O Manuscrito do Purgatório- 1879 parte II

1879 parte II

— Que distância há entre a terra que habitamos e o purgatório?
Resposta: — O purgatório está no centro do globo. A terra mesma não é um purgatório? Entre as pessoas que nela moram, umas aí fazem o seu purgatório inteiramente pela penitência voluntária ou aceita. Estas, depois da morte, vão diretamente para o céu. Outras, começam o purgatório na terra, porque a terra é um lugar de sofrimento, mas estas almas como não têm bastante generosidade, vão acabar o seu purgatório da terra no purgatório real.
— As mortes repentinas são uma justiça ou uma misericórdia de Deus?
Resposta: — Estas espécies de mortes às vezes são justiça e outras misericórdia de Deus. Quando uma alma tem o temor de Deus e Deus sabe que ela está preparada para comparecer diante d’Ele, para lhe poupar os horrores da angústia que poderia ter nos últimos momentos, Deus a retira deste mundo com uma morte repentina.
Às vezes também Deus toma estas almas por justiça. Não ficam de todo perdidas, mas sem os últimos sacramentos, ou recebendo-os às pressas, sem estarem preparadas para a última viagem, seu purgatório é bem mais doloroso e se prolonga muito.
Outros encheram a medida de seus crimes, abafaram a voz de todas as graças divinas e Deus as tira da terra a fim de que não excitem mais a vingança divina.
— O fogo do purgatório é um fogo como o da terra?
Resposta: — Sim, com esta diferença: o fogo do purgatório é uma purificação da justiça divina e o da terra é bem “doce” comparado com o do purgatório. É uma sombra junto dos grandes braseiros da divina justiça.
– Como uma alma pode se queimar?
Resposta: — Por uma justa permissão de Deus. A alma foi verdadeira culpada, pois o corpo nada mais fez que obedecê-la (que malícia, ter um corpo morto?); a alma sofre como se ela tivesse corpo para sofrer.
— Dizei-me o que se passa na agonia e depois? A alma encontra a luz nas trevas? Sob que forma se pronuncia a sentença?
Resposta: — Eu não tive agonia, como bem sabeis, mas eu posso vos dizer que no último momento decisivo, o demônio emprega toda a sua raiva em torno dos agonizantes. Deus, para dar mais mérito às almas, permite que elas sofram as últimas provas nestes últimos combates, sobretudo as almas fortes e generosas, a fim de que tenham um lugar mais belo no céu. Muitas vezes, no fim da vida, naqueles transes da morte, naquelas lutas terríveis contra o anjo das trevas (fostes testemunha disto…), saem elas vitoriosas. Deus não permite que uma alma que lhe foi dedicada na vida, pereça nestes últimos momentos.
As pessoas que amaram a Santíssima Virgem e a invocaram toda a vida, recebem dela muitas graças nas últimas lutas. Acontece o mesmo para as que foram devotas de São José e de São Miguel, ou de algum santo. Nesta hora, então, é que a gente é muito feliz de ter um intercessor junto de Deus neste momento penoso! Há almas que morrem tranquilas, sem nada experimentarem do que acabo de vos dizer. Deus tem seus desígnios em tudo. Faz ou permite tudo para o bem particular de cada um.
Como hei de vos descrever o que se passa depois da agonia? Não é possível compreender o que se passa então. Vou procurar explicar da melhor maneira que puder.
A alma, ao deixar o corpo, se encontra toda tomada, toda investida, se assim posso me exprimir, de Deus. Ela se encontra numa tal claridade, que num instante percebe toda a sua vida e o que ela mereceu. É em meio desta visão clara que se pronuncia sua sentença. Se é uma alma culpada, e por conseguinte merece o purgatório como eu, ela fica de tal maneira esmagada sob o peso das suas faltas que ficam para apagar, que ela por si mesma se atira no purgatório. A alma vê o bom Deus, mas está aniquilada na sua presença. É só então que a gente compreende o bom Deus, o seu grande amor pelas almas, e que desgraça é o pecado aos olhos da Majestade Divina! Eu vi também meu Anjo da Guarda.
Para vos dar a entender como é que São Miguel leva as almas ao purgatório, porque uma alma não se leva, eu vos digo que é neste sentido que ele está presente na execução da sentença.
Tudo quanto se passa no outro mundo é um mistério para o vosso!
— E quando uma alma vai direto para o céu?
Para esta alma a união começada com Jesus na terra, continua no céu, na morte, eis o céu, mas a união do céu é muito mais intima que a da terra.
Tendes muita razão de não gostar dos êxtases. É preciso aceitá-los quando Deus os envia, mas Ele não quer que a gente os deseje. Não são estas coisas que levam ao céu. Uma vida mortificada, e humilde, é muito mais para se desejar e é muito mais segura. É verdade que diversos santos tiveram revelações de Deus, que lhes dava isto depois de longos combates, e de uma vida de renúncia, ou ainda porque queria se servir deles para grandes coisas, tendo em vista a sua maior glória. Todavia, tudo isto se fez sem ruído, sem brilho, no silêncio da oração e quando eram descobertos, ficavam envergonhados e não falavam disto senão por obediência. Pelo que me dizeis, podeis ficar tranquila.
