10 de Novembro. O que leva ao purgatório


O QUE LEVA AO PURGATÓRIO

Tibieza e pecado venial
  
A grande porta aberta para os tormentos do pur­gatório quando pela misericórdia não se precipitam muitas almas no pecado grave e no inferno, é a ti­bieza e o seu sintoma certo o pecado venial. Meditemos um pouco o mal da tibieza para vermos como é arriscado viver assim, sem procurar uma vida fer­vorosa, arriscando a própria salvação e preparando um horrível purgatório depois da morte. Vejamos o que é a tibieza:
A tibieza define-a Santo Afonso pelo que a caracteriza: o pecado venial.
A tibieza, diz o Santo Doutor, é o hábito do peca­do venial plenamente voluntário. “A tibieza é o há­bito não combatido do pecado venial, ainda que seja um só. É um hábito fundado num cálculo implícito:
— Esta falta não ofenderá a Nosso Senhor gravemente, não me há de condenar. Pois vou cometê-la.
É um hábito dificílimo de se desarraigar da al­ma. E um hábito muito espalhado, sobretudo entre as pessoas que fazem profissão de piedade e entre as almas consagradas a Deus”.
É uma doença espiritual e das mais graves e pe­rigosas. É o verme roedor da piedade. Micróbio ter­rível! Mina o organismo espiritual, sem que o enfer­mo o perceba. Enfraquece a pobre alma. Amortece as energias da vontade. Inspira horror ao esforço. Afrouxa a vida cristã. Espécie de langor ou torpor, diz Tanquerey, que não é ainda a morte, mas que a ela conduz sem se dar por isso, enfraquecendo gradualmente as nossas forças morais. Pode-se compa­rá-la a estas doenças que definham, como a tísica, e consomem pouco a pouco algum dos órgãos vitais. É uma sonolência, um sistema de acomodações na vida espiritual.

O pecado venial
Há muitos sinais de tibieza, mas o que a caracteriza é o pecado venial deliberado e habitual. Vejamos a malícia do pecado venial, que é tão castigado no pur­gatório e que é causa de tantos suplícios das pobres almas:
Embora em grau inferior, o pecado venial ofe­rece, todavia, as mesmas características de malícia que o pecado mortal.
A rainha Maria Teresa, de França, esposa de Luiz XIV, chorava uma falta venial. A delicada cons­ciência da princesa a deixava inconsolável.
— Como? — Disseram-lhe — tanta lágrima por uma falta leve, um pecado venial?!
— Sim, pode ser venial, mas é mortal para o meu coração!
Tudo quanto ofende a Nosso Senhor nunca é leve ou coisa de somenos importância para uma alma fer­vorosa. E o pecado venial é uma ofensa a Deus. Há nele três circunstâncias agravantes:
1.ª) Uma injuria à Majestade Divina.
2.ª) Revolta contra a Autoridade de Deus.
3.ª) Ingratidão à Bondade Eterna.
Quem comete facilmente o pecado venial, dificil­mente escapará dos pecados mortais, afirmam expe­rimentados mestres da vida espiritual.
“Por um justo castigo de Deus, diz Santo Isidoro, os que fazem pouco caso dos pecados veniais, das faltas leves, vêm a cair um dia nos maiores pecados”.
Santo Agostinho tem uma frase que deve me­recer de nós sérias reflexões. O pecado mortal é, se­gundo ele, uma montanha que esmaga, que mata, e os pecados veniais, grãos de areia. Acontece, porém, que o desprezo das faltas leves faz com que a alma venha a perecer como estes infelizes, que morrem su­focados sob um montão de areia. É verdade que só o pecado mortal dá morte à alma, e os pecados ve­niais, por mais numerosos que sejam, não nos podem tirar a graça santificante. Mas, diz São Gregório, o hábito dos pecados veniais tira aos nossos olhos a malícia do pecado grave, e em breve não receamos passar das faltas mais leves aos maiores pecados.

Consequência e castigos da tibieza

A tibieza prepara a impenitência final. — Será possível? Dirá alguém. Sim, a experiência o tem pro­vado mil vezes. Tibieza é o abuso da graça, e o abu­so da graça teve quase sempre, como consequência última, a impenitência final.
Deus non irridetur! — Com Deus não se brinca!
Conheceis a palavra de São Paulo?
A terra que bebe muitas vezes as águas da chu­va e que só produz cardos e espinhos, está reprovada e próxima da maldição. Será entregue ao fogo e reduzida a cinzas (Hb. 6, 7). Deus nos chama, bate, bate mil vezes à porta do coração. É desprezado.
Ai! Um dia o candelabro da graça com todas as suas luzes será transportado para outro lugar: Eu mudarei teu candelabro (Ap. 2, 5). E ai! Meu Deus! Pobre alma! O abismo da impenitência final a espe­ra. E ela sorri, presunçosa, dorme tranquila na inconsciência, na cegueira do seu lamentável estado!
Quando pela misericórdia divina uma pobre alma não chega pela tibieza ao abismo do pecado grave e à condenação, prepara para si um terrível purgató­rio. Um pecado venial é punido severamente nas cha­mas expiadoras. E quanto mais luzes e graças rece­beu neste mundo uma alma, tanto há de pagar até ao último ceitil. As revelações particulares nos mostram almas padecendo no purgatório até séculos por um pecado venial!
Não abusemos da graça. Não digamos: é um pe­cado venial, não tem importância... Se soubéssemos e meditássemos melhor o que é o purgatório, não se­riamos tão levianos e insensatos para viver na tibieza e cometer o pecado com tanta facilidade!

Exemplo

O noviço capuchinho revela o sofrimento do purgatório
Os Anais dos Capuchinhos, Tomo III, e Rossingnoli nas suas Maravilhas das Almas do Purga­tório, 56.°, contam este fato impressionante:
Num convento capuchinho, em 1618, um noviço muito fervoroso caiu enfermo e em poucos dias ex­pirou. O Padre Guardião estava ausente e não pode lhe dar a última absolvição o que o penalizou mui­to e por isto multiplicou as orações e sufrágios pela alma do seu filho espiritual. Rezava pelo noviço de­pois de Matinas, no coro, quando a alma deste lhe aparece cercada de chamas: “Ai! Meu Padre, não pu­de receber a vossa absolvição e havia cometido uma falta leve e por ela sofro horrorosamente no purgatório. Venho pedir a vossa bênção e uma penitência e ficarei livre.
— Meu filho, responde o Padre Guardião tremendo, eu te abençoo quanto posso e por penitência ficarás no purgatório até à hora da Prima somente.
Faltavam duas horas para que os frades recitas­sem o Ofício. O Padre julgou uma leve penitência esta espera de duas horas no purgatório. Apenas ou­viu isto, a alma do noviço soltou um gemido doloroso de arrepiar e desapareceu, dizendo: Ah! Pai sem co­ração! Pai que não tem dó de um filho que padece tanto! Ó, não sabe que é sofrer no purgatório!
O Padre Guardião sentiu arrepiarem-se os ca­belos, e trêmulo e pálido, compreendeu neste momen­to o que é o sofrimento do purgatório, onde cada mi­nuto parece um século. Tocou logo o sino, reuniu a comunidade e mandou que se rezasse o Ofício imedia­tamente pela alma do noviço falecido, contando a ter­rível aparição. Fez a todos um sermão sobre o pur­gatório e a eternidade, repetindo as palavras de San­to Anselmo: Depois da morte a menor das penas que nos esperam é maior do que tudo que se possa padecer neste mundo. As menores faltas são punidas seve­ramente.


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Fonte: 
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas
por Monsenhor Ascânio Brandão, Casa da U.P.C. Pouso Alegre



9 de Novembro.


OS ESQUECIDOS
Como são esquecidos os mortos!
 
