo Ofício. Ora, não é a Igreja confirmando a consoladora doutrina da assis­tência e proteção de Maria sobre o purgatório? Invo­quemos sempre a Mãe querida das pobres almas do purgatório. Sejamos devotos da Virgem do Carmo e do Santo Escapulário.

Exemplo
Maria liberta as santas almas nas suas festas
Diz o Venerável Dionizio Cartuziano que cada ano, nas grandes festas, a Mãe de Deus desce ao pur­gatório e liberta muitas almas do sofrimento, levan­do-as para a glória, sobretudo nas festas da Páscoa, do Natal e da Assunção. São Pedro Damião conta a propósito um caso que diz ter ouvido de um sacerdo­te fidedigno. Vou traduzi-lo do latim tal como o dei­xou escrito São Pedro Damião:
“Uma mulher em Roma entrou no dia da Assunção na basílica erigida em honra da Santíssima Virgem no Capitólio. Grande foi a sua surpresa ao ver ali uma das suas vizinhas, que um ano antes ha­via morrido. Não podendo chegar-se a ela pela multi­dão que enchia o templo, foi esperá-la ao sair da igre­ja numa das ruas estreitas da cidade, por onde havia de passar.
— Não és Marozia, minha vizinha, lhe pergun­tou, que morreu há cerca de um ano?
— Sim, sou eu mesma.
— E como estás aqui?
E Marozia confessou que havia sofrido muito no purgatório por umas faltas da meninice e acrescentou: ‘Hoje, porém a Rainha do mundo rogou por mim e tirou a mim e a muitas outras almas do lugar da ex­piação e é tão grande o número das almas libertadas, que sobrepuja aos habitantes de Roma. Eis porque visitamos, em ação de graças, os lugares consagrados à nossa gloriosa Rainha’.
E como prova da verdade da aparição, anunciou que a sua amiga dentro de um ano morreria também. O que de fato aconteceu”.
Santa Francisca Romana, favorecida com tan­tas visões, contemplou também, num dia da Assun­ção, o triunfo de Maria e uma multidão de almas liber­tadas do purgatório pela intercessão da Mãe de Mi­sericórdia. — (S. Petr. Damian. Opusc. XXXIV — Disput. de variis apparition, et miraculis. C. 3. P L. CXLV — 586-587.).

[1] Revel. Sanct. Birgitae — I, VI.
[2] Idem — Cap. X, I — Cap. XVI.
[3] Faber: “Tudo por Jesus” — C. IX — Purgatório, 5.
[4] Terrien, S. J. — La Mere de Dieu et La Mere de homes — Tom. II — Lib. X, cap. II.
[5] La Puente — Vida del P. Baltazar Alvares — C. 44.
[6] Eccl. XXXIV, 8 — “Glórias de Maria” — Santo Afonso — I. par. Cap. VIII.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

20 de Novembro: As almas mais abandonadas


AS ALMAS MAIS ABANDONADAS
Os esquecidos...