Eis como se pode conhecer quando uma graça vem de Deus.
Estas graças vêm como uma onda que vos surpreende num belo dia, como urna chuva em pleno dia claro, que se despeja sobre a alma, quando o céu parece mais sereno. Não se deve temer então haver procurado isto, pois nem se pensou nisto às vezes. Haveis de ter observado isto diversas vezes.
É muito diferente isto das graças que julgam serem dadas por Jesus, e, pelo contrário, não são mais do que trabalho da imaginação que as produziu. Estas devem ser temidas porque o demônio se aproveita, de um cérebro fraco, de um temperamento mole e de um juízo pouco equilibrado, e ilude estas pobres almas que entretanto não pecam, contanto que se submetam às pessoas que as dirigem. E posso vos dizer que há muitas destas neste mundo de hoje… O demônio procede assim para lançar a religião ao ridículo.
Poucas pessoas amam a Deus como Ele quer. Elas se procuram a si mesmas, julgando procurar a Deus, e sonham com uma santidade que não é verdadeira.

 — Dizei-me então em que consiste a verdadeira santidade?
Resposta: — Já o sabeis, mas já que desejais, vou repetir o que já foi dito diversas vezes.
A verdadeira santidade consiste em se renunciar de amanhã à noite, viver de sacrifício. Saber pôr de lado a toda hora o “eu” humano, deixar que Deus trabalhe como queira em nós. Receber, com uma profunda humildade, as graças que Ele nos dá, reconhecendo-se indigna delas. Estar quanto possível sempre na presença de Deus. Fazer todas as ações sob o divino olhar e não procurar outra testemunha para os próprios esforços. Ter a Deus como única recompensa, e todas as coisas que eu já vos disse. Eis a santidade que Jesus exige e quer das almas que querem viver só para Ele. O resto não é mais que ilusão.
Certas almas fazem, pelo sofrimento, o seu purgatório na terra; outras por amor, porque o amor tem também um martírio. A alma que procura amar verdadeiramente a Jesus, acha que, apesar dos seus esforços, ela não o ama na medida dos seus desejos. Isto é para a alma um martírio perpétuo, causado unicamente pelo amor, e não é um martírio sem grandes dores! É como já vos disse, um pouco daquele estado da alma do purgatório que impele incessantemente para Deus, seu único desejo, e se vê repelida porque sua expiação não está acabada!
— Se eu não tivesse falado e ninguém tudo o que me dizeis desde que estou vos ouvindo, qual seria o resultado? Sabeis que eu tenho um grande desejo de guardar segredo, guardar isto tudo só comigo?
Resposta: — Sois livre de o fazer ou não, mas se ainda não falastes disto, eu vos aconselho a que o façais, porque Deus nunca permitiu que a perfeição de ninguém viesse diretamente do céu. Ela habita na terra, e quer que na terra mesmo ela se aperfeiçoe, segundo os conselhos que recebe para isto. Fizestes bem em confiar o que vos custava tanto dizer. E demais, tudo isto não vem de vós, e Deus, que de tudo sabe tirar proveito para a sua glória, dirige tudo para proveito daqueles que Ele ama.
(Novembro-Dezembro) — O dia e a oitava dos Defuntos trazem uma alegria no purgatório e se livram muitas almas?
Resposta: — No dia dos Mortos muitas almas deixam o lugar de expiação para o céu, e por uma grande graça do Bom Deus, só neste dia todas as almas sofredoras, sem exceção, têm parte nas orações públicas da Santa Igreja, até mesmo as do grande purgatório. Entretanto, o alívio de cada alma é proporcionado ao seu mérito. Umas recebem mais, outras menos. Entretanto, todas aproveitam esta graça excepcional. Muitas almas, pobres almas, só recebem este único alívio pela justiça de Deus, durante os longos anos que passam no purgatório.
– Entretanto, não é no dia dos mortos que sobem mais almas ao céu. É na noite de Natal?
Há muitas coisas que eu vos poderia dizer, mas eu não tenho permissão.
É preciso que me interrogueis, porque então eu posso responder. Eu estou bem aliviada pelas orações do Reverendo Padre. Dizei-lhe que lhe agradeço pelas orações que fez e que mandou fazer por minha intenção. Eu rezo sempre por ele. Espero fazer mais ainda quando eu estiver no céu. Dizei-lhe também que eu sei que ele reza por mim e pelas almas do purgatório.
Por permissão de Deus há um sofrimento maior para as almas, quando as orações que se fazem por elas não lhes podem ser aproveitadas.
No purgatório não se recebem as orações da terra senão na medida em que Deus quer que sejam aproveitadas às almas. Depende da disposição de Deus.
Quanto ao tempo da nossa libertação, não sabemos nada. Se soubéssemos o fim dos nossos sofrimentos, seria um alívio, uma alegria para nós, mas não! Vemos bem que nossas dores diminuem quando a nossa união com Deus se torna mais íntima, mas em que dia? (segundo a terra, porque não há dias), e em que dia estaremos todos reunidos? Não o sabemos, é o segredo de Deus!…
As almas do purgatório não têm conhecimento do futuro, a não ser que Deus lhes queira dar isto. Algumas almas o possuem, umas mais, outras menos. Mas o que adianta saber o futuro para nós, a menos que se trate da glória de Deus e do bem de algumas almas?