Santo Agostinho se queixava de que os mortos são muito esquecidos. Realmente. Vai-se logo a memória dos defuntos com os últimos dobres do sino e as derradeiras flores lançadas sobre a sepultura. Quando morremos, partimos para aquela região que a Escritura chama terra oblivionis — a terra do esquecimento. Não tenhamos muita vaidade nem ilusões. Seremos esquecidos!
Quem se lembrará de nós alguns anos após a nos­sa morte? Talvez uma lembrança vaga, uma evocação de saudade muito apagada. E como somos orgulhosos hoje! Tanto nos fere a mágoa um esquecimento mesmo involuntário! Felizes os que se desiludem e se desapegam das amizades e vanglorias da terra antes que chegue a Mestra e Doutora da Vida — a Morte!
Como se compadecem todos dos enfermos! Que carinho e solicitude e mil sacrifícios em torno do leito de um pobre doente que geme! Porém, veio a morte. Pranto, homenagens sentidas, flores, túmulos, necrológios, e... esquecimento. Hoje afastam a idéia da morte como se fôssemos todos imortais. É mister esquecer os defuntos, deixá-los no túmulo, evitar esta preocupação doentia da morte e da eternidade.
Morreu, acabou-se! Vamos rir, vamos dançar e cantar. Deixemos que a vida corra alegre e feliz. Não pensemos mais na morte e muito menos em mor­tos. Não é assim que fala e age o mundo louco e materialista de hoje?
Ai! Como são esquecidos os mortos! O materialismo estúpido não compreende nem a beleza, nem a consolação, e o culto da memória dos mortos como o tem a Igreja católica. Para nós, eles não morreram, mudou-se-lhes a condição da vida: Vita mutatur, non tollitur!
Na sepultura não se acaba para sempre o homem. Cremos no que dizemos cada dia no Credo:
Eu creio na ressurreição da carne e creio na vida eterna.
A piedade para com os mortos é um ato de fé na vida eterna, urna doce certeza de que nossos mortos queridos não estão perdidos para sempre ao nosso amor. Havemos de os encontrar um dia no seio de Deus! Como é doce, consolador e belo crer na imortalidade e esperar a vida eterna!
Pois se cremos na vida eterna, cremos no purga­tório. E se cremos no purgatório, oremos pelos nossos mortos.
Requiem aeternam dona eis Domine! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!
Não sabemos então que é nosso próprio interesse orar pelos mortos?
Um dia também iremos para a eternidade e nas chamas do purgatório acharemos tudo quanto tiver­mos feito na terra pelos mortos. Vamos, pois, neste mês dos defuntos: Missas, Rosários, esmolas, penitencia, orações fervorosas pelos nossos mortos queridos!
Como são esquecidos os mortos! Exclamava Santo Agostinho! E, no entanto, acrescenta São Francisco de Sales, em vida eles nos amavam tanto e (quem sabe?) estão no purgatório por nossa causa...
Nos funerais, lágrimas, soluços e flores. Depois, um túmulo e o esquecimento... Como são esquecidos os mortos!
Tende compaixão de mim!
Tende compaixão de mim!
Miseremini mei! Miseremini mei!

Tal é o gemido do purgatório, o gemido das pobres almas esquecidas.
A Igreja, Mãe carinhosa, nunca se esquece dos seus filhos, mesmo depois que partiram para as re­giões da morte e da eternidade. Todos os dias, no altar, ela suplica: — Memento!
Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas que nos precederam com o sinal da fé e agora descansam em paz. A estes e a todos os mais que repousam em Cristo, nós vos pedimos, Senhor, concedei lugar de refrigério, luz e paz.
Que tocante lembrança da Santa Igreja, nossa Mãe! E em todas as Missas que se celebram em todo universo!

Porque são esquecidas
Sufraguemos nossos mortos. Não os deixemos esquecidos sob qualquer pretexto comodista e de gente sem fé. O purgatório é terrível e para algumas almas é bem longo. Devemos ter compaixão e carinho por nossos entes queridos que a morte arrebatou.
Ao céu chegam as almas só depois de longas e dolorosas purificações. Não digamos de cada um que morre: — Está no céu!
Temos o costume de logo canonizar nossos mor­tos, dizendo: — Estão no céu! E nem mais rezamos por eles, deixando-os esquecidos no purgatório. É uma ingratidão bem comum. No céu entram as pobres almas só depois de longas e dolorosas purificações. E quem sai desta vida tão santo e perfeito que não mereça o purgatório? Nunca deixemos de orar e muito e por longo tempo pelas almas de nossos mortos queridos.
Há pobres almas destinadas a um longo sofrimento nas chamas expiadoras. Só Deus sabe o que elas padecem, enquanto seus parentes nem rezam, nem mandam oferecer por elas a santa Missa, e repetem tranquilos: — Está no céu!
Disto teve receio Frederico Ozanam, o piedoso apóstolo das Conferências Vicentinas. Lemos no seu testamento: — “Não vos deixeis levar por aqueles que disserem: ‘Ele está no céu!’. Rezai sempre por aquele que muito vos ama, mas que também pecou muito. Ajudado pelas vossas orações, deixarei a terra com menos receio”.
Não nos iludamos com o purgatório. Seus sofrimentos são muito grandes e é mister uma grande compaixão, uma grande misericórdia para com os mortos. Ai! Esquecer os mortos sem sufrágios é doloroso, é de consequências tristes! Oremos pelas benditas almas.
Vamos em socorro dos nossos pobres irmãos da Igreja padecente.
Vamos, levantai-vos, dizia São Bernardo, voai em socorro das almas dos defuntos, implorai a clemência divina pelas vossas lágrimas e gemidos, intercedei por eles com as vossas preces, satisfazei por elas com o santo sacrifício da Missa, resgatai-as por vossas esmolas aos pobres, por vossas boas obras, abri-lhes as portas do paraíso.
Combatamos estas duas causas do esquecimento dos mortos: — a presunção que diz: — Estão no céu, e comodamente não nos interessamos em sufragá-los mais, e, falta de uma fé bem viva no que seja o tormento do purgatório.
 
Deveres sagrados e esquecidos
Sim, bem sagrados e graves são nossos deveres para com os mortos. Temos obrigação de justiça e de caridade em sufragar os defuntos. Não bastam lágrimas, flores, coroas, homenagens póstumas. Tudo isto é mais consolo para os vivos que alívio para os mortos, dizia Santo Agostinho.
Devemos, pois socorrer os defuntos:
1° — Em razão do parentesco e do sangue.
2° — Por gratidão, aos benfeitores nossos.
3° — Por justiça.
4° — Por caridade.
Próximos mais próximos de nós, dizia São Francisco de Sales, naturalmente são nossos pais. Não nos esqueçamos da alma de um pai querido, de uma saudosa mãe. Foram tão carinhosos e se sacrificaram por nós! Não estarão talvez no purgatório? Nosso amor filial os canonizou logo depois da morte e os colocou no céu! Ah! E talvez gemam e sofram no purgatório. Estão salvos, é verdade, no seio de Deus, entre as santas almas, porém... são terríveis os sofrimentos do purgatório
Santa Monica teve o cuidado de recomendar a Santo Agostinho: — Meu filho, não me esqueças no santo altar!
A Igreja tem uma oração especial nas missas de defuntos pelo pai e mãe do sacerdote e que cada fiel pode repetir:
“Ó Deus, que nos ordenastes que honrássemos o nosso pai e nossa mãe, tende piedade, pela vossa cle­mência, das almas de meu pai e de minha mãe, e perdoai-lhes os seus pecados. Permiti também que eu possa um dia tornar a encontrá-los”.
Que tocante oração!
Depois a gratidão.
Há de ser penoso e horrendo o esquecimento dos nossos nas chamas do purgatório!
Não sejamos ingratos. Oremos por todos quan­tos nos fizeram algum benefício na terra. A grati­dão não pode morrer à beira da sepultura de nosso benfeitor. Vai além, corre em auxílio das almas do purgatório!
E, finalmente, deveres de justiça e de caridade. De justiça porque somos obrigados a orar por aqueles aos quais estamos ligados por laços de parentesco e de gratidão. E... caridade. “Não há, diz São Francisco de Sales, maior ato de caridade que orar pelos mortos. É um resumo de todas as obras de ca­ridade”.
Lembremo-nos das pobres almas sofredoras do purgatório. Não temos criaturas que tanto amamos na terra e que hoje nos ferem o coração por uma sau­dade amarga?
Ah! Não bastam as lágrimas e as flores da sepultura. Isto é mais consolo para os vivos. O que aproveita aos mortos é o sufrágio. Santifiquemos nossa saudade pela caridade. Lembremo-nos que talvez gemam no purgatório os que tanto amamos! Por eles mandemos celebrar o santo sacrifício da Missa, façamos algum ato de caridade aos pobres, uma Comunhão, um Rosário de Maria!