Como já dissemos, os mortos são muito esque­cidos. Os vivos os choram pouco tempo e depois os abandonam para sempre ao esquecimento das sepul­turas, e o que é mais doloroso, ao abandono e esqueci­mento no purgatório. Há no purgatório as almas que chamamos as mais abandonadas. Devem ser inume­ráveis. Por elas nem uma Santa Missa, nem uma ora­ção, nem um sufrágio sequer dos que elas amaram tanto neste mundo, e, quem sabe, encheram de be­nefícios e talvez estejam aproveitando o que deixa­ram aqui em herança e patrimônios. Que dura in­gratidão! Como sofrem estas pobres almas! O es­quecimento dói muito neste mundo. Que diremos no outro, no purgatório! Então, aquelas pobres al­mas parecem gemer, como o profeta Jó: Miseremini mei saltem vos amici mei, quia manus Domini teti­git me! Tende compaixão de mim, tende compaixão de mim, pelo menos vós, meus amigos, porque a mão de Deus me feriu!
Que gemido angustioso! Sim, a mão da Justiça de Deus fere as pobres almas para santificá-las e pu­rificá-las, e elas só dependem de nós. E quando se veem abandonadas dos seus, clamam: pelo menos vós, meus filhos, meus parentes, meus amigos, meus be­neficiados, vós que me amastes na terra!...
Em vão clamam tantas vezes! Não são ouvidas, porque seus amigos e parentes, preocupados com os prazeres, as honras, o dinheiro, as vaidades, nem querem pensar nos mortos, e nem se lembram num ato de fé, que podem seus parentes e seres muito caros estarem nas chamas expiatórias, a sofrer!
Daí o abandono das pobres almas. Há outras po­brezinhas que neste mundo nem deixaram amigos ou parentes. Não têm mesmo quem reze por elas. Po­bres criaturas que deixaram esta vida ignoradas. Quem se lembrará delas?
É verdade que nos desígnios misericordiosos de Deus, muitos sufrágios dos ricos Nosso Senhor apli­ca aos pobrezinhos, segundo dizia a Beata Ana Taigi, que numa revelação viu a alma de um cardeal sem receber no purgatório sufrágios de muitas Missas, porque Nosso Senhor as aplicava pelas almas dos po­brezinhos que morreram e ficaram abandonados. To­davia, não deixa de haver no purgatório almas abandonadas.
Em Fátima, Nossa Senhora pedia orações pelas almas abandonadas. Os pastorinhos rezavam: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, li­vrai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas.
É, sem dúvida, uma grande obra de caridade. Quantas graças não podemos alcançar por este ato de caridade tão agradável a Nosso Senhor!
Vamos, pois, tenhamos caridade, tenhamos pie­dade das pobres almas sofredoras. Deus não permi­tirá que sofra muito no purgatório quem neste mun­do socorreu os mortos. Portanto, é de nosso inte­resse sufragar os mortos. A devoção às almas é muito necessária! Milhões de fiéis devem sofrer no purgatório! Se ao invés de flores e túmulos pomposos e gastos inúteis, orassem e fizessem boas obras e oferecessem muitos a santa Missa pelos seus mortos, não haveria tantas pobres almas abandonadas!
Se ao invés de andarem à procura de centros de espiritismo para uma absurda comunicação com os mortos, tantos se lembrassem de que se iludem ou falam com o demônio iludidos e deixam seus parentes e amigos em maiores penas, ai, as pobres almas do purgatório não seriam almas abandonadas...
  