Não se admirem se o demônio e seus satélites têm algumas vezes conhecimento de coisas que se realizam no futuro. O diabo é um espírito e, por conseguinte, tem mais astúcias e conhecimentos do que qualquer pessoa na terra, à exceção dos santos, aos quais Deus ilumina com suas luzes. Ele, o diabo, procura rondar por toda parte, procurando o mal. Ele vê o que se passa, no mundo, e segundo a sua sagacidade, pode prever coisas que se vão realizar. Eis a única explicação.
Desgraçados são aqueles que se entregam ao demônio e o consultam! É um pecado que desagrada a Deus, e muito! (Não está aí uma condenação do espiritismo, que muitas vezes é uma consulta ao diabo? – Nota do tradutor).
— As almas podem alguma vez se enganarem?
Resposta: — Sim, mas não quanto às coisas que existem, só quanto ao futuro. Pode acontecer, por exemplo, que Deus na sua Justiça queira castigar um reino, uma província, uma pessoa, é uma intenção que Ele manifestou. Todavia, se alguma pessoa daquele reino, daquela província pela oração ou por outros meios, desarma a Divina Justiça, Deus dará a graça, concederá a graça ou diminuirá o castigo, segundo as previsões da sua infinita sabedoria. Muitas vezes permite que os grandes acontecimentos sejam preditos antes ou os dá a conhecer a algumas almas a fim de que elas previnam e afastem o castigo. A misericórdia de Deus é tão grande, que Ele não castiga senão em caso extremo. Assim para aquela pessoa de que me falaste outro dia. Deus me fez conhecer que não lhe infligirá castigo, senão pela metade, se ela permanecer nas mesmas disposições. Eis como a gente pode às vezes parecer que se engana.
– Há muitos protestantes salvos?
Resposta: — Pela misericórdia de Deus, um certo número de protestantes se salva, mas o purgatório deles é longo e rigoroso. Eles não abusaram da graça, é verdade, como muitos católicos, mas não tiveram as graças insignes dos Sacramentos e outros socorros da verdadeira religião, o que faz com que a sua expiação se prolongue por muito tempo no purgatório.
Eu falo mais baixo do que de costume, porque há oito dias vós falais muito baixo com Deus na recitação dos Salmos. Quando rezardes mais alto, eu falarei também mais alto.
— Conheceis no purgatório a perseguição que está sofrendo a Igreja?
Resposta: — Sabemos que a Igreja está sendo perseguida e rezamos pelo seu triunfo, mas quando será ele? Eu o ignoro. Talvez algumas almas o saibam. Eu não o sei ..
No purgatório as almas não ficam só ocupadas com seus sofrimentos. Elas rezam pelos grandes interesses de Deus, pelas pessoas para abreviar seus sofrimentos. Louvam, agradecem a Nosso Senhor as misericórdias infinitas para com elas, porque o limite do purgatório e do inferno para muitas almas foi bem extremo, e por um pouco não se condenaram! Imaginai qual não há de ser o reconhecimento, a gratidão destas almas que foram assim arrancadas de Satã!
Eu não vos posso explicar como vemos nós a terra, de modo muito diferente do vosso modo de ver. Isto só se pode entender quando a alma deixa o corpo. Então a terra que ela acaba de deixar não lhe há de parecer mais do que um pontozinho no horizonte sem fim da eternidade que se abre para ela.
Eu recebo mais alívio de uma das ações de graças feita com uma grande união a Jesus, do que de uma oração vocal. O que Deus mais ouve? Tudo o que é feito com espírito interior. Quanto mais íntima é a união de uma alma com Deus, mais esta alma é ouvida. Uma alma intimamente unida a Jesus, é dona do seu Coração Divino. Deveis procurar sempre esta união que Jesus espera de há muito tempo de vós. Se quereis agradá-lo, eis o único meio: aproximar-se sempre mais do seu Coração, por uma grande atenção aos menores desejos da sua Vontade Santíssima. É preciso que Ele vos vire e revire como bem queira, sem nunca encontrar resistência da vossa parte. Então haveis de ver e compreender sua bondade!
Procurai trabalhar atentamente só por Deus. Não procureis outro para testemunha de vossas ações.
(8 de dezembro — 2 horas da tarde — Imaculada Conceição) — Ai! quantas vidas parecem cheias de boas obras e no entanto na hora da morte estarão vazias! Se soubésseis quão poucas são as pessoas que agem só por Deus e que praticam seus atos só por Deus! Na morte, então ai! quando a gente não está mais cego, quanto arrependimento! Ai! se refletissem algumas vezes no que é a eternidade! Que é esta vida comparada com este dia sem noite para os eleitos, e esta noite que não há de ter fim dos condenados! Ama-se tanta coisa na terra, apegam-se a tudo neste mundo exceto a aquele que unicamente deveria merecer nossa afeição e ao qual recusamos nosso amor! Jesus nos tabernáculos espera os corações que o amam, e não os encontra…
— No purgatório se ama?