Exemplo
O Santo Cura D’Ars e o purgatório
O Santo Cura d’Ars, São João Batista Vianney, era um devoto fervoroso das santas almas do purgatório... Pedira a Deus a graça de sofrer muito. Os sofrimentos do dia, oferecia-os pela conversão dos pe­cadores, e os da noite, pelas almas do purgatório.
E como sofreu! Que noites terríveis de agonias e aflições e tentações espantosas do diabo não passa­ra o Santo durante os longos anos da paróquia de Ars!
A um padre que lhe perguntara a opinião sobre o poder das almas do purgatório em nosso favor, respondeu:
“Si soubéssemos como é grande o poder das boas almas do purgatório sobre o Coração de Jesus e si soubéssemos também quantas graças poderíamos ob­ter por intercessão delas, é certo, não seriam tão esquecidas”.
Nos seus catecismos célebres o Santo narrava tocantes e belos exemplos sobre a eficácia e o poder da devoção às santas almas do purgatório. Nosso Se­nhor lhe concedeu extraordinárias graças para conhecer muitas vezes os mistérios do purgatório.
No processo da Canonização atestaram os que o conheceram:
— A devoção às almas do purgatório foi uma das suas mais fervorosas. Se havia duas Missas a celebrar, uma pelos doentes, outra pelas almas, prefe­ria a das almas.
Muitas vezes lhe pediam orações por uma ou outra alma e o santo respondia:
— Sim, rezarei por ela. Está no purgatório por um tempo indeterminado...
Ou então: — Ela já foi para o céu! Não tem necessidade mais de sufrágio.
Diz o ilustrado Mons. Trochu, autor de “Les in­tuitions du Curé d'Ars, que “o purgatório é um lugar onde o Cura d’Ars sabia o que se passava. Conhecia ele a sorte dos defuntos, teve intuições muito grandes do que se passa além-túmulo”.
Uma senhora foi se confessar ao Santo, em Ars. Depois da confissão, disse-lhe ele: — “Minha filha, agradeça à prima que a trouxe ao confessionário, porque sem isto a senhora estaria no inferno”. E depois de lhe indicar as causas do perigo da condenação, lhe disse muito grave: e depois, minha filha, que ingratidão! Há dez anos que seu pobre pai está sofrendo no purgatório e não mandaram dizer uma só Missa para o libertar!”.
Uma senhora piedosa tinha um esposo indife­rente em religião, mas não obstante homem bom e honesto. Um dia, vítima de um colapso cardíaco, veio a falecer se nenhum sinal de arrependimento. A pobre esposa, desolada, não tinha consolo. Julgava per­dida a alma do esposo. Assim ficou num horrível martírio e sem consolo durante meses. Foi até Ars. O Santo, ao vê-la, foi logo dizendo: — “Minha senhora, já se esqueceu dos ramalhetes de flores que ofereciam à Santíssima Virgem?” A pobre senhora lembrou-se de que realmente ela o e esposo durante muito tempo sempre ofereciam a uma imagem da Virgem uns ramalhetes de flores.
— Minha filha, Deus teve piedade daquele que honrava tanto a sua Mãe. No momento da morte seu marido teve um grande arrependimento. Sua alma está no purgatório. Com orações e boas obras poderá libertá-lo.
Foi um alívio para o coração da pobre viúva, que melhorou de saúde e adquiriu a paz da alma.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão
Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

7 de Novembro: Duração do purgatório



DURAÇÃO DO PURGATÓRIO
 Quanto tempo?
Quanto tempo deve ficar uma alma no purgató­rio? É uma pergunta impossível de responder. Não temos e não podemos ter nenhum argumento ou de­finição da Igreja e da teologia que nos possa garantir uma resposta certa a esta pergunta.
É um mistério e depende muito do modo de encaramos a questão. Bem sabemos que na eternidade não há mais tempo. Tempus jam non erit amplius. Como julgar o tempo em relação ã eternidade? E demais, o sofrimento faz maior e mais difícil de passar o tempo entre nós. Quantas vezes um minuto nos custa mais a passar que longas horas? Pois o sofrimento horrível e intenso das pobres almas faz com que os minutos lhes sejam anos e até séculos. Aqui, havemos de fazer como todos os autores que tratam do purgatório: recorrer às revelações particulares. Elas nos esclarecem, e algumas bem provadas e até sujeitas a processos canônicos rigorosos, como as dos Santos canonizados, nos dão uma garantia de que não se tratavam de ilusões ou fantasias mórbidas. Quanto à duração do purgatório, de uma coisa pode­mos ter certeza, diz-nos Santo Agostinho: é que as penas expiatórias não irão além do último Juízo no fim do mundo[1].
No século XVI, um sábio teólogo dominicano, Domingos Soto, afirmou erradamente que a pena do purgatório não poderia durar mais de dez anos. É uma opinião sem fundamento e geralmente rejeitada. A Igreja supõe muitas vezes que as penas do purgatório sejam longas, quando permite fundações de Missas e sufrágios por longos anos, e celebram aniversários de vinte, trinta, cinquenta e mais anos. Permite fundações perpétuas de Missas. Ninguém sabe, diz Cesário, quanto tempo, quantos anos deverá ficar no purgatório uma alma. É para nós, diz São Roberto Belarmino, coisa muito incerta. Poderíamos considerar duas espécies de duração do purgatório — uma positiva e que corresponde à medida do tempo tal como o contamos neste mundo, e outra fictícia ou imaginária, a que pensam as almas pelo sofrimen­to que as faz perder toda noção do tempo. Daí o ver­mos em revelações particulares pobres almas que estavam apenas algumas horas no purgatório, queixarem-se de anos e até séculos de abandono naquelas chamas.
Eis alguns exemplos de duração positiva segun­do revelações particulares: Conta-se na vida de Santo Tomás de Aquino que o mestre seu sucessor na cátedra de teologia de Paris, depois de morto apare­ceu e disse que havia ficado quinze dias no purgatório para expiar a negligência em executar o testa­mento de um Bispo. São Vicente Ferrer assegura que há almas que ficaram no purgatório um ano inteiro por um pecado venial. Segundo o testemunho de Santa Francisca de Pampeluna, a maioria das almas do purgatório lá sofrem de trinta a quarenta anos. E muitos outros exemplos poderia citar de au­tores muito graves. Muitos Santos viram almas des­tinadas a sofrer no purgatório até o fim do mundo. Algumas revelações particulares, observa o Padre Faber, nos levam a crer que a duração do purgatório vai aumentando sempre mais à medida que a humanidade avança no tempo. Há tanta falta de penitên­cia hoje, tanto luxo e mundanismo!

Longo e breve purgatório
Segundo as revelações particulares, há almas destinadas a um longo sofrimento nas chamas do pur­gatório e outras passam brevemente pela expiação. Citemos exemplos:
Santa Verônica Juliani fala de uma Irmã de seu convento que havia se oposto à reforma do mosteiro e deveria ficar no purgatório tantos anos quantos passou neste mundo. À Santa Margarida de Cortona, a grande penitente franciscana, disse Nosso Senhor: “Alegra-te, minha filha, tua mãe está livre do pur­gatório, onde ficou ela dez anos”. Como a Santa re­zasse por três defuntos que ela julgava estivessem salvos, revelou Jesus: “Estão salvos por tuas ora­ções e se livraram do inferno, mas ficarão vinte anos nas chamas do purgatório”.
Santa Lutgarda fez penitências por Simão Aba­de, cisterciense muito austero e duro demais para com seus súditos. Deveria ficar no purgatório quarenta anos. À Madre Francisca da Mãe de Deus — (1615- 1671) — Nosso Senhor mostrou um dia quatro padres que estavam há mais de cinquenta anos no pur­gatório porque não administraram bem e com res­peito e piedade os Sacramentos.
Santa Lutgarda viu no purgatório um dos Papas mais piedosos e ilustres da Igreja, Inocêncio III. Este Papa apareceu à Santa dizendo que por algumas faltas no governo da Igreja, deveria permanecer no pur­gatório até o fim do mundo. São Roberto Belarmino examinou com muito cuidado as circunstâncias e a autenticidade desta visão, e fala dela nas suas obras. Todavia, si há longas expiações, outras pela misericórdia divina são muito breves. Talvez tenham sido mais intensas. Santa Teresa, na sua Vida ou autobiografia, fala-nos numa Carmelita fervorosa que só passou dois dias no purgatório. Uma outra, muito paciente na doença, ficou apenas quatro horas na expiação. Um Irmão coadjutor da Companhia de Jesus morreu à noite e ficou no purgatório apenas até à Missa do dia seguinte[2].
Santa Margarida Maria Alacoque, a vidente do Sagrado Coração de Jesus, viu o seu Diretor espiritual, o Santo Padre La Colombière, passar algumas horas nas chamas expiatórias por ligeiras faltas. E se trata de um Santo!
O Santo Cura d’Ars, segundo Mons. Trochu[3] nos diz, teve muitas vezes intuições admiráveis do tempo que muitas almas deveriam ficar no purgatório. Perguntaram ao Santo si uma doente se havia de curar. Quem perguntou ignorava que a enferma tivesse morrido. O Santo, que o sabia por inspiração do céu, respondeu logo: “Ela já recebeu a recompensa”.
As almas simples e humildes, e sobretudo as que muito sofreram neste mundo com paciência e se confortaram perfeitamente com a vontade de Deus, podem ter um purgatório muitíssimo abreviado, às vezes de horas. É o que nos dizem inúmeras revela­ções particulares. Até Santos passaram ligeiramente pelo purgatório. Tal se conta de São Severino, Arcebispo de Colônia. Era um grande servo de Deus, admirável pelas suas virtudes e até pelos milagres que fez. Depois da morte, apareceu a um Cônego da sua catedral para lhe pedir orações. Estava no pur­gatório por instantes, por ter rezado com alguma precipitação.