Por que ficam abandonadas?
Já o dissemos: por indiferença dos vivos e fal­ta de uma fé mais viva no dogma do purgatório. De­pois, temos o costume de canonizar muito depressa os nossos defuntos. Morreu? Só nos lembramos das virtudes e do bem feito pelo falecido. É uma carida­de, não há dúvida. Parce sepultis! Perdoemos aos mortos e veneremos a sua memória. Dos mortos, ou falar bem ou calar-se. Não recordemos suas misé­rias e pecados. Pobrezinhos, já deram contas a Nos­so Senhor e estão entregues à Divina Justiça. Repi­to, é muito edificante nunca censurar os mortos e ter deles boa memória. Todavia, saibamos que a Jus­tiça, a Santidade de Deus, costuma ver defeitos até nos Anjos, e, para entrar no céu, é mister uma gran­de santidade. Dizemos: era um santo, era uma san­ta, e... os vamos deixando sofrer no purgatório! Disto é que tinha medo São Francisco de Sales, quan­do recomendava muito que orassem por sua alma depois da morte.
Frederico Ozanam recomendava, também, que não o deixassem no purgatório, esquecido, sob o pretexto de que era um santo e tinha ido direito para o céu! Eis um dos motivos também do abandono de algumas almas. Cuidado, pois; não canonizemos tão depressa nossos mortos, ainda que nesta vida tenham dado provas de grande virtude. Desconhecemos os rigores da Divina Justiça!
Depois, há o contrário: o julgarmos que a pobre alma, tendo deixado este mundo sem sinais de arre­pendimento e talvez em lamentáveis condições de pecado e de escândalo, e talvez tenha se condenado e esteja no inferno. A Igreja nunca permitiu que se dissesse que alguém está certamente no inferno. É verdade que muitos se condenam, mas não podemos afirmar sem temeridade que alguém esteja conde­nado. Ignoramos os segredos da divina Misericórdia e o que se passa com uma alma na hora derradeira entre o último suspiro e a eternidade.
Não abandonemos uma só alma, por mais que pareça ter sido condenada. A Igreja proíbe, é verda­de, os sufrágios públicos pelos suicidas, pelos hereges, pelos pecadores públicos escandalosos, mas per­mite os sufrágios em particular e não reprova que se reze por estes infelizes, em particular. Ninguém conhece os segredos da Justiça e da Misericórdia Di­vinas! Eis porque ficam muitas almas abandonadas. Rezemos por elas. Talvez estejam no purgatório, e que purgatório horroroso não há de ser o dos que es­caparam da eterna condenação por um milagre da Divina Misericórdia!
Oremos pelas almas dos infelizes que deixaram esta vida talvez em péssimas condições, sem Sacra­mentos, em mortes repentinas. Só Deus sabe o des­tino destes infelizes! Pelo menos em particular, em segredo, entre nós e Deus, podemos sufragar estas pobres almas. Daí a necessidade da devoção às al­mas mais abandonadas. Ó, que para a nossa carida­de, para a nossa fé, não haja almas abandonadas!
Lembremo-nos de todas, socorramos esta classe das pobrezinhas que padecem no purgatório!

Os Santos e as almas abandonadas
Muitos Santos tiveram esta devoção. Santa Ca­tarina de Genova, Santa Catarina de Sena, Santo Afonso de Ligório, São Francisco de Sales e princi­palmente o grande apóstolo da caridade, São Vicente de Paulo. Este grande coração, cuja vida se passou a ajudar os abandonados e infelizes da terra, por este mesmo instinto divino de caridade se voltava para as almas abandonadas e sofredoras do purgatório. Era a sua grande devoção socorrer as almas mais abandonadas.
Uma piedosa serva de Deus, Irmã Maria Denise da Visitação, e que no século se chamava Mme. Martignat, pertencente a família da nobreza, ao invés de encomendar a Nosso Senhor a alma dos pobrezi­nhos, recomendava a alma dos ricos e dos grandes da terra. Estranharam isto e ela dava as razões: “São às vezes as almas mais abandonadas e as que tem mais necessidade de sufrágios. Passaram uma vida folgada, não fizeram muita penitência e sabe Deus que terrível purgatório não lhes está reserva­do, se conseguiram se salvar pela Divina Misericór­dia”. E tinha razão. Além do mais, depois das pom­pas fúnebres nas quais entra muita vaidade da fa­mília, às vezes segue-se um esquecimento e abando­no completo do pobre morto. Oremos muito pelas almas abandonadas, porque elas não deixarão de pe­dir por nós quando libertadas por nossos sufrágios. Para a Igreja nunca seremos almas abandonadas, é verdade.
A Igreja, nossa Mãe, só ela nunca esquece e cada dia sem cessar, em milhares de altares em toda ter­ra, lembra, ante a Hóstia divina, os mortos. — Me­mento! Memento! Lembrai-vos, Senhor, daqueles que nos precederam com o sinal da fé e agora descansam no sono da paz. Nós Vos suplicamos, Senhor, dignai- vos concedê-la a estes e a todos que descansam em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Que tocante oração! Só para a Igreja os mortos não são esquecidos.
Tanta lágrima, tantas flores, tantos suspiros em alguns dias e meses. Depois... o frio e duro esqueci­mento. Dura lei! É verdade, não havemos de chorar a vida toda os nossos mortos, e a esperança cristã nos diz, no Prefácio da Missa, dos defuntos que a vida para eles não se acaba, muda-se — Vita mutatur, non tollitur. Eles, os nossos mortos, vivem no seio de Deus. E a maioria deles expia nas chamas do purgatório. É uma verdade terrível e consoladora. E por isto nosso esquecimento é grave e cruel.
Que para nós não haja almas abandonadas! Es­tejam todas em nossa lembrança e em nossos sufrá­gios. Depois da morte veremos quanto nos foi pro­veitosa esta bela devoção e este ato generoso de caridade.
Imitemos os Santos, que acudiam generosamente as almas mais abandonadas.
  