Resposta: — Sim, mas é um amor de reparação, e se na terra nós tivéssemos amado a Deus como deveríamos, não seríamos tão numerosas e não haveria tantas almas no lugar da expiação!
— No céu Jesus é bem amado?
Resposta: — No céu se ama muito a Deus. Lá Deus é desagravado, mas não como na terra. Jesus deseja o amor na terra, na terra onde veio para se aniquilar em cada tabernáculo, a fim de que fosse mais fácil chegarem-se a Ele. E no entanto, não fazem isto, não o procuram nem amam!…
Eu vos disse que há almas que fazem o seu purgatório ao pé dos altares. Elas ficam ali pelas faltas que cometeram nas igrejas. Estas faltas que foram diretamente a Jesus presente nos tabernáculos, são punidas com muita severidade no purgatório. As almas que ficam diante do tabernáculo em adoração, lá estão em recompensa da devoção ao Santo Lugar. Elas sofrem menos do que se estivessem no purgatório mesmo, e Jesus, que elas contemplam com os olhos da alma e da fé ao mesmo tempo, lhes alivia com sua presença real o que elas padecem.

O Manuscrito do Purgatório- 1879

1879


(Retiro de setembro) — Nós vemos São Miguel como se vêem os Anjos, eles não têm corpo. São Miguel vem ao purgatório buscar todas as almas que já estão purificadas porque é ele quem as conduz ao Céu. Sim, é verdade, ele está entre os Serafins, como me disse Monsenhor. É o primeiro Anjo do céu. Nossos Anjos da Guarda vêm também nos ver, mas São Miguel é muito mais belo do que todos eles! Quanto à Santíssima Virgem, nós a vemos com o seu corpo. Ela vem ao purgatório nas suas festas e volta para o céu com muitas almas. Enquanto Ela está conosco, não sofremos. São Miguel a acompanha, mas enquanto São Miguel está só, nós sofremos como sempre.
Quando eu vos falei do grande, e do segundo purgatório, era, para vos fazer compreender. Eu queria dizer que há diferença de graus no purgatório. Assim, eu chamo o grande purgatório, o lugar onde estão as almas mais culpadas, onde eu fiquei dois anos, sem poder dar nenhum sinal dos meus tormentos, pois no ano em que eu comecei a me queixar que eu ainda estava no grande purgatório quando comecei a vos falar.
No segundo purgatório, que é sempre o purgatório, mas que, no entanto, é diferente do primeiro, sofre-se também, porém menos do que no primeiro purgatório.
Finalmente, há um terceiro lugar que é o purgatório do desejo. Lá não há fogo. Lá estão as almas que não desejaram bastante o céu e que não amaram bastante a Deus neste mundo. Eu estou agora lá neste momento.
Nestes três purgatórios, há ainda graus. À medida que uma alma se purifica, sofre menos, e já não sofre os mesmos tormentos. Tudo está em proporção às faltas que deve expiar.
O Retiro foi bom. Há de produzir muitos frutos. O diabo é que não está contente.
O bom Deus ama muito o Padre que vos pregou o retiro.
Dizei ao bom Padre que eu agradeço o “Memento” que prometeu rezar por mim na Santa Missa. Da minha, parte não serei ingrata. Pedirei a Deus que lhe conceda as graças de que ele necessita.
Fizestes muito bem em lhe dizer esta tarde tudo que vos disse. Foi São Miguel quem vo-lo enviou. A Comunidade aproveitou, mas ele veio aqui principalmente para vós. São Miguel, a quem amais e que vos protege, quis que fosse um dos seus missionários que soubesse tudo o que vos disse. Deus tem desígnio nisto. Conhecereis mais tarde. Mais tarde também podereis lhe dar algumas novas mais precisas sobre São Miguel.
Vós me perguntais se o Padre P. é agradável a Deus? Eis o que deveis lhe dizer: que ele continue a proceder como o fez até aqui. O que Deus mais gosta nele é a sua pureza de intenção, o seu espírito interior e a grande bondade para com as almas. Dizei-lhe que ele continue a se unir mais ao Coração de Jesus. Quanto mais íntima for esta união, mais a sua vida toda será proveitosa e suas ações serão proveitosas para as almas e meritórias para o céu.
Eu não espero dele uma perfeição comum. Que ele recomende nas missões e retiros, o oferecimento das ações do dia, porque no mundo, e mesmo nas comunidades não se pensa bem nisto, e muitas ações boas não terão recompensa no último dia porque não foram oferecidas a Deus antes de serem executadas. Que ele não perca nunca a coragem, embora veja que seus esforços não produzem o que deseja. Pense ele que Deus fica satisfeito com seus trabalhos, ainda que tenha conseguido dar a um coração um quarto de hora de amor de Deus que seja.
Pedi muito por mim, a fim de que logo alcance o objeto de meus longos e tão grandes desejos. Eu vos hei de ser muito mais útil no céu do que aqui. Tivestes um bom pensamento de me convidar no encerramento do retiro para adorar Jesus presente em vosso coração durante a ação de graças depois da Comunhão. Se já o tivésseis feito até agora, eu teria tido muito mais alivio. Fazei também assim antes de todas as vossas orações. Depois oferecereis um pouco do vosso trabalho por mim, eu tenho um desejo tão grande de ver a Deus!