Conclusões
Que havemos de concluir, quando meditamos na duração do purgatório? Primeiramente, procurarmos ter mais zelo pela causa das almas sofredoras que tanto padecem pelo nosso esquecimento. Somos muito fáceis em canonizar logo os mortos e comodamente já não rezamos mais por eles sob a desculpa de que “já estão no céu”. Ai! Não sabemos o que é a Justiça de Deus e até os mais santos têm contas severas a dar ao Senhor depois desta vida.
São Francisco de Sales tinha muito medo destas canonizações rápidas dos admiradores. Estas boas almas, dizia ele, com seus elogios, imaginando que depois da minha morte fui logo direito para o céu me farão sofrer no purgatório. Eis o que me aproveitará a boa reputação de santo...
Santa Teresa escreve no Prefácio do Livros das Fundações: “Pelo amor de Deus, eu peço a cada pes­soa que ler este meu livro, uma Ave Maria, a fim de que me ajude a sair do purgatório e apresse a hora em que hei de gozar a vista de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Assim falaram Santos hoje canonizados e cuja morte por tantos prodígios nos deixaram a certeza de que foram diretamente para o céu.
Por que termos e presunção de terem ido diretamente para o céu nossos entes queridos, embora vir­tuosos, e deixarmos de orar por eles? O piedoso e admirável fundador das Conferências de São Vicen­te de Paulo, Frederico Ozanam, deixou no seu testa­mento estas linhas: “Não vos deixeis levar por aqueles que vos disserem: ele está no céu! Rezai sempre, por aquele que muito vos ama, mas que muito pecou. Com o auxílio de vossas orações eu deixarei a terra com menos temor”.
Santo Agostinho pede orações por alma de Mônica, sua mãe, e de Patrício, seu pai, a todos os lei­tores das suas Confissões. O ilustrado e piedoso Pa­dre Perreyve deixa esta recomendação: “Peço aos meus amigos que rezem por mim muito tempo depois da minha morte. Que eles não digam como se costuma dizer muitas vezes e com muita pressa: está no céu! Que rezem muito por mim, sim, eu lhes peço encarecidamente”.
Não canonizemos tão depressa os nossos mortos e mesmo aqueles que vimos ter a morte dos justos; rezemos muito por eles. Nunca nos descuidemos do sufrágio dos mortos, porque já fizemos muito durante algum tempo, já mandamos celebrar umas poucas Missas e rezamos umas tantas orações e os julgamos já no paraíso com isto. Ignoramos o rigor da Justiça de Deus. E demais, si nossas Santas Missas mandadas celebrar, nossas orações e penitências não servirem mais para as almas pelas quais rezamos, não irão ajudar tantas almas sofredoras?
Outra conclusão que havemos de tirar de nossas reflexões sobre a duração das penas do purgatório é a de cuidarmos mais da nossa perfeição e não sermos tão presunçosos julgando-nos capazes de entrar logo no céu. Cuidado com esta presunção, que nos pode acarretar um longo e doloroso purgatório!
Exemplo
Minutos que parecem séculos
São tão dolorosas as penas do purgatório, que lá os minutos parecem séculos. Há nas revelações pa­ticulares tantos fatos impressionantes que comprovam isto. E demais, que é a eternidade? Já não existe o tempo. Os minutos além desta vida são séculos para os que padecem naquelas chamas expiatórias.
Conta Santo Antonino que um enfermo, vítima de dores atrozes, pedia sempre a morte. Julgava os seus sofrimentos terríveis e acima de toda força humana. Um Anjo lhe apareceu e disse: Deus me mandou para te dizer que podes escolher um ano de do­res na terra, ou um só dia no purgatório. O enfermo escolheu um dia no purgatório. Foi para o purgatório. O Anjo o foi consolar e ouviu este gemido de dor: “Anjo ingrato, dissestes que ficaria no purga­tório um só dia e sinto que estou já aqui há longos vinte anos pelo menos... Meu Deus, como sofro!”. O Anjo responde: Como te enganas! Teu corpo está ainda na terra sem ter baixado à sepultura. A miseri­córdia de Deus te concede ainda voltar para um ano de doença na terra. Queres?
— Mil vezes, sofrimentos maiores ainda na minha doença.
Ressuscitou e durante um ano sofreu horrorosa­mente, mas com uma paciência heroica até à morte.
Este fato foi contado por Santo Antonino de Florença, o prodigioso taumaturgo.
Deu-se também um impressionante fato com São Paulo da Cruz. O Santo estava em oração na cela, quando sentiu que lhe batiam com muita força na porta. Não quis atender, pensando ser o diabo que às vezes lhe perturbava a oração: — Em nome de Deus retira-te, Satanás! Grita São Paulo, mas o batido continua: — Que queres de mim? Pergunta.
— Quanto sofro! Quanto sofro, meu Deus! Sou a alma daquele padre falecido. Há tanto tempo estou num oceano de fogo, há quanto tempo!... Parecem mil anos!
São Paulo da Cruz o reconheceu logo e respondeu, admirado: “O que me diz?!... Meu padre, faz um quarto de hora apenas que faleceu e já me fala em mil anos!
O pobre sacerdote do purgatório pediu sufrágios e orações, e desapareceu. São Paulo da Cruz, comovido e banhado em lágrimas, tomou a disciplina e se bateu, até banhar-se em sangue. No dia seguinte, logo pela manhã, celebrou pelo defunto e viu-o entrar triunfante no céu, na hora da Comunhão.

[1] De civitate Dei — Lib. XXI, caps. XIII e XVI.
[2] M. Jugie — Le Purgatoire.
[3] Intuitions du Curé d’Ars.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