Exemplo
Uma alma abandonada e salva por Maria
Conta Santo Afonso nas suas “Glórias de Ma­ria”, este exemplo que é a um tempo uma glorifica­ção da misericórdia da Mãe de Deus e uma prova do abandono em que pode ficar uma alma no purgatório.
Lê-se na vida de soror Catarina de Santo Agos­tinho, que havia no lugar em que morava esta serva de Deus uma mulher chamada Maria. A infeliz le­vara urna vida de pecados durante a mocidade. E já envelhecida, de tal forma se obstinara na sua perversidade, que fora expulsa pelos habitantes da cida­de e obrigada a viver numa gruta abandonada. Ai morreu, finalmente, sem os sacramentos e sem a as­sistência de ninguém. Sepultaram-na no campo, como um bruto qualquer. Soror Catarina costumava reco­mendar a Deus com grande devoção as almas de to­dos os falecidos. Mas, ao saber da terrível morte da pobre velha, não cuidou de rezar por ela, pensando, como todos os outros, que já estivesse condenada. Eis que, passados quatro anos, em certo dia se lhe apresentou diante uma alma do purgatório, que lhe dizia:
— Soror Catarina, que triste sorte é a minha! Tu encomendas a Deus as almas de todos os que mor­rem e só da minha alma não tens tido compaixão?
— Mas, quem és tu? Disse a serva de Deus.
— Eu sou, respondeu ela, aquela pobre Maria, que morreu na gruta.
— E como te salvaste? Replicou soror Ca­tarina.
— Sim, eu me salvei por misericórdia da Vir­gem Maria.
— E como?
— Quando eu me vi próxima à morte, vendo-me juntamente tão cheia de pecados e desamparada de todos, me voltei para a Mãe de Deus e lhe disse: Senhora, vós sois o refúgio dos de­samparados. Aqui estou neste estado, abandonada por todos. Vós sois a minha única esperança, só vós me podeis valer; tende piedade de mim. Então a SS. Virgem obteve-me a graça de eu poder fazer um ato de contrição; depois morri e fui salva. Além disso, esta minha Rainha alcançou-me a graça de ser abre­viada minha pena por sofrimentos mais intensos, po­rém menos demorados. Só necessito de algumas Mis­sas para me livrar mais depressa do purgatório. Ro­go-te que as faças celebrar. Em troca, prometo-te pedir sempre a Deus e à SS. Virgem por ti.
 Soror Catarina logo fez celebrar as missas. De­pois de poucos dias, lhe tornou a aparecer aquela al­ma mais resplandecente do que o sol e lhe disse: Ago­ra vou para o paraíso, cantar as misericórdias do Se­nhor e rogar por ti.
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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

19 de Novembro: Via Sacra e o Rosário


VIA SACRA E O ROSÁRIO

Para alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino Redentor, nos lembra o Sangue Precio­síssimo derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora pa­ra nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São Boaventura: “Se quereis crescer de virtu­de em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”. A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.
Na Vida da V. Maria d’Antigna se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou des­ta. Um dia, uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse, gemendo: “Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sa­cra por mim e pelas almas como antes?”. Neste mo­mento apareceu-lhe Nosso Senhor: “Filha, disse-lhe o Salvador, estou muito triste com tua negligência.
É preciso que saibas que a Via Sacra é muito pro­veitosa para os defuntos, e eis porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro mais co­nhecido em favor das almas”.
Desde esse dia, a serva de Deus se dedicou a es­te exercício e o propagou com muito zelo. Pelo me­nos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.
Um dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras. Era nas planícies do Languedoc. Um homem incrédulo zom­bou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas sofredoras.
Quantos prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da morte no pur­gatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrá­gio das pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não per­camos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Va­mos aliviá-las com nosso rosário bendito!