Eu espero, há muito tempo, um pouco mais de amor em tudo o que fazeis. Quanto mais uma alma ama a Jesus, tanto mais as suas orações e ações são meritórias diante dele. No céu só o amor é que há de ser recompensado. Tudo o que for feito com outra intenção será nulo e por conseguinte, perdido. Amai então a Jesus como Ele quer ser amado, com isto eu sinto um grande alívio.
– Deus está um pouco mais contente comigo nestes dias?
Resposta: — Sim, Ele está muito contente convosco porque lhe procurastes agradar mais. Já notastes como Ele é bom? Não vos deu tanto prazer também nestes dias? Pois bem, eis como Ele há de proceder sempre para convosco. Quanto mais fizerdes por Ele, mais Ele fará por vós. Sou tão feliz ao ver que realmente quereis trabalhar para a vossa perfeição, e se fosse preciso ficar mais tempo no purgatório eu o faria de boa vontade, se soubesse que por este sofrimento alcançaria que chegásseis ao estado em que Deus vos quer ver para cumprir os desígnios que tem sobre vós.
Não olheis nunca para trás para examinar muito vosso procedimento. Entregai tudo nas mãos de Deus e caminhai sempre avante.
Vossa vida deve se resumir em duas palavras: sacrifício e amor. Sacrifício de manhã à noite, e ao mesmo tempo: amor.
Se soubésseis o que é o bom Deus! Não haveria sacrifício que não quisésseis fazer, sofrimento que não quisésseis padecer para o ver um minuto somente, e então, ficaríeis bem satisfeita, bem consolada, ainda que nunca mais tivésseis de vê-lo. Que não será então vê-lo por toda eternidade?
(13 de agosto) — Qual é o melhor meio de glorificar a São Miguel?
Resposta: — O meio mais eficaz de o glorificar no céu e na terra é recomendar quanto possível a devoção às almas do purgatório e fazer conhecer a grande missão que ele tem junto das almas sofredoras. Ele é o encarregado de levá-las do lugar da expiação e introduzi-las depois da satisfação, no céu, morada eterna. Cada vez que uma alma vem aumentar o número dos eleitos, Deus é glorificado por ela e esta glória de certo modo reflete sobre o glorioso ministro do céu. É uma honra para ele apresentar ao Senhor as almas que irão cantar as infinitas misericórdias e unir seu reconhecimento aos dos eleitos por toda eternidade. Eu não posso vos fazer compreender todo o amor que o celeste Arcanjo tem por seu divino Mestre e o amor que por sua vez Deus tem por São Miguel e bem como a grande piedade que São Miguel tem de nós. Ele nos dá coragem no sofrimento quando nos fala do céu. Dizei ao Padre que se ele quiser dar um grande prazer a São Miguel, recomende muito a devoção às almas do purgatório. Não se pensa muito nisto neste mundo! Quando se perdem os parentes e amigos, fazem algumas orações, choram durante alguns dias, depois… tudo se acaba! As almas ficam abandonadas! É verdade que isso elas merecem muito porque não rezaram pelos mortos quando na terra, e o divino Juiz só nos dá no outro mundo o que fazemos neste. As pessoas que deixaram esquecidas as almas do purgatório, serão esquecidas também, mas se lhes tivessem dado a inspiração de rezar pelos defuntos, e lhes feito conhecer o que é o purgatório, talvez elas tivessem procedido de outra maneira, de modo muito diferente…
Quando Deus o permite, podemos nos comunicar diretamente com o Arcanjo, à maneira dos espíritos e como as almas se comunicam entre si.
— Como se festeja São Miguel no purgatório?
Resposta: — No dia de sua festa, São Miguel vem ao purgatório e volta para o céu com muitas almas, principalmente as almas que lhe tiveram devoção na, terra.
— Que glória recebe São Miguel da sua festa na terra?
Resposta: — Quando se faz a festa de um santo na terra, ele recebe no céu uma glória acidental. Ainda mesmo que não o festejem na terra, em memória de alguma ação especial heroica que praticou neste mundo, ou da glória que deu a Deus em alguma ocasião, nesta época, recebe no céu uma recompensa especial que consiste numa maior glória acidental, junta com a que lhe dão na terra.
A glória acidental que recebe o Arcanjo São Miguel é superior a de todos os outros santos, porque esta glória de que vos falo, é proporcionada à grandeza do mérito daquele que a recebe, como também ao valor da ação que mereceu esta recompensa.
— Conheceis as coisas da terra?
Resposta: — Eu não as conheço senão enquanto Deus o quer, e meu conhecimento é muito restrito. Conheço alguma coisa da comunidade e é só. Não sei o que se passa na alma das outras pessoas, à exceção da vossa, e isto porque Deus o permitiu, para vossa perfeição. O que vos digo algumas vezes de pessoas particulares, e ainda vos direi, Deus mo fez conhecer no momento, mas fora disto não sei mais de coisa alguma. Certas almas têm conhecimentos mais e mais extensos do que eu. Tudo isto é proporcionado ao mérito.