6 de Novembro



O SOFRIMENTO DO PURGATÓRIO
Sofrimento terrível
     Exclamava Jó, o profeta, e com ele repetem as santas almas do purgatório: Miseremini mei! Saltem vos amici mei, quia manus Domini tetigit me! — Tende compaixão de mim! Tende compaixão de mim! Ao menos vós que sois meus amigos, porque a mão de Deus me feriu!
  Sim, a Justiça de Deus fere as benditas almas para as purificar e santificar e torná-las dignas do esplendor da glória celeste e da visão de Deus. E que sofrimentos incríveis padecem elas! Que fogo devorador! Fogo que acrisola o ouro e prepara os eleitos para a visão divina, a glória eterna!
  Sofrer é a condição das almas do purgatório. Pertencem elas à Igreja padecente. Desde que o pe­cado entrou no mundo, só pela cruz Jesus nos salvou, e só pelo fogo do sofrimento chegamos ao céu. O purgatório foi chamado o oitavo sacramento do fogo. Sacramento da misericórdia na outra vida.
  As almas do purgatório, diz o Pe. Faber, estão num estado de sofrimento que a nada se pode com­parar e nem se pode fazer uma idéia.
  Segundo Santo Tomás e Santo Agostinho, quan­to ao sofrimento, as penas do purgatório são análogas às do inferno.
Santa Catarina de Genova, após uma visão do purgatório, exclama:   Que coisa terrível é o purgatório! Confesso que nada posso dizer e nem conceber que se aproxime sequer da realidade. Vejo que as penas que lá padecem as almas são tão dolorosas como as penas do inferno[1].
  O purgatório tem penas, diz a autoridade de Santo Tomás de Aquino, penas que ultrapassam a todos os sofrimentos deste mundo[2].
É o mais horroroso de todos os martírios.
E como não hão de clamar as benditas almas das profundezas do abismo das chamas expiadoras: Mise­remini mei! Miseremini mei! — Tende compaixão de mim!
  Segundo os teólogos e autores abalizados, as almas do purgatório sofrem tanto que não há na linguagem humana o que possa traduzir os tormentos terríveis que padecem. Santa Catarina de Genova, chamada a teóloga do purgatório, a quem Nosso Senhor revelou o sofrimento da expiação dos justos, diz ser impossível traduzir na linguagem humana e o nosso entendimento não pode conceber tal sofrimento. É preciso uma graça e uma iluminação especial de Deus para compreender estas coisas, dizia a Santa.
“É pior que todos os martírios”, disse o Padre Faber.
“As penas do purgatório são passageiras, não são eternas, diz São Gregório Magno, mas creio que são mais terríveis e insuportáveis que todos os males desta vida”.
  Domingos Soto escreveu: “Se o homem tivesse de suportar os tormentos do purgatório, a dor o mataria num instante. A alma imortal por sua natureza torna-se mais forte pela separação do corpo orgânico e por isto tem capacidade para tanto sofrimento”.
  Há dois sofrimentos, duas penas principais no purgatório: a pena do dano ou separação de Deus, e a pena do sentido, tormento do fogo.

A pena do dano
Que é a pena do dano que padecem as almas do purgatório?
  É a que sofrem por se verem privadas da visão de Deus no céu. A visão intuitiva que consiste na fe­licidade de ver a Deus como é, segundo a palavra de São Paulo: videbimus eum sicuti est. Não ver a Deus, cuja beleza soberana e cuja bondade elas compreendem agora de modo tão claro e sentem ser Ele o Soberano Bem, único desejável e a suprema Beleza, única que pode encantar uma alma!
  Pois separada do Soberano Bem, a alma sente um horrível martírio mais insuportável do que todos os tormentos que possa padecer e até do fogo do purgatório em que se acha.
  Santo Tomás de Aquino tratando da pena do dano, diz ser mais insuportável, maior e mais terrível que a pena do sentido. Não ver a Deus, não possuir este Deus, único encanto da pobre alma que já não tem mais nada que a possa seduzir ou enganar, e deixá-la esquecida da Suprema Felicidade! Aqui neste mundo a tibieza, o apego à terra e nossa fraqueza, fazem com que muitas vezes nos esqueçamos de Deus e vivamos sem sentir e nem imaginar sequer o que seja estar separado de Deus. Há quem não possa sequer imaginar o que possa haver de sofrimento nesta ausência de Deus que é a pena do dano. Porém, ai! Quando a alma separada deste corpo mortal sentir a necessidade de voar para Deus, de possuir a Deus, atraída pelo Bem Infinito, sedenta da posse de Deus e da Eternidade, então há de sentir, há de perceber quanto é doloroso e horrível estar um minuto que seja separada do Bem Soberano, separada de Deus! É a horrível pena do dano.
“Sentir um ímpeto de ir para Deus sem o poder satisfazer, isto, diz Santa Catarina de Genova, é o maior sofrimento que se possa imaginar, é propriamente o purgatório. Este estado é um estado de mor­te, uma angústia inenarrável”[3].

A Liturgia da Igreja chama-o com razão de mor­te: Libera eas a morte...
  Sabeis o que é o suplício de quem está sufocado e não pode respirar? Que horror! A alma está como sufocada, não pode respirar o que é a vida e razão de ser, Deus, o Infinito, o Eterno, o Paraíso! A pobre alma no purgatório se precipita no tormento e no fogo, quer se purificar, suspira pelo Bem Eterno, so­fre e sofre, mas deseja mais sofrimento para que che­gue logo a hora de contemplar o seu Deus, a Eterna Beleza que o atormenta naquelas chamas da expiação!
  Tem-se visto neste mundo, escreveu Mons. Bougaud,[4] afeições tão profundas, almas que se ama­vam e não puderam suportar a separação e morreram de dor. Que não será no purgatório? Podemos dizer que si Deus por um milagre da sua Onipotência não sustentasse as almas do purgatório, elas ficariam ani­quiladas de dor longe daquele Deus que amam apai­xonadamente. Si compreendêssemos melhor como é horrível a separação de Deus! Si como os Santos experimentássemos as provações da vida mística, o tormento de se sentir ausente de Deus, saberíamos ava­liar o que é e o que faz sofrer esta terrível pena do dano!

O fogo do purgatório
  Além do sofrimento da pena do dano ou da privação da vista de Deus, da posse da visão beatífica, a Igreja nada definiu sobre a natureza das outras pe­nas do purgatório. O Concilio de Florença diz que as almas são privadas temporariamente da visão beatí­fica e são purificadas de toda mancha por penas expiadoras e purificadoras.    Dentre estas penas está a dos sentidos, e comumente concordam quase todos os autores, se trata da pena do fogo. Há fogo no pur­gatório e um fogo terrível criado pela Justiça Divina para purificação dos justos, para acrisolar o ouro das almas. Os teólogos em geral e em sentença comum, afirmam que se trata de um fogo verdadeiro e não metafórico. Fogo que queima mil vezes mais que o fogo da terra, que comparado a ele não é mais do que o de uma pintura para a realidade. Os Santos Padres e os Teólogos escolásticos admitem o fogo real. Como pode um fogo material atormentar a alma que é espiritual? É um mistério. Todavia, não temos um outro mistério que é o da alma espiritual agir sobre o cor­po material? Por que a Justiça de Deus não poderia fazer com que o fogo material agisse sobre a alma espiritual? Diz claramente Santo Tomás de Aquino: “No purgatório há dois sofrimentos: a pena do dano, que consiste no retardamento da visão de Deus, e a pena dos sentidos, castigo proveniente de um fogo material”[5].
  A questão do fogo do purgatório foi muito discutida no século IV. Santo Agostinho conclui pela existência do fogo material. No século XIII Santo Tomás segue a opinião de Santo Agostinho. A pena do fogo! Como é terrível! Não é menor em inten­sidade do que o fogo do inferno. Este fogo, diz São Gregório Magno, instrumento da Divina Justiça, faz sofrer mais tormentos e muito mais cruéis do que tudo quanto Sofreram os mártires nos suplícios inimagináveis.
  As maiores dores são as que afetam a alma, comenta Santo Tomás. Toda a sensibilidade do corpo vem da alma. O que não será uma dor que vem ferir diretamente a alma? Pois o fogo material, fogo misterioso, dotado de um poder extraordinário, pela Justiça Divina, atinge diretamente a alma e a fere dolorosamente. Que fogo, meu Deus! Que castigo tremendo! Como sofrem as pobres almas nesta forna­lha abrasadora! Tantas revelações particulares nos mostram o fogo do purgatório, fogo real, fogo terrível. Verdadeiro fogo.
  Porque discutir quando a unanimidade quase dos Doutores e Santos Padres e tantos teólogos seguros nos falam com uma eloquência tão impressionante da realidade do fogo do purgatório? São Boaventura escreve: “O fogo do purgatório é um fogo material que atormenta a alma dos justos que não fizeram penitência neste mundo. Fogo! Esta palavra faz tre­mer. Já exclamava Isaias: quem dentre vós poderá habitar em meio de um fogo devorador? (Is 33,14) Façamos penitência agora, aliviemos o fogo de nosso purgatório. É terrível o fogo que nos espera!

Exemplo
Uma aparição
Não podemos saber neste mundo com certeza e nem é necessário saber como é e o que é o fogo do purgatório. O que sabemos é que a Sagrada Escritura muitas vezes nos fala do fogo para nos dar a entender que seremos castigados e expiaremos nossas faltas nos rigores da Divina Justiça para nos purificarmos e sermos dignos de entrar no céu. Se 0 fogo desta vida criado por Deus para nos servir já é terrível, que não será o fogo da Divina Justiça?