O De Profundis
Que é o De Profundis? É o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Pro­fundis. Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepul­tura, de novo reza o Salmo dos mortos. No cemité­rio e a caminho da sepultura, sem o De Profundis. Os fiéis, depois do Padre Nosso e da Ave Maria, re­zam o De Profundis. Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque assim come­ça: De profundis... Das profundezas... Não pare­ce um gemido saído do purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3 e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5 e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma espe­rança de perdão e de redenção copiosa (6 a 8).
Ora, estes gemidos, estas aspirações de reden­ção e de perdão copioso, este clamor doloroso coloca­mos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no abismo do purgatório. Não é verdadeira­mente próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De Profundis? Eis agora o texto do Sal­mo na tradução nova do Novo Saltério:
“Das profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi, Senhor, a minha voz!
Atendam os vossos ouvidos
O brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em Vós está o perdão dos pecados,
Para que sejais servido com reverência.
No Senhor ponho a minha esperança,
Espera minha alma na sua palavra.
Aguarda minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim, mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque no Senhor a misericórdia,
Nele a redenção abundante.
E Ele resgatará Israel
De todas as suas iniquidades”.
Eis o Salmo na nova tradução. Muita gente nos­sa o recita já de cor e em outras palavras. Não im­porta. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se lembrem de que é o Salmo dos defuntos, mui­to alívio pode trazer às benditas almas do purgatório.

Práticas devotas
Há muitos meios de sufragar os mortos. Esco­lhamos a segunda feira consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o pie­doso costume de se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos comungar, assistir a San­ta Missa nesse dia, enfim, fazermos por juntar mui­tos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Do­mingo, dia do Senhor, a terça, consagrada aos San­tos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao Santíssi­mo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em algumas paróquias e comu­nidades religiosas há piedosos exercícios neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles frequentados os estabelecidos onde não se fa­zem? Muitas pessoas entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estra­da, ou pelos campos pelas almas do purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito supersticioso. Velas acesas sem ora­ções pouco adiantam para os mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e ben­ta, é um sacramental.
Por que não acender então velas bentas? E re­zar mais ao invés de queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos que hou­vesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defun­tos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito mate­rial o belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressio­nante a multidão de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim repro­var tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu simbolismo e preferiria ver ace­sas velas bentas nas sepulturas e nos cemitérios.
Nosso povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas ve­zes degeneraram em abusos. Estão abolindo um cos­tume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove dias, a contar do dia da mor­te, todas as noites se reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das Almas em sufrágio do morto. Por que não conser­var esta bela tradição?
Enfim, já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!

Exemplo
Proteção das santas almas
Mons. Louvet, na sua obra “Le purgatoire d’ápres les revélations des Saints”, narra um fato pro­digioso da proteção das almas aos que a elas socor­rem com sufrágios.
Um padre italiano, Luiz Monaci, religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das al­mas. Em toda parte e em todas as ocasiões procura­va meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para roubar. Pelo caminho, o bom pa­dre não perdia tempo: ia recitando piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avis­tar de longe o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa hospedaria próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram curiosos:
— Que padre é este que anda acompanha­do pelas estradas de soldados que o protegem?
— Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem...
Os bandidos, furiosos, procuraram entrar em pa­lestra com o sacerdote e perguntaram-lhe do bata­lhão que o escoltava.
— Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me protejam.
— Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.
Os bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e confessaram-se humildemente.
O Pe. Rossignoli e outros autores contam inú­meros casos de proteção das santas almas em favor dos seus benfeitores.
Na verdade, mesmo nas coisas temporais os de­votos caridosos que nunca se esquecem de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção segura da divina Providência em to­das as circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande caridade.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