Quanto aos graus do purgatório, eu vos posso falar deles, pois eu passei por lá. No grande purgatório há diferentes graus. No mais profundo e baixo, no que mais se sofre, e que é um “inferno momentâneo”, lá estão os pecadores que cometeram enormes crimes durante a vida, e que a morte os surpreendeu neste estado sem que tivessem tempo de se penitenciarem. Salvaram-se por milagre, muitas vezes pelas orações dos parentes e de pessoas piedosas. Algumas vezes nem puderam se confessar, e o mundo os julgou condenados, mas o bom Deus, cuja misericórdia é infinita, lhes deu no momento da morte a contrição necessária para se salvarem, tendo em vista algumas ações boas que praticaram na vida. Para estas almas o purgatório é terrível! É um inferno, exceto isto, que no inferno se amaldiçoa a Deus, enquanto que no purgatório o bendizem e agradecem por terem sido salvos.
Logo em seguida, vêm as almas que, sem terem cometido grandes crimes, foram indiferentes para com Deus. Não cumpriam o dever pascal, e convertidas na hora da morte, nem puderam às vezes comungar, e no purgatório se encontram em penitência de sua longa indiferença. Sofrem penas inauditas, abandondas, sem orações. Se se fazem orações por elas, não as podem aproveitar.
Depois enfim há ainda o purgatório das religiosas e dos religiosos tíbios, que se esqueceram dos seus deveres, indiferentes para com Jesus; padres, que não exerceram seu ministério com a reverência devida à Majestade Divina e não fizeram as almas que lhe foram confiadas amar bem a Deus. Eu estou neste grau.
No segundo purgatório se encontram as almas que morrem culpadas de pecados veniais não expiados antes da morte, ou então, em pecados mortais perdoados, mas dos quais não satisfizeram inteiramente à justiça Divina.
Há também no purgatório diferentes graus, segundo os méritos das pessoas.
Assim, o purgatório das pessoas consagradas e que receberam maiores graças, é mais longo e mais penoso do que o das pessoas do mundo.
Finalmente, o purgatório do desejo, que se chama o Átrio ou Vestíbulo do céu. Poucas pessoas o evitam. Para o evitar é mister ter desejado ardentemente o céu, e tendo em vista Deus, a presença e a visão de Deus. E é raro isto, porque muitas pessoas, mesmo muito piedosas, têm medo de Deus e não desejam bastante o céu com ardor.
Este purgatório tem seu martírio bem doloroso como os outros. Estar privado da visita do bom Jesus, que sofrimento!
— Conhecei-vos uma às outras no purgatório?
Resposta: — As almas se comunicam entre si quando Deus o permite, porém à maneira das almas, sem palavras…
Sim, é verdade que eu vos falo, mas sois um espírito? Havíeis de me compreender se eu não pronunciasse as palavras? Para mim, pois, que Deus o permitiu, eu vos compreendo sem que pronuncieis palavras com os lábios. Há entretanto comunicações de almas assim quando vos vem um bom pensamento pelo vosso Anjo de Guarda, ou por Deus mesmo. Eis a linguagem das almas.
— Onde está o purgatório?
Resposta: — No centro da terra, próximo do inferno (como o vistes depois da Comunhão). As almas estão aí num lugar restrito, comparado à multidão que aí se encontra, pois são milhares e milhares de almas. Entretanto, que lugar ocupa uma alma?
Cada dia aí chegam milhares e milhares, e, a maior parte dos trinta aos quarenta anos. Eu vos digo segundo os cálculos da terra, porque aqui é outra coisa muito diferente.
Ah! se soubessem e pensassem o que é o purgatório, e se soubessem que amargura pensar que a gente aqui está por própria culpa! Estou aqui há oito anos, e parece-me que há dez mil anos!… Ó, meu Deus! Dizei isto ao vosso padre espiritual. Que ele aprenda de mim o que é este lugar de sofrimento, a fim de que ele o faça conhecer para o futuro. Ele há de experimentar por ele mesmo quanto é proveitosa a devoção às almas do purgatório!
Deus concede muitas vezes mais graças por intermédio das almas do purgatório do que pela intercessão dos próprios santos. Quando o Padre X quiser obter uma coisa com mais segurança, dirija-se de preferência às almas que mais amaram a Santíssima Virgem neste mundo, e que, por conseguinte, esta boa Mãe deseja libertar mais depressa, e depois ele vos dirá se não foi muito bem tudo!…
Há também algumas almas que não ficam no purgatório propriamente dito. Assim, por exemplo, eu vos acompanho por toda parte, e quando repousais, eu sofro mais, pois fico no purgatório.
Outras almas fazem às vezes o seu purgatório nos lugares onde pecaram, ao pé dos santos altares, onde se encontra o Santíssimo Sacramento, mas não importa o lugar onde se encontram, porque levam com elas o sofrimento, embora sejam estes menos intensos do que no purgatório mesmo.