O fato seguinte é narrado pelo piedoso Monsenhor De Segur.
  Em 1870, diz o piedoso prelado, eu vi e toquei em Foligno, perto de Assis, na Itália, uma destas ter­ríveis provas de fogo pelas quais as almas do purga­tório, por permissão de Deus, às vezes atestam que o fogo do purgatório é um fogo real. Em 1859 mor­reu de uma apoplexia fulminante a boa Irmã Teresa Gesta, que durante longos anos foi mestra de Novi­ças. Doze dias depois, em 16 de Novembro, uma Ir­mã, chamada Ana Felícia, subia à rouparia quando ouviu um angustioso e triste gemido: — Jesus! Maria! Que é isto? Exclamou assustada a Irmã. Não havia acabado de falar, quando ouviu uma queixa: Ai! Meu Deus! Meu Deus! Quanto sofro! Irmã Ana reconheceu logo a voz da defunta Irmã Teresa. Um cheiro sufocante de fumaça encheu toda a rouparia e percebeu-se o vulto da Irmã Teresa que se dirigia para a porta e tocava na mesma com a mão direita, dizendo: Aqui fica a prova da misericórdia de Deus. E na madeira da porta ficou carbonizada e impressa a mão da defunta, que desapareceu. Irmã Ana pôs-se a gritar numa grande excitação nervosa. A comu­nidade correu para acudi-la e sentia-se um cheiro sufocante de fumaça. A Irmã conta o que se passa e reconhecem todas, na mão pequenina gravada no portal, a mão da Irmã Teresa, que se distinguia muito pela sua pequenez e delicadeza. As Irmãs, comovidas, vão ao coro e oram pela defunta. Passam a noite em oração e penitências em sufrágio da saudosa mestra de noviças. No dia seguinte oferecem a Santa Comunhão por aquela alma. Mais um dia se passa e Irmã Ana Felícia ouve e vê depois Irmã Teresa radiante de glória toda bela, que lhe diz com doce voz: “Vou para a glória! Sede fortes e corajosas na luta, fortes em carregar a cruz!” E desapareceu numa luz brilhantíssima.
  Este fato portentoso é narrado por Monsenhor de Segur, que visitou o Convento das Terceiras Regulares Franciscanas daquela cidade, foi submetido a um rigoroso processo ordenado pelo Bispo de Foligmno em 23 de Novembro de 1859.

[1] Purgatório, o. VIII.
[2] Sum. Theol. supp. quaestio, c. X, art. 3.
[3] Traité du Part., II.
[4] Le Christianisme et lês temps presents. — Tomo V, c. XIV.
[5] Suppl. quaest. c, art. 3.
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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

5 de Novembro




O PURGATÓRIO, A RAZÃO E O CORAÇÃO

Razões do purgatório

Qual a razão de ser do purgatório? É o pecado. É o obstáculo que impede a alma de entrar no céu sem estar purificada e digna da visão beatífica. O pecado mortal leva ao inferno. Separa para sempre a alma de Deus. Entretanto, veio o perdão pela infi­nita misericórdia e o pecador arrependido muda de vida e não mais volta aos seus desvarios. Todavia, não fez a devida penitência, não reparou o seu crime neste mundo por uma penitência. Fica-lhe ainda uma dívida a pagar à Divina Justiça. O pobre pecador cul­pado de muitas faltas veniais passa desta para outra vida, vai prestar contas a Deus. Aquele Deus de to­do santidade, o Santo por excelência, a Justiça mes­ma, não quer condenar a quem já perdoou, não há de perder quem, embora manchado de leves culpas, de muitas imperfeições, não é todavia inimigo de Deus. Que há de fazer? Levá-lo para o céu, onde nada pode entrar manchado? Impossível! Seria ter uma noção errada da santidade e da infinita pureza de Deus, admitir este absurdo. Condenar às penas eternas quem, embora tivesse pecado, não chegou à culpa mortal e não se separou do Senhor porque não per­deu o estado de graça? Então para onde irá a alma assim manchada e não de todo santa e perfeita para o céu? Eis a razão a nos dizer: há de existir uma purificação além desta vida entre as duas eternida­des, um purgatório que nos livre do inferno e que seja o vestíbulo do paraíso, uma expiação necessária para as almas. Pode-se ir para o purgatório por três motivos: primeira, pelos pecados veniais não remi­dos ou perdoados neste mundo; segundo, pelas incli­nações viciosas deixadas em nossa alma pelo hábito do pecado; terceiro, pela pena temporal devida a todo pecado mortal ou venial cometido depois do batis­mo e não expiado ou expiado insuficientemente nes­ta vida.

Depois da morte não há mais reparação nem pe­nitência nem mérito. Havemos de pagar a dívida de nossos pecados até o último ceitil, como diz o Evan­gelho.

Ora, é necessário o purgatório. É um dogma muito conforme à razão e bom senso. A existência do purgatório, dizia o grande Conde De Maistre, se apoia na natureza de Deus e na natureza do homem. Digo — na natureza de Deus. Deus é Santidade, Jus­tiça e Caridade. Como Santo, Deus não pode admitir união entre a sua pureza infinita e nossas manchas. Como Deus, é bom, não pode deixar perecer para sem­pre a obra das suas mãos que lhe implora o perdão. Daí a necessidade de um lugar de expiação. A razão do purgatório também se baseia na natureza do ho­mem. Está na natureza humana procurar se purifi­car para ter um alívio, porque a falta coloca o homem em desarmonia com seu fim último. Ora, a alma não pode se purificar sem sofrimento, sem penas. O purgatório é esta expiação, esta purificação que a alma procura. Para fazer cessar este desacordo entre ela e Deus e torná-la apta para gozar da felicidade de Deus sem as manchas de suas faltas. Eis aí como é racional e que harmonia no dogma do purgatório!

Razões de sentimento

Vemos tantos entes queridos que deixaram esta vida, é verdade, em boas disposições, mas como eram culpados de certas faltas e não haviam feito uma pe­nitência devida, receamos às vezes pela sua salva­ção. Todavia nos diz o coração que não podiam se perder. Eram bons, tinham qualidades apreciáveis, foram talvez caridosos e fizeram algum bem nesta vida. Admitir que estejam no céu depois de tantas faltas e defeitos e ausência de penitência, não o po­demos. Dizer que estejam condenados, é muito duro, e, apesar de tudo, como poderiam ter se perdido al­mas tão caridosas e boas e que fizeram algum bem neste mundo? A idéia do purgatório se impõe neces­sariamente à nossa razão antes de se impor à nos­sa fé.

Escreve o Pe. Faber: “O purgatório explica os enigmas deste mundo. Dá solução a uma multidão de dificuldades. Em face deste sistema, que podería­mos chamar o oitavo e terrível Sacramento do fogo que atinge as almas, às quais os sete sacramentos não deram uma pureza perfeita. O purgatório é uma invenção de Deus para multiplicar os frutos da Pai­xão de nosso Salvador e que Ele estabeleceu preven­do a grande multidão de homens que deveriam mor­rer no amor de Deus, mas num amor imperfeito. Não é uma continuação além-túmulo das misericór­dias prodigalizadas no leito de morte? Isto nos es­clarece tanto e nos faz supor que muitos católicos se salvam, principalmente os que viveram neste mun­do na pobreza, no sofrimento e nas provações”.

O dogma do purgatório também encontra fun­damentos e raízes no coração humano, escreveu Mons. Bougaud. É um intermediário entre a Justiça e a Mi­sericórdia, como o divino auxiliar do amor. Tirai o purgatório, e a justiça seria terrível. Seria inexo­rável. Felizmente, esta aí o purgatório. O Amor in­finito o criou. O purgatório não serve apenas para temperar e satisfazer a justiça. Serve também para dilatar a misericórdia. Serve para explicar a mise­ricórdia de Deus que se contenta, na hora da morte, com um pouco de arrependimento do pecador.