18 de Novembro. O ato heróico



O ATO HERÓICO
Que é o “ato heróico”?
“É o ato que consiste em oferecer à Divina Ma­jestade, em proveito das almas do purgatório, todas as obras satisfatórias que fizermos durante a vida e todos os sufrágios que forem aplicados pela nossa alma depois da nossa morte”.
Tal é a definição autêntica deste ato aprovado oficialmente pela Igreja e indulgenciado. Chama-se heróico, porque realmente exige uma abnegação de todos os tesouros que possamos lucrar com nossas boas obras e contém uma renúncia de todos os su­frágios que oferecerem por nossa alma depois da nos­sa morte, em favor das almas do purgatório. Este ato há de ser feito, para ser válido, em perpétuo. É irrevogável na intenção de quem o faz. Não obriga sob pena de pecado. Se alguém, a quem faltou gene­rosidade ou teve receio de se privar de sufrágios de­pois da morte, quis de novo adquirir para si as suas obras satisfatórias, renunciou ao voto heróico, não comete pecado nem mortal nem venial.
Pelo ato heróico não renunciamos o mérito de nossas boas obras, isto é, o que nos dá nesta vida um acréscimo da graça e a glória no paraíso. Este  me­recimento é nosso e não o podemos perder nem dá-lo aos outros. O ato heróico é uma obra muito meritó­ria, e este mérito de uma obra tão bela e heroica não o podemos perder. Só o mérito do ato heróico quanto não vale para nossa alma! Este mérito não o perde­mos. Depois desta obra satisfatória, tudo o mais que fizermos será das almas do purgatório. Desde que fazemos o ato heróico, todas as indulgências que lucramos são das almas. Tudo que de bom possamos fazer e ter mérito e lucrar alguma coisa será do pur­gatório, direito e propriedade das almas. É uma re­núncia total. Só a indulgência plenária da hora da morte não pode ser oferecida para as almas e será nossa, porque não é aplicável aos defuntos.
O ato heróico não impede de rezar nas próprias intenções e pelos mortos. Quando fazemos um ato de penitência e de oração, por exemplo, recitando um terço de joelhos, há neste ato, para falar uma lin­guagem teológica, três frutos diferentes: um fruto meritório que não o podemos perder é o mérito pes­soal de quem o pratica — o valor satisfatório do ato que é a penitência, o sacrifício feito, e este é para as almas é do ato heróico — e finalmente, uma força impetratória que é da oração como oração. A oração é uma força e Deus prometeu ouvi-la. O ato heróico não nos impede utilizar a força impetratória da oração.
Quem faz o ato heróico é como um religioso que fez o voto de pobreza: tudo o que ganha não lhe per­tence. A diferença é que o voto de pobreza obriga em consciência e o ato não. O abandono que a alma generosa faz em favor das almas do purgatório é fei­to, em geral, por todas e nunca em favor de uma ou outra alma. O ato heróico não impede que se ore por esta ou aquela alma em particular e se ofereça a Nosso Senhor muito sufrágio pelos nossos mortos queridos.
Não pode tudo isto ser feito na oferenda geral que fizermos a Deus?