O Padre… tem razão quando vos diz que não deveis procurar senão a vontade de Deus em tudo o que fazeis. Será para vós felicidade ver a vontade de Deus em tudo o que acontece. Sofrimentos ou alegrias, tudo vem igualmente de Jesus. Sede muito boa, duas vezes boa, para dar prazer a Jesus que é tão bom para convosco! Tende sempre os olhos da alma abertos para Ele, a fim de prevenir o menor dos seus desejos. Ide mesmo adiante, a fim de lhe dar prazer.
A inglesa que se afogou junto do Monte São Miguel, foi diretamente para o céu. Teve ela a contrição necessária no momento da morte, e ao mesmo tempo o Batismo de desejo. Tudo aconteceu por intercessão de São Miguel. Feliz naufrágio!
Pio IX foi direito para o céu. Seu purgatório estava já feito na terra.
— Como sabeis que M. P. foi direito para o céu, pois não a vistes passar pelo purgatório?
Resposta: — Deus me revelou e Ele também por pura bondade permite que eu saiba o que vós me pedis, quando eu não o vi ou não percebi por mim mesma.
A justiça de Deus nos retém no purgatório é verdade, e nós o merecemos, mas crede que a sua misericórdia e seu coração paterno não nos deixam lá sem nenhuma consolação. Desejamos muito nossa união com Deus, mas Ele não a deseja menos do que nós.
Na terra Ele se comunica de uma maneira íntima a certas almas e se compraz em lhes desvendar seus segredos. As almas que lhe são agradáveis, são as que no seu modo de proceder não vivem e não respiram senão por Jesus, e só procuram agradá-lo.
No purgatório há almas bem culpadas, mas arrependidas, e não obstante as faltas que têm ainda a expiar, estão confirmadas em graça e não podem mais pecar. São perfeitas. Pois bem, à medida, e na proporção que uma alma se purifica no lugar da expiação, compreende melhor a Deus, ou Deus e ela se compreendem melhor, sem entretanto se verem, porque então não haveria mais purgatório!
Se nós não conhecêssemos a Deus mais do que aí na terra, nossas penas, nosso martírio, não seriam tão poderosos, nosso martírio tão cruel! O que faz nosso principal tormento é a ausência daquele único objeto de nossos longos anos de desejos.
— E quando uma alma é destinada a ter uma mais bela coroa no céu, não tem também no purgatório mais graças do que as outras?
Resposta: — Sim, quanto mais uma alma está destinada a ocupar um lugar mais elevado no céu, também os seus conhecimentos são mais extensos e sua união mais íntima com Ele no lugar da expiação. Tudo aqui é proporcionado ao mérito.
— Os três amigos de V. P. estão no céu há muito tempo? Que é feito das orações que se fizeram por eles?
Resposta: — As pessoas que estão no céu, e pelas quais rezam na terra, podem dispor destas orações pelas almas que desejem aplicá-las. É uma lembrança bem doce para as almas do outro mundo, ver que os parentes e os amigos não as esqueceram na terra, embora não tenham mais necessidade de orações. E em retribuição não são elas ingratas!…
Os juízos de Deus são bem diferentes dos da terra. Ele olha para o temperamento, o caráter, o que se fez por leviandade ou por pura malícia. Conhece o fundo dos corações, não lhe é difícil ver o que neles se passa. Jesus é muito bom, sim, mas é muito justo também!…

Continua...





O Manuscrito do Purgatório- 1878

1878
(Retiro de agosto) — Os grandes pecadores e os que ficaram toda vida afastados de Deus pela indiferença, e bem assim as religiosas que não foram o que deveriam ter sido, estão no grande purgatório. E lá as operações que se fazem por estas almas não são aplicadas. Elas foram indiferentes para com Deus em vida, e por sua vez agora Ele, o Senhor, é indiferente para com elas e as deixa numa espécie de abandono, a fim de que elas reparem assim a, sua vida que foi nula.
Ah! Não podeis imaginar nem representar ainda na terra quem é Deus. Nós, porém, o sabemos e o entendemos porque nossa alma está desprendida de todos os laços que a prendiam e impediam de compreender a santidade, a majestade do bom Deus, sua grande misericórdia. Somos mártires, nós nos derretemos de amor, por assim dizer. Uma força irresistível nos leva para o bom Deus como nosso Centro, e, ao mesmo tempo, uma força nos impele para o lugar da nossa expiação. Estamos neste estado oprimidas e aflitas pela impossibilidade de satisfazer os nossos desejos.
Ó que sofrimento! Nós, porém, o merecemos e aqui ninguém murmura. Queremos o que Deus quer. Ninguém poderá compreender na terra o que padecemos!
Sim, eu estou bem aliviada, eu não estou mais no fogo. Agora eu só tenho o desejo insaciável de ver a Deus, sofrimento bem cruel ainda! Sinto todavia que se aproxima o termo do meu exílio e me aproximo do lugar a que aspiro com todos os meus desejos.
Eu o percebo muito bem. Eu me sinto pouco a pouco mais livre, mas dizer quando chegará o dia, não o sei. Só Deus o sabe! Talvez eu ainda tenha de ficar anos a desejar assim o céu. Continuai sempre a rezar e eu vos pagarei mais tarde, embora eu desde já reze por vós, e muito.