Não é pois consolador pensar na existência do purgatório, pelo qual se poderão salvar tantas almas? A impiedade e a heresia, negando o dogma da expiação além-túmulo, se põem contra a razão. O purgató­rio, diz ainda o célebre Mons. Tiamer Toth, é a melhor resposta aos erros da reencarnação. Há um so­frimento purificador depois desta vida. O cristia­nismo ensinou isto muito antes que as filosofias ne­bulosas do Oriente semeassem na alma do homem moderno o erro da reencarnação, que não tem a seu favor argumento de espécie alguma. Também nós pregamos que há purificação além-túmulo! Esta pu­rificação se faz na justiça de Deus e com o fim de salvar uma alma por toda eternidade e torná-la dig­na da Pureza Infinita, que é Deus. O purgatório é um combate aos erros do espiritismo, porque nos manda orar e sufragar os mortos sem se preocupar em conversar com eles, na certeza de que estão nas Mãos da Divina Justiça e já não podem se comu­nicar com os vivos. Que dogma racional e de quantos erros e superstições nos livra!

Nossos mortos

Havemos de chorar nossos mortos e a religião não nos pode proibir as lágrimas tão justas, quando sentimos nosso coração ferido pelo golpe duro da sau­dade. Todavia, havemos de chorar cristãmente nos­sos defuntos queridos. É mister lembrar-se deles mais com orações e sufrágios do que com lágrimas esté­reis. O pensamento do purgatório é um consolo. Sa­bemos que podemos ainda auxiliar, valer e socorrer nossos entes queridos. É bem possível que padeçam no purgatório.

A religião de Nosso Senhor Jesus Cristo não proíbe que choremos os nossos mortos queridos. Pode­mos, pois, render a estes o tributo de nossas lágri­mas e de nossas saudades. Com esta pobre natureza, como ficarmos insensíveis ante a morte de um ente estremecido? Como nos custa ver arrebatados pela morte os entes com quem convivemos, nosso pai, nos­sa mãe, nosso filho, nosso irmão, nosso amigo!... A religião, se bem que nos ensine a ser fortes na dor e a meditar na Paixão de Jesus Cristo, não nos veda aquelas lágrimas e saudades. Ela não tem o estoicis­mo pagão, estúpido e antinatural. Pois Jesus não chorou na sepultura de Lázaro? Não choraram, na Paixão, Maria e Madalena e as Santas Mulheres? A religião nos permite chorar do mesmo modo os nos­sos mortos. Quer apenas que o façamos, não como os pagãos, desesperados e desiludidos, mas como quem tem esperança na vida eterna e crê na imortalidade. Choremos a separação dolorosa, mas com a doce es­perança de que, um dia, numa pátria melhor, onde não haverá nem luto, nem dor ou sofrimento de qual­quer espécie, nem separação, tornaremos a ver todos aqueles que amamos aqui na terra. Como essa esperança consola! O cristão não deve dizer com desespero, ante o cadáver gelado de um ente querido: — “Nunca mais te verei! Adeus para sempre!”. Não! Embora em pranto, suas palavras devem ser estas:

— “Até ao céu! Lá nos tornaremos a ver c seremos para sempre felizes!”.

O dogma do purgatório, tão em harmonia com nosso coração, nos diz que podemos ainda ajudar nos­sos mortos queridos para podermos dizer-lhes: até o céu!

Exemplo
A Bem-aventurada Ana Taigi e o purgatório

Deus lhe revelou muitas vezes a sorte das almas do purgatório. Ela pedia continuamente pelas pobres almas, num misterioso sol que sempre lhe aparecia, foi uma grande mística do século XIX.

Em 30 de Maio de 1920, S.S. Bento XV decla­rava Bem-aventurada a humilde e pobre mãe de fa­mília, que durante tanto tempo chamou a admiração de Roma e do mundo com tantos prodígios sobrena­turais. A Beata Ana Taigi, romana de nascimento, via todos os acontecimentos futuros e a sorte dos mortos.

Um homem, conhecido de Ana, morreu, e ela o viu nas chamas do purgatório, salvo do inferno pela Divina Misericórdia, porque socorreu um pobre que o importunava muito pedindo esmola. Viu um conde cuja vida se passou em delícias e divertimentos, mas que na hora da morte teve um grande arrependimen­to e se salvou, mas deveria sofrer no purgatório tor­mentos incríveis tanto tempo quanto passou neste mundo sem se preocupar com a penitência e com a salvação eterna.

Viu homens de grande virtude sofrendo porque se deixaram levar pela vaidade e amor próprio, mui­to apegados aos elogios e à amizade dos grandes da terra.

Um dia Nosso Senhor lhe disse: levanta-te e reza, meu Vigário na terra está na hora de vir me prestar contas. Ana sufragou a alma do Papa e depois o viu como um rubi ainda não de todo brilhante, pois lhe faltava se purificar mais.

Faleceu em Roma o Cardeal Dória, que deixou grande fortuna, e naturalmente celebraram-se por sua alma centenas de Missas. Foi revelado à Beata Ana Taigi que as Missas celebradas por alma do Car­deal eram aproveitadas para as almas dos pobrezinhos abandonados e que não tinham quem mandasse celebrar por eles.

Via-se assim a Divina Justiça que não olha a ri­queza nem as possibilidades dos ricos em arranjar sufrágios, com descuido às vezes neste mundo da ver­dadeira penitência.

Viu Ana no purgatório um sacerdote muito esti­mado por suas virtudes e sobretudo pelas brilhantes pregações que fazia e o tornavam admirados de todos. Sofria muito este pobre padre. Foi revelado à Beata que expiava a falta de procurar com muito empenho a fama de bom pregador e um pouco de vaidade ao pregar a palavra de Deus, sobretudo nas complacências com os elogios.

Viu dois religiosos muito santos no purgatório, em sofrimentos duros. Um deles expiava o seu apego ao próprio juízo e pouca submissão ao modo de ver de outros, e outro a dissipação, a falta de recolhi­mento e piedade no exercício do ministério sacerdotal.


Enfim, a Beata Ana trouxe com a sua bela e im­pressionante mensagem do sobrenatural no século XIX, muitas luzes sobre o purgatório e impressio­nantes lições da Justiça de Deus, e também não há dúvida, da Infinita Misericórdia que salva tantas al­mas pelas chamas expiadoras do purgatório.

4 de Novembro. O PURGATÓRIO A justiça e a misericórdia


  
O PURGATÓRIO

A justiça e a misericórdia

Existe o purgatório, isto é, um lugar de expia­ção onde se purificam as almas para a visão beatifica.

Quem é digno de subir à Montanha Santa? Quis ascendit in montem Domini? Quanta santidade e pu­reza de vida exige o Senhor dos que há de admitir à sua presença, à presença daquele Deus três vezes santo, ante o qual os serafins cobrem as faces com suas asas e os céus repetem: Sanctus, Sanctus, Sanc­tus — Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos!

A pobre criatura humana tão miserável nem sempre, ao deixar a terra, é bastante pura e santa e merece a presença do Senhor, a visão beatífica. E também como há de ser condenada às chamas eter­nas a alma que, embora não tivesse pago a dívida dos seus enormes pecados na penitência desta vida, não é todavia merecedora do castigo eterno? Há de en­trar no céu? Não. Lá só se encontram os santos e os puros de coração. E que pureza angélica requer a divina Justiça para o céu!

Há de ser condenada ao inferno? Oh! Não. A misericórdia divina jamais o permitiria. Faltas ve­niais, imperfeições, falta de penitência dos pecados

graves, tudo isto, é bem verdade, exige castigo e sem a penitência não se há de entrar no céu. Porém, a Justiça e a Misericórdia divina se uniram — Justitia et pax osculatae sunt. — E inventaram uma obra-prima desta mesma justiça e desta misericórdia in­finitas do Senhor.

O pecado será castigado, a dívida exigida pela justiça será paga até o último ceitil, mas a infinita misericórdia há de salvar a pobre alma culpada, há de lhe abrir um dia as portas do céu.

Existe um purgatório!

Não é consoladora e racional a doutrina da Igre­ja neste dogma?