Origem do ato heróico
O ato heróico em si, não é uma devoção nova na Igreja, como pretendem alguns. Em séculos passa­dos, muitos homens de grande santidade e grandes almas generosas ofereceram a Deus seus tesouros de obras satisfatórias em favor das pobres almas do purgatório. Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Santa Liduina e muitos outros santos tiveram esta generosidade. Santa Teresa fez este ato em favor de um mestre espiritual, o Provincial dos Carmelitas, falecido, e ela libertou-o do purgatório com suas ora­ções. Todavia, consideramos como fundador e apósto­lo do ato heróico o Pe. Gaspar Olinden, clérigo regu­lar dos Teatinos. Este sacerdote piedoso tinha uma devoção muito grande pelo Purgatório e sua grande preocupação e todo seu zelo ardente o empregava em favor das pobres almas. Lembrou-se deste ato heróico, desta oferenda generosa a Deus em favor do purgatório e apresentou-o ao Santo Padre Bento XIII, que não só o aprovou, mas o enriqueceu de indulgên­cias e privilégios. Depois, todos os Pontífices confir­maram a aprovação e estimularam e abençoaram tão belo ato.
Bento XIII, não contente de aprovar o ato heróico, ainda fez publicamente, e do púlpito, a entre­ga de todos os seus bens espirituais pelos mortos, como se pode ver nos sessenta sermões que pregou sobre este assunto.
Naquela época viram-se Ordens inteiras recomen­darem o ato heróico. O Superior Geral da Companhia de Jesus mandou recomendá-lo a todos os seus súditos. O Pe. Ribadanera piedoso hagiógrafo propa­gou muito o ato heróico e o Pe. Nierenberg. O Pe. de Montroy, no leito de morte, não só deu às almas o mérito de todas as obras satisfatórias feitas em vida, mas a sua caridade se estendeu além. Fez um tes­tamento sublime, diz o Pe. Faber “que não sei de ou­tro igual”: cedeu sem exceção para as almas do pur­gatório todos os méritos, orações, Missas, indulgên­cias que a Companhia de Jesus costuma aplicar aos seus membros defuntos, todos os sufrágios que seus amigos pudessem oferecer por ele e tudo enfim, pe­las almas.
Há muitos exemplos admiráveis de atos heróicos pelo purgatório.
Finalmente, nos últimos tempos Nosso Senhor suscitou uma grande alma devotíssima do purgató­rio e fundadora de uma Congregação religiosa espe­cialmente destinada a sufragar as santas almas e entregue toda a serviço do purgatório num ato heróico de caridade. Foi a Madre Maria da Providência. Des­de pequenina, esta serva de Deus sentia grande com­paixão pelas almas sofredoras. Um dia a encontra­ram muito pensativa e grave em meio dos brinque­dos da criançada. — Que esta pensando? — Sabem no que penso? Disse Eugênia (tal era o seu nome no século), eu penso numa prisão de fogo de onde não se pode sair e da qual com uma palavra se podem tirar os prisioneiros.

As companheiras a olharam surpreendidas. “Es­ta prisão de fogo é o purgatório e com uma palavra, com a oração, podemos libertar as almas”.
Mais tarde foi a fundadora de uma Congregação, única na Igreja, cujos membros se oferecem a Deus pelas almas e vivem o voto heróico.
Eis como se desenvolveu, nos últimos tempos, a bela prática do ato heróico.