Ó como são grandes as misericórdias de Deus para convosco! Quem poderá compreender porque Jesus age assim para convosco? Por que vos ama muito mais do que as outras? Será que o mereceis? Não. Pois o mereceis até bem menos do que outras almas. Mas Ele quer proceder assim para convosco! É Ele o Senhor das suas graças.
Sede então muito reconhecida. Ficai sempre em espírito aos pés do Senhor, e deixai que Ele faça o que quiser. Vigia muito vosso interior. Sede bem fiel ao examinar tudo que possa agradar a Jesus. Não tenhais olhos nem coração senão para Ele., Consultai-o sempre antes de qualquer coisa. Abandonai-vos ao que Ele quiser, e depois, ficai tranquila. Tudo quanto vos disse se há de cumprir. Não deveis pôr obstáculos, é Jesus quem o quer assim.
Quando eu estiver lá, eu vo-lo direi, mas eu penso que as grandes festas no céu se celebram por um duplo êxtase de admiração de ação de graças e sobretudo de amor.
Para que chegueis a uma grande união com Deus, como já vos disse, é mister que nada vos perturbe: penas, alegrias, sucessos, insucessos, boa, ou má graça. É mister que nada disto vos impressione nem um pouco, mas que Jesus domine tudo em vós e que tenhais os olhos fixos nele para compreender seus menores desejos.
Eu vos repito ainda, não tenhais medo de mim. Não me vereis no sofrimento. Mais tarde, quando estiverdes mais forte de alma, vereis as almas do purgatório. Mas não penseis que será para vos assustar. Deus vos dará então a coragem necessária, e tudo se fará para cumprir a sua santa vontade.
— Mas isto não é um castigo?
— Não. Eu estou aqui para meu alívio e para vossa santificação. Prestai um pouco de atenção ao que vos digo…
— É verdade, mas eu acho estas coisas tão esquisitas… que posso eu pensar de tudo isto? Não é ordinário estar a vos escutar assim…
— Eu compreendo bem o vosso embaraço. Eu sei o que tendes sofrido com isto, mas já que Deus o permite, e é para meu alívio, deveis ter piedade de mim, não é? Quando eu estiver livre, vereis como eu vos darei mais do que fizestes por mim. Eu desde já rezo muito por vós.
— Onde está a Irmã X?
— No grande purgatório, onde ela não recebe as orações de ninguém. O bom Deus fica muito contrariado, se assim posso falar, na morte de muitas religiosas, porque Ele chamou estas almas para que o servissem fielmente na terra, e fossem depois da morte imediatamente o glorificar no céu. E acontece o contrário, pelas suas infidelidades, ficam elas muito tempo no purgatório, muito mais tempo até que as pessoas do mundo que não receberam tantas graças!


O Manuscrito do Purgatório- 1877


1877


(13 de fevereiro — diante do Santíssimo Sacramento) — Vede como Jesus está só! Neste momento poderia ter Ele aqui mais gente se houvesse um pouco mais de boa vontade. Todavia,, que indiferença até entre as almas religiosas. Nosso Senhor é muito sensível no Santíssimo Sacramento! Pelo menos, então, amai-o pelas almas injustas, e o bom Jesus sentir-se-á confortado e consolado neste desprezo.
(12 de maio) — Mortificai-vos no corpo, mas sobretudo no espírito. Esquecei-vos. Fazei um ato total de abnegação de vós mesma. Não repareis nunca no que fazem as outras. O bom Deus não pede a mesma perfeição de todas as almas. Nem todas são esclarecidas com as mesmas luzes. Vós que a quem Jesus ilumina, não olheis senão para Ele. Que só Ele sela o vosso fim em tudo.
Tende uma confiança sem limites na bondade de Jesus. Se soubésseis que poder tem Ele, haveríeis de pôr assim limites ao seu poder? O que não pode Ele em favor de uma alma que o ama.
Preparai-vos sempre com muito cuidado para a santa comunhão, para a Confissão e para o Oficio Divino, enfim, para tudo que tende a um união maior com Nosso Senhor.
Eu já vos disse que o bom Deus procura neste mundo almas que o amem, mas com este amor de criança, esta ternura respeitosa, é verdade, mas cordial. Pois bem! Ele não encontra estas almas… O número delas é muito menor do que se pensa. Consideram o bom Jesus muito grande para poderem se achegar a Ele, e o amor que lhe dão é muito frio! O respeito afinal se degenera numa certa indiferença. Eu bem sei que nem todas as almas são capazes de compreender este amor que Nosso Senhor pede; mas vós, a quem Jesus fez compreender isto, reparai esta indiferença, esta frieza. Pedi-lhe que dilate o vosso coração para poder conter muito amor. Por vossa ternura e as respeitosas familiaridades que Jesus vos permite podeis reparar o que não é dado a todos compreender. Fazei isto, sim, e sobretudo amai muito.
Não vos canseis jamais de trabalhar. Recomeçai cada dia como se tivésseis de começar e não tivésseis feito nada. Esta renúncia perpétua da própria vontade de seus cômodos, e da maneira, própria de ver, é um longo martírio, mas muito meritório e muito agradável a Deus.