A Sagrada Escritura

A oração pelos mortos e a existência de um lu­gar de expiação, claramente se encontram afirmadas nos livros santos. Recordemos o texto do livro se­gundo os Macabeus (12-43-36) e que serve de epís­tola na missa do aniversário dos defuntos:

“Naqueles dias, o varão forte chamado Judas, havendo feito um peditório, recolheu a quantia de do­ze mil dracmas, que enviou para Jerusalém, para ser oferecido um sacrifício pelos pecados dos mortos; pois ele possuía bons e religiosos sentimentos acerca da ressurreição (e, com efeito, se ele não esperasse que aqueles que haviam sucumbido ressuscitassem um dia, teria pensado que era vão e supérfluo orar pelos mortos). Assim, ele acreditava que uma abun­dante misericórdia estava reservada para aqueles que morressem piedosamente; pois, na verdade, é um santo e salutar pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados”.

Que se conclui do texto sagrado? Há um lugar de expiação e podemos orar pelos mortos, pois é santo e salutar este pensamento.

E o Evangelho? Algum texto deste livro de to­dos o mais sagrado, prova a existência do purga­tório? Sim, segundo os mais autorizados comenta­dores e Santos Padres, este ponto da nossa fé não deixou de ser afirmado por Nosso Senhor. (“Aquele que blasfemar contra o Espírito Santo, diz Jesus, não será perdoado nem neste mundo nem no outro”).

Logo, há pecados que são perdoados no outro mundo, isto é, são expiados no purgatório.

“Não hesites em fazer as pazes com teu adver­sário, diz Jesus, enquanto estiveres em caminho com ele, para que não vá te entregar ao oficial da Justiça e sejas lançado no cárcere. Em verdade te digo, daí não sairás enquanto não houveres pago o último ceitil”.

Estas palavras nos indicam a existência na vida futura de um lugar onde se pagam as dívidas morais, isto é, o purgatório.

O Apóstolo dos gentios diz que aqueles que misturaram nas obras de Deus as preocupações do amor próprio, serão salvos, mas passando pelo fogo.

Notai bem: serão salvos. Portanto, não serão condenados ao inferno, mas passarão pelo fogo, isto é, hão de sofrer e se purificar. — Eis o purgatório.

Os Santos Padres e os Concílios

Desde Orígenes e Tertuliano, encontramos nos Santos Padres a prova de que a crença do purgatório sempre existiu na Igreja, desde os tempos primitivos. As inscrições das catacumbas demonstram que ora­vam os primeiros cristãos pelos mortos. Tertuliano exorta uma viúva cristã a conservar pelo falecido es­poso a mesma ternura, rezando por ele.

Perguntaram a São João Crisóstomo o que era preciso fazer pelos defuntos. Respondeu ele: “É pre­ciso ajudá-los com ardentes súplicas e especialmente com a prece litúrgica por excelência, o Santo Sacri­fício da Missa”. Santo Ambrosio diz o mesmo, escre­vendo a Faustino: “Chorai menos e rezai mais. Der­ramais lágrimas, isto é permitido, mas não deixeis de recomendar ao Senhor a irmã querida que vos deixou”.

Diversos Padres da Igreja afirmam claramente o que a Escritura e a tradição demonstram: a exis­tência do purgatório.

Em Cartago, São Cipriano, no século terceiro, fala do sufrágio dos mortos que ele recebera da tra­dição dos seus predecessores.

Santo Agostinho louva a Parchius porque em vez de rosas, lírios e violetas sobre os túmulos, der­rama o perfume da esmola sobre as cinzas dos mor­tos queridos. E diz mais claramente, num sermão aos seus diocesanos de Hipona: “Não há dúvida que as orações da Igreja e o sacrifício salutar e as esmolas dos fiéis ajudam os defuntos a serem tratados mais docemente do que mereciam os seus pecados”.

O que aprendemos de nossos pais, diz o Santo Doutor, e o que a Igreja Universal observa, é fazer memória no sacrifício dos que morreram na Comu­nhão do Corpo e do Sangue de Cristo, e rezar e ofe­recer por eles o Sacrifício. Pede orações no santo al­tar pela alma de Monica, sua mãe.

Recomendemos a Deus, diz São Gregório Nazianzeno, as almas dos fiéis que chegaram antes de nós ao lugar do repouso.

São Cirilo escreve: “Não é por lágrimas que se socorre um defunto, mas pelas orações e as esmolas. Não deixeis de assistir os mortos, rezando por eles”.

E muitos outros Padres da Igreja afirmaram claramente a existência do purgatório e a eficácia dos nossos sufrágios. Agora, vejamos a autoridade dos Concílios.

Inúmeras assembléias provinciais e ecumênicas afirmaram o dogma do purgatório e recomendaram os sufrágios e orações pelas almas. Assim os Concílios provinciais de Cartago — ano 312 — Canon 29 — o de Orleans em 533 — Canon 14 — o de Praga em 563 — Canon 34 — Chalons sur Saône cm 580 e os Concílios ecumênicos de Latrão, Florença e sobre­tudo o Concilio de Trento não definiu a natureza ape­nas do purgatório, mas afirmou os pontos essenciais do dogma da seguinte forma: Como a Igreja católica de conformidade com a Sagrada Escritura e a anti­ga tradição dos Padres ensinou nos Concílios anterio­res e no presente sínodo universal que existe um lu­gar de expiação, e que as almas ali encerradas po­dem ser aliviadas pelos sufrágios dos fiéis e princi­palmente pelo Sacrifício do Altar, o Santo Concílio or­dena aos bispos que tomem cuidado para que uma pura doutrina no que respeita ao purgatório, con­forme a tradição dos Santos Padres e dos Concílios, seja acreditada e sustentada por todos os que per­tencem à Igreja e seja ensinada e pregada em toda parte. As questões difíceis e árduas neste ponto que não poderiam servir para a edificação e nem favore­cer a piedade, devem ser evitadas nas exortações ao povo. É mister também evitar a exposição de opi­niões incertas e com aparência de erro. E definindo, conclui: se alguém disser que a graça da Justifica­ção, a culpa e a pena eternas são de tal modo perdoa­das ao penitente, que não resta pena temporal a sofrer neste mundo e no outro no purgatório antes de entrar no reino do céu, seja anátema.

E outro Canon: “Se alguém disser que o Santo Sacrifício da Missa não deve ser oferecido pelos vivos e os mortos, pelos pecados e penas, as satisfa­ções e outras necessidade, seja anátema”.

Eis aí toda a doutrina da Igreja sobre o purga­tório. Que se conclui então? Há só dois pontos, per­feita e claramente definidos, e que somos obrigados a crer: 1) — Existe um lugar de purificação tempo­rária para as almas justificadas que saem desta vida sem completa penitência dos seus pecados. 2) — Os sufrágios dos fiéis e especialmente o Santo Sacrifí­cio da Missa são úteis às almas.

Eis aí, em síntese, a consoladora doutrina da Igreja sobre o dogma do purgatório.

Exemplo

Santa Perpétua e o purgatório

Já nos primeiros séculos, segundo o testemunho de Tertuliano e dos Santos Padres e os monumentos, os cristãos sufragavam os mortos com orações, e pelo Santo Sacrifício da Missa celebrado sobre as sepulturas. Nas inscrições e, nos epitáfios se encontram nas catacumbas belas preces pelos mortos. No século IV em 302, Santa Perpétua nos conta uma visão do purgatório. Diz ela:

“Estávamos em oração na prisão, depois da sen­tença que nos condenava a sermos expostas às fe­ras, e de repente chamei por Denócrato. Era um meu irmão segundo a carne. Morrera com um câncer na face. A lembrança da sua triste sorte me afligia. Fi­quei admirada de me ter vindo à lembrança este ­irmão e me pus a rezar por ele com todo fervor, ge­mendo diante de Deus. Na noite seguinte, tive uma visão na qual vi Denócrato sair de um lugar tenebro­so no qual se acham muitas pessoas. Estava abatido e pálido, com a úlcera que o levou à sepultura. Tinha uma grande sede. Junto de mim estava uma bacia com água, mas ele em vão tentava beber e não con­seguia. Conheci que meu irmão estava sofrendo e era preciso rezar por ele. Pedi por ele dia e noite com muitas lágrimas, para que fosse libertado. Alguns dias depois tive outra visão, na qual Denócrato me apareceu todo brando, brilhante e belo, e se inclinou e bebeu à vontade a água que antes não pude tirar. Conheci por isto que estava livre do suplício”.

Eis um belo trecho que vem provar a antiguida­de da crença do purgatório.

Santo Agostinho reconhece a autenticidade das Atas de Santa Perpétua e nota que o irmãozinho da Santa deveria ter cometido alguma falta depois do batismo.