Vantagens do ato heróico
Um ato tão generoso e que nos despoja de tan­tas riquezas e nos deixa até sem sufrágios depois da morte, poderá ter vantagens, lucra muito, porven­tura, quem o fez? Sim, mil vezes sim! É um engano pensar que se perde muito com o ato heróico. Ao invés, lucra-se mil vezes mais. Deus se deixa vencer em generosidade? Não há gratidão nas almas salvas por tão grande socorro?
O ato heróico é um ato cheio de mérito, é um ato perfeito que nos faz esquecer de nós mesmos para cuidar de nossos irmãos e da glória de Deus. Quem faz o ato heróico aumenta por este ato seu grau de graça neste mundo e o grau de gloria no outro. E o ato de caridade que pratica, não há de atrair a mise­ricórdia daquele Senhor que prometeu cem por um e o reino do céu ao menor bem que se faz neste mun­do por amor de Deus? “A caridade cobre a multidão dos pecados”, diz a Escritura, e este gesto de cari­dade heroica não há de obter perdão e descontar mui­tos pecados de quem o faz? E a indulgência plenária que se ganha com o ato heróico? E a indulgência ple­nária da hora da morte que nos pertence e não pode­mos aplicá-la para ninguém? E Nosso Senhor se dei­xará vencer em generosidade? Não tenha receio de sair prejudicado quem faz o ato heróico em favor das almas do purgatório. Este heroísmo de caridade será recompensado com superabundância de graças neste mundo e de glória no outro. Não nos preocupemos porque não podemos dispor de nossos tesouros em fa­vor de nossos mortos queridos como bem entendemos. Nosso Senhor cuidará deles muito mais, e nossa ca­ridade lhes há de ser um refrigério tão grande no purgatório e talvez concorra para libertá-los do pur­gatório muito mais depressa do que se estivessem dependendo de nossos pobres sufrágios muita vez até esquecidos.
E para terminar, vejamos as condições e as in­dulgências do ato heróico:
Para fazer o ato heróico é mister consultar o diretor espiritual ou um prudente confessor, procurar conhecer bem o que vai fazer e saber a responsabili­dade que assume. Não se deve fazê-lo levianamente e num momento de fervor irrefletido. É muito sé­rio e é preciso lembrar que é heróico! Não é pres­crita nenhuma fórmula especial. Poder-se-ia usar uma como esta: “Para vossa glória, ó meu Deus, e para imitar o melhor possível o Coração generoso de Jesus, meu Redentor, a fim de mostrar também minha dedicação para com a Santíssima Virgem Ma­ria, minha Mãe e Mãe das almas do purgatório, en­trego em suas mãos todas as minhas obras satisfa­tórias assim como o fruto de todas as que, porven­tura, se venham a fazer por minha intenção depois de minha morte, a fim de que Ela faça a aplicação às almas do purgatório segundo a sua sabedoria e como melhor lhe aprouver”. Quem faz o ato heróico pode lucrar as seguintes indulgências, aplicáveis aos defuntos: uma indulgência plenária cada vez que se aproxima da Comunhão nas condições do costume; vi­sita à igreja e oração pelo Papa. Outra indulgência plenária cada segunda-feira, ao ouvir Missa pelos mortos. Os sacerdotes que fizerem o ato heróico gozam do altar privilegiado pessoal em todos os dias do ano (P. P. O. 547.).


Exemplo

Um voto heróico
Uma donzela chamada Gertrudes, acostumara-se desde os mais tenros anos, a oferecer por inten­ção das almas do purgatório todas as suas boas obras. Era tão bem aceita esta devota prática no purgató­rio e no céu, que muitas vezes, o Salvador se com­prazia em designar-lhe as almas mais necessitadas. Estas, libertadas pela sua piedosa caridade, se lhe mostravam gloriosas, para lhe agradecerem e prometiam-lhe não esquecê-la no paraíso. Passava a vi­da neste santo exercício e, cheia de confiança, via em paz aproximar-se a morte, quando o infernal ini­migo, que de tudo sabe fazer ocasião para tentar os homens, começou a representar-lhe que ela se havia despojado de tudo e de todo mérito satisfatório de cada boa obra e ia cair no purgatório para nele ex­piar em longas penas todas as suas culpas.
Este tormento de espírito a lançara em tal de­solação, que seu Esposo celeste dignou-se de vir con­solá-la. “Por que, disse ele, ó Gertrudes, estás tão triste e pensativa? Tu que outrora gozavas da mais perfeita serenidade?”. Ah! Senhor, respondeu ela, em que deplorável situação me encontro! Vede, a morte se aproxima, achando-me eu privada da satisfação das minhas boas obras, que apliquei pelos defuntos; com que poderei pagar a dívida que contraí para com a divina Justiça? Replicou-lhe com ternura o Se­nhor: “Não temas, ó querida minha, porque ao con­trário, aumentastes pela tua caridade a soma de teus merecimentos, e não só tens bastantes para expiares as tuas leves culpas, mas adquiristes altíssimo grau de glória na bem-aventurança eterna. É assim que minha clemência reconhecerá com uma generosa recompensa, que cedo virás receber no paraíso a tua dedicação pelos defuntos”.
Desapareceu a estas palavras, e a alma de Gertrudes foi incendiada de um novo fervor e de um ardente desejo de socorrer as almas dos defuntos.
Enchamo-nos também de zelo e caridade para com essas almas, que rico galardão está prometido nos céus aos nossos esforços (Dyon, Cart. de nonviss. apud P. Mart. de Rox de statu animarum, cap. 20.).

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre