Purgatório: Primeira visão - Purgatório é similar ao Inferno

A primeira visão é corporificada nos aterradores sermões dos quaresmali[1] italianos e naquelas pinturas populares que se vê em casas à beira das estradas, que tanto enfastiam os viajantes ingleses. Elas não cansam de representar o Purgatório como um inferno que não é eterno. Violência, confusão, gemidos e horrores pairam sobre suas descrições. Insistem, com justeza, na terrível pena dos sentidos, que misteriosamente acomete a alma. O fogo é o mesmo fogo do Inferno, criado com o único e expresso fim de torturar. Nosso fogo terreno assemelha-se, em comparação, a um fogo pintado. Além disso, há um horror especial e indefinível que recaí sobre a alma desencarnada ao se tornar presa dessa agonia material. O sentimento de aprisionamento, íntimo e intolerável, e a escuridão intensamente palpável são características adicionais ao horror da cena, que nos prepara para aquela vizinhança do Inferno, expressão usada por muitos santos para descrever o Purgatório. Os anjos aparecem como ativos executores da terrível justiça de Deus. Alguns afirmaram até que os demônios têm permissão de tocar e atormentar as esposas de Cristo naqueles fogos ardentes.

Então, a essas terríveis penas de sentido se ajunta a apavorante pena de dano. A beleza de Deus permanece o mesmo objeto imensamente desejável com sempre foi. Mas a alma muda. Tudo que na vida e no mundo dos sentidos entorpecia seus desejos de Deus não existe mais, de modo que ela O procura com uma impetuosidade que nenhuma imaginação pode em absoluto conceber. Seu excessivo e ardente amor torna-se a medida de sua dor intolerável. O que o amor pode fazer mesmo aqui na terra pode ser compreendido pelo exemplo de Pe. João Batista Sanchez, que dizia que seguramente morreria de miséria se ao acordar tivesse certeza de que não morreria naquele dia. A esses horrores podemos adicionar muitos mais, que representam o Purgatório como um inferno que apenas não dura para sempre.

O santo temor de ofender a Deus

O espírito dessa visão é um santo temor de ofender a Deus, um desejo por austeridades corporais, uma grande consideração para com as indulgências, um extremo horror do pecado e um tremor habitual ante a consideração do julgamento de Deus. Os que viveram sob penitências incomuns, e em Ordens religiosas severas, sempre foram impregnados dessa visão; e parece terem sido confirmados, nos mínimos detalhes, pelas conclusões dos teólogos escolásticos, como pode ser visto de imediato ao se consultar Berlarmino, que, em cada seção de seu tratado sobre o Purgatório, compara as revelações dos santos com as consequências da teologia. É notável também que quando o Beato Henrique de Suso, por meio de crescente familiaridade e amor a Deus, começou a considerar leves, comparativamente, as dores do Purgatório, Nosso Senhor o alertou que isso muito O desagradava. Pois, como considerar leve um castigo que Deus preparou para o pecado? Muitos teólogos dizem que não só a menor pena do Purgatório é maior do que a maior pena na terra, mas maior do que todas as penas terrenas juntas.

Esta é uma visão verdadeira do Purgatório, mas não uma visão completa. Mesmo assim, não é uma visão que possa ser considerada grosseira ou grotesca. É a visão de muitos santos e servos de Deus, e predomina nas celebrações do Dia de Finados em diversos países católicos.

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[1] Pregadores da época da quaresma. (N. do T.)

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Purgatório: Devoção às Almas no Purgatório – Parte II


Santa Teresa de Ávila

Quanto esta devoção é aceitável ao Deus Todo Poderoso, e o quando Ele consente em parecer, por assim dizer, impaciente pela libertação das almas, e ainda assim deixar a coisa ao sabor de nossa caridade, nos é ensinado pela incontestável autoridade de Santa Teresa. No seu livro, As Fundações, ela nos conta que de D. Bernardino di Mendoza lha deu uma casa, com jardim e vinha para servir de convento em Valhadolid. Dois meses depois disso, e antes de ocorre a fundação do convento, ele caiu subitamente doente e perdeu a fala, de modo que ele não pode se confessar, embora tenha dado muitos sinais de contrição. Ele “morreu,” diz Santa Teresa, “dentre em pouco, em lugar distante daquele que me encontrava. Disse-me o Senhor que a sua salvação estivera muito arriscada e que tinha usado de misericórdia com ele por causa do obséquio feito a Sua Mãe dando aquela casa para o mosteiro de Sua Ordem, mas que não sairia do Purgatório enquanto não se celebrasse a primeira Missa nesse convento. De tal maneira tinha presente as graves penas desta alma que, apesar do grande desejo que tinha de fundar em Toledo, deixei isso por então e dei-me toda a pressa que pude para ir fundar em Valhadolid conforme pudesse. Estando um dia em oração em Medina del Campo, disse-me o Senhor que me apressasse porque aquela alma estava padecendo muito. Meti mãos à obra e, embora sem grandes preparativos, entrei em Valhadolid no dia de São Lourenço.”

Ela então continua a relatar que, quando recebeu a Comunhão na primeira Missa celebrada na casa, a alma de seu benfeitor lhe apareceu com toda a glória, e depois entrou no Céu. Ela não esperava por isso, pois observa: “Embora tivesse havido alusão à primeira missa, eu fiquei pensando que seria aquela em que se pusesse o Santíssimo Sacramento.”

Poderíamos multiplicar quase indefinidamente as revelações dos santos para provar o especial favor com que Nosso Senhor considera esta devoção, em que Seus interesses estão tão integral e amorosamente unidos. Mas é agora é o momento para termos uma clara visão de nosso assunto.

Mundo dos Sentidos, Mundo do Espírito

Há, como todos sabemos, dois mundos, o mundo dos sentidos e o mundo do espírito. Vivemos no mundo dos sentidos, circundados pelo mundo do espírito, e como cristãos temos a todo o tempo, e muito realmente, comunicações como este mundo. Ora, é um mero fragmento da Igreja que está no mundo dos sentidos. Hoje, a Igreja Triunfante no Céu, colecionando suas multidões sempre puras em toda época, e constantemente beatificando-se com novos santos, deve necessariamente exceder de muito a Igreja Militante, que não abarca sequer a maioria dos habitantes da terra. Tampouco é improvável, mas até bem provável, que a Igreja Padecente no Purgatório deva exceder muito a Igreja Militante, em extensão, pois ela a ultrapassa em beleza. 

Com aquelas incontáveis multidões que estão perdidas não temos responsabilidades: elas se deserdaram de nós. Dificilmente sabemos o nome de um daqueles que estão lá, pois muitos pensaram que Salomão estava salvo, alguns ousaram até considerar as palavras dos Atos dos Apóstolos sobre Judas como não sendo decisivamente infalíveis (Atos, 1:16 ss.), e não há um consenso sequer contra Saul. Estamos amputados deles; sobre eles, tudo é negrume e escuridão; não temos relações com eles. 

O Poder que Deus nos Deu sobre os Mortos

Mas pela doutrina da Comunhão dos Santos e da unidade do Corpo Místico de Cristo, temos as mais íntimas relações de dever e afeição com a Igreja Triunfante e Padecente, e a devoção católica nos oferece muitos meios, sugeridos e aprovados, de desempenharmo-nos desses deveres. Destes, falo mais adiante. Por ora, é suficiente dizer que Deus nos deu tal poder sobre os mortos que eles parecem, como disse antes, depender mais da terra do que do Céu; e certamente o fato de Ele nos ter dado tal poder, e os métodos sobrenaturais de o exercer, não é prova menos comovente de que Sua Majestade Santíssima dispõe tudo por amor. Poderemos nós conceber o contentamento dos Bem-aventurados no Céu, desviando seu olhar do seio de Deus e da calma do seu eterno repouso para essa cena de obscuridade, inquietude, dúvida e temor, e alegrando-se na plenitude de sua caridade, em seu vasto poder junto ao Sagrado Coração de Jesus de obter graças e bênçãos, dia e noite, para os infortunados habitantes da terra? Isso não os distrai de Deus, não interfere com a Visão, ou a faz desfalecer ou empanar; não conturba sua glória ou sua paz. Ao contrário, acontece com eles tal como com nossos Anjos da Guarda; o ministério amoroso de sua caridade só lhes aumenta sua glória acidental.

E o mesmo contentamento pode, em alguma medida, ser nosso ainda neste mundo. Se deixarmo-nos possuir integralmente por esta devoção católica às Santas Almas, nunca nos abandonará a consciência agradecida pelos imensos poderes que Jesus nos deu a favor delas. Nunca seremos tão parecidos com Ele, ou nunca imitaremos tão amorosamente Sua terna ocupação como quando estamos devotamente exercendo esses poderes. Somos excessivamente humilhados quando nos tornamos benfeitores daquelas belas almas que nos são tão imensuravelmente superiores, tal como se diz de José, que aprendeu a humildade quando dava ordens a Jesus.

Enquanto estamos ajudando as Santas Almas, amamos Jesus com um amor além as palavras, um amor que quase nos amedronta; mas com que delicioso temor! Porque nessa devoção, são Suas mãos que movem, tal como moveríamos as mãos de uma criança inábil. Ó querido Senhor, que nos permite fazer tais coisas! Que nos permite fazer com Seus méritos o que desejamos, e salpicar gotas de seu Precioso Sangue como se fossem água do poço mais próximo! Que nos permite limitar a eficácia de Seu Sacrifício incruento, e indicar-Lhe almas, e esperar que Ele nos obedeça! Que, com efeito, assim o faz! Como é belo o desamparo de sua Sagrada Infância! Como é belo Seu desamparo no Santíssimo Sacramento! Como é belo o desamparo a que, por amor a nós, Ele desejou ardentemente se reduzir, em relação às suas queridas esposas do Purgatório, cuja entrada na glória Seu Coração tão impacientemente espera! Ó que pensamentos, que sentimentos, que amor não devemos ter quando, como um coro de anjos terrestres, posamos nossos olhos naquele vasto, silencioso e impecável reino de sofrimento e, então, com nosso próprio toque temerário, movemos a poderosa mão de Jesus por sobre aquelas vastas regiões, e as orvalhamos com o bálsamo se Seu Sangue salvador!

Duas Visões do Purgatório

Sempre houve duas visões sobre o Purgatório na Igreja, não contraditórias, mas que expressam as ideias e a devoção daqueles que as apoiam.

Uma delas é a visão presente na maior parte das vidas e revelações dos santos italianos e espanhóis, nas obras dos alemães da Idade Média nas crenças populares acerca do Purgatório na Bélgica, Portugal, Brasil, México, etc. A outra é a visão que é mais cara a São Francisco de Sales, embora ele a tenha desenvolvido originalmente a partir do tratado sobre o Purgatório de Santa Catarina de Gênova, que é também sustentada pelas revelações da Irmã Francisca de Pamplona, uma irmã do Carmelo de Santa Teresa, publicadas como uma longo e sábia crítica do Irmão Giuseppe Bonaventura Ponze, um professor dominicano de Saragossa. E cada uma dessas visões, embora nunca neguem uma a outra, tem seu próprio e peculiar espírito de devoção.

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Purgatório: Devoção às Almas no Purgatório – Parte I


Embora estejamos misericordiosamente isentos de descer ao Inferno para buscar e promover os interesses de Jesus, coisa muito diferente ocorre com o Purgatório.

Se o Céu e a terra estão repletos da glória de Deus, assim também se passa com aquele lugar muito melancólico e interessante, onde os prisioneiros da esperança são impedidos, pela amorosa justiça de seu Salvador, de desfrutarem da Visão Beatífica; e se podemos fomentar os interesses de Jesus na terra e no Céu, podemos quase ousar dizer que somos capazes de fazer ainda mais no Purgatório. E o que estou tentando mostrar neste tratado é como você pode auxiliar Deus pela oração e práticas de devoção, qualquer que seja sua ocupação e missão; e todas estas práticas se aplicam especialmente ao Purgatório. Pois apesar de alguns teólogos afirmarem que embora as Santas Almas não ofereçam nenhum obstáculo, o efeito da oração por elas não é infalível, não obstante ser muito mais certo do que o efeito da oração pela conversão dos pecadores ainda sobre a terra, que é tão frequentemente frustrado pela sua perversidade e más disposições. De qualquer forma, o que desejo mostrar é isto: que cada um de nós – sem aspirar nada acima de nossa graça, sem austeridades para as quais não temos coragem, sem dons sobrenaturais que não alegamos – podemos, por meio de um sentimento amoroso e práticas de saudável devoção católica, fazer grandes coisas, coisas tão grandes que parecem inacreditáveis, para a glória de Deus, pelos interesses de Jesus e pelo bem das almas. 

Rezar pelos pecadores ou pelas Santas Almas?


Estaria eu deixando o assunto muito incompleto se não considerasse, com certo detalhe, a devoção às Santas Almas no Purgatório; e tratarei, não tanto de práticas particulares, que podem ser encontradas nos manuais, mas do espírito da devoção mesma.

Rosignoli, em seu livro Maravilhas de Deus no Purgatório(Opere 1:710), que ele escreveu a pedido do Beato Sebatian Valfré do Oratório de Turim, descreve, dos anais Dominicanos, um interessante debate entre dois bons frades acerca dos respectivos méritos da devoção à conversão dos pecadores e da devoção às Santas Almas.

Irmão Bertrando era um grande defensor dos pobres pecadores, celebrando constantemente Missas para eles, e oferecendo todas as suas orações e penitências para obter-lhes a graça da conversão. “Os pecadores”, ele dizia, “sem a graça, estão num estado de perdição. Espíritos maus estão continuamente lhes tramando emboscadas, para privá-los da Visão Beatífica e carregá-los para os tormentos eternos. Nosso Senhor desceu do Céu e morreu a mais dolorosa morte por eles. Que trabalho pode ser mais elevado que imitá-Lo e cooperar com Ele na salvação das almas? Quando uma alma é perdida, o preço de sua redenção é também perdido. Ora, mas as almas no Purgatório estão salvas. Elas estão seguras de sua salvação eterna. É verdade que estão jogadas num mar de dores, mas elas estão seguras de saírem de lá em algum momento. Elas são amigas de Deus, ao passo que os pecadores são Seus inimigos, e ser inimigo de Deus é a maior miséria da criação.”

Irmão Benedetto era igualmente um defensor entusiasta das almas sofredoras. Ele oferecia a elas todas as suas Missas livres, assim como suas orações e penitências. Os pecadores, ele dizia, estão presos pelas correntes de sua própria vontade. Poderiam abandonar o pecado se desejassem. O jugo foi de sua escolha, ao passo que os mortos estão de mãos e pés atados contra sua vontade, nos mais atrozes sofrimentos.

“Caro irmão Bertando, diga-me – suponha que haja dois mendigos, um saudável e forte, que poderia usar suas mãos e trabalhar se quisesse, mas escolha sofrer a pobreza ao invés de abandonar as doçuras da ociosidade; e outro, doente, aleijado e indefeso, que em sua lastimosa condição não poderia fazer nada exceto suplicar ajuda com choro e lágrimas – qual dos dois mereceria maior compaixão, especialmente se o doente estivesse sofrendo as mais intoleráveis agonias? Ora, isto é justamente a situação dos pecadores e das Santas Almas. Estas estão sofrendo um martírio excruciante, e não têm meios de se ajudarem. É verdade que elas mereceram essas dores por seus pecados, mas elas já estão agora purificadas daqueles pecados. Elas devem ter se voltado à graça de Deus antes de morrerem, senão não teriam sido salvas. São agora muito queridas, inexprimivelmente queridas, a Deus; e certamente a caridade, bem ordenada, deve seguir a sábio amor da Divina Vontade e amar mais o que Ele mais ama.”

O irmão Bertrando, contudo, não cederia, embora ele não pudesse formular uma resposta satisfatória à objeção do amigo. Mas, na noite seguinte, ele teve uma aparição que parece tê-lo convencido, tanto que daquele momento em diante ele alterou sua prática, e passou a oferecer todas as suas Missas, orações e penitências, às Santas Almas. Parece que a autoridade de Santo Tomás pode ser citada em apoio ao irmão Benedetto, quando ele diz: “Rezar pelos mortos é mais aceitável que pelos vivos, pois os mortos estão em grande necessidade disso e não podem se ajudar, como podem os vivos.” (Supp. 3a. Parte, q. 71, art.5 ad 3).

Nota: Na mensagem de Natal do ano passado, traduzi um texto introdutório ao livro Purgatório, de Pe. Frederick William Faber, da Congregação do Oratório de Londres. Começo agora a traduzir o livro, pouco a pouco, e a publicá-lo no blog. Espero que surja alguma editora católica com interesse em publicá-lo. Se não surgir, continuo a tradução até o fim e depois coloco o pdf do livro para download. É um livro extraordinário desse ilustre desconhecido do público brasileiro. Mais um católico inglês do século XIX de quem, como Chesterton, quase nenhum brasileiro ouviu falar. A propósito, Chesterton conhecia as obras de Pe. Faber e as cita, em seus escritos, principalmente os maravilhosos hinos devocionais que o padre oratoriano compunha.


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Seis vantagens da aplicação das nossas indulgências às almas do Purgatório.

Há pessoas que aplicam às almas do purgatório todas as indulgências que lucram; outras pelo contrário, guardam-nas todas para si mesmas, e ninguém tem o direito, certamente, de condenar este modo de proceder. Pois quem ousaria contestar a quem quer que fosse uma liberdade que a Igreja lhe concede? Graças a Deus, não tenho semelhante pretensão. Sem embargo, vou expor livremente o meu modo de sentir a este respeito. Contudo, cingir-me-ei estritamente ao que dizem sobre esta matéria os teólogos e os autores espirituais.
A graça é um benefício tão grande, que devemos procurar aumentá-la por todos os meios possíveis; e não há caminho mais curto para chegar a este fim, que converter a satisfação em mérito: é o que faremos ganhando indulgências para as almas do purgatório. Esta devoção acumular-nos-á grandes tesouros espirituais, e ao mesmo tempo que será agradável a Deus tiraremos dela uma imensa utilidade para nós mesmos. Examinemos alguns dos frutos que produz esta devoção, o que nos tornará mais generosos para essas filhas de Deus, essas esposas do Espirito Santo, que nós favoreceremos com nossas orações e boas obras, sem receio de que o fruto destas seja perdido para nós. Realmente, tira-se um grande proveito não reservando nenhuma parte das próprias obras de satisfação, das indulgências que se ganham, mas oferecendo-as por inteiro pelas santas esposas do nosso amadíssimo Redentor, que gemem entre os mais cruéis sofrimentos. 
O primeiro fruto que colheremos será o acréscimo de merecimentos. Das três prerrogativas que Deus concede às boas obras dos justos, a saber, o merecimento, a impetração e a satisfação, a maior é o merecimento, pois nos torna mais agradáveis a Deus, estreita os laços da nossa amizade com Ele, atrai-nos graças mais abundantes, e prepara-nos assim maior glória no céu. E', pois, evidente que quem chegar a converter a satisfação, preço das suas boas obras, em equivalente novo merecimento, independente do mérito, que já houvesse adquirido e a mais desse mérito, muito lucrará nesta troca. Estabeleçamos esta verdade com outro raciocínio. O bem da glória dos bem-aventurados é, sem comparação, muito mais real, muito maior do que o mal dos sofrimentos do purgatório; por consequência, o direito a um aumento de glória vale mais que o direito a uma diminuição de pena. Ora, aquele que oferece pelas almas do purgatório as satisfações das suas boas obras e as indulgências ganhas faz precisamente a troca de que falamos, converte essas satisfações em méritos. Nesta caridade encontra-se um ato heroico de virtude, que confere ao seu autor a vida eterna, cousa que a satisfação não pode fazer, a não ser convertida em merecimento. Este ponto exige alguma reflexão, além de que, como dissemos, a gloria do céu é um bem maior que o mal do purgatório, devemos lembrar-nos que um aumento de glória é cousa eterna, enquanto que um alívio de sofrimentos do purgatório é passageiro, como o próprio purgatório, de sorte que a distância entre o aumento de glória e o refrigério dado aos sofrimentos do purgatório é infinita. O gozo dos bens eternos, mesmo no ínfimo grau, não seria comprado demasiadamente caro pelos sofrimentos e males temporais mais violentos. Devemos acrescentar que em todas as cousas se deve fazer o que é mais agradável aos olhos de Deus, não buscando o que melhor conviria aos nossos interesses e gostos, mas o que mais apraz ao Senhor. Vale mais agradar a Deus que evitar sofrimentos. Ora, um indivíduo que arrecada para si as satisfações e as indulgências que pode ganhar, não tem em mira senão poupar-se a sofrimentos, ao passo que quem as oferece todas em benefício das almas do purgatório torna-se por este mesmo facto mais querido de Deus, pelo requinte de amor que brilha neste ato heroico de misericórdia e de caridade, que não era obrigado a praticar, mas que faz por um rasgo generoso da sua vontade livre.
As santas almas do purgatório não podem tirar nenhum proveito dos seus sofrimentos; o tempo de merecer passou para elas; e enquanto gemem naquele lugar de dores, a Jerusalém celeste conserva-se privada dos seus habitantes, e a Igreja, na terra, também privada de protetores que intercedam por ela junto de Deus. Daí um segundo fruto da nossa devoção. Aquela alma, a quem nós abrimos as portas do purgatório, contraiu conosco uma obrigação especial, em primeiro lugar, por causa da glória cuja posse lhe abreviamos, e depois, por causa dos terríveis sofrimentos a que a arrancamos. Portanto, é para ela um dever obter para os seus benfeitores as graças e bênçãos de Deus. Os bem-aventurados sabem quanto é grande, infinito, o benefício que receberam; e como são essencialmente gratos, esforçam-se por mostrar um reconhecimento proporcionado a felicidade que fruem. Assim, quem oferece as indulgências que ganha em favor das almas do purgatório, tem nestas outros tantos agentes, no céu, a cuidar dos seus interesses eternos; e muito melhor é assegurar a salvação nesta vida, por meio das graças obtidas pelos nossos protetores celestes, do que nos subtrairmos ao perigo de mais demorada permanência no purgatório, por havermos dado a outros o fruto das nossas indulgências. Mas não adquirimos só um direito a benevolência das almas que libertamos; obtemos também o amor dos seus anjos da guarda e dos santos pelos quais essas almas tiveram uma devoção especial; ao mesmo tempo tornamo-nos mais queridos do Coração de Jesus, pelo prazer que experimenta com a libertação da sua cara esposa e com a sua entrada na alegria do céu.
Podemos ainda colher desta devoção um terceiro fruto não menos útil para nós. E' uma grande felicidade termos alguém no céu, que ame, louve e glorifique a Deus por nós. Quem tem por Deus um amor terno e fervoroso não pode abster-se de empregar todos os esforços para que a Majestade divina seja exaltada e glorificada, mas por causa dos nossos pecados e das misérias desta vida, não nos é possível render a esta adorável Majestade as homenagens e o culto perfeitos que os bem-aventurados lhe prestam no céu. Que alegria e consolação não devemos pois sentir ao pensar que outros, arrancados pelas nossas orações às chamas do purgatório, desempenham por nós este sublime dever; e que enquanto nós penamos ainda neste mundo, eles entoam já no céu o cântico dos louvores eternos! Certamente não há nenhuma alma no purgatório que não seja mais santa que a nossa e mais própria para glorificar a Deus. Por isso, quando introduzimos uma alma no céu, proporcionamos com ela mais gloria a Deus do que nós mesmos lhe podemos dar aqui na terra. Enquanto comemos, bebemos, dormimos e trabalhamos (ó delicioso pensamento!), há no céu uma alma, ou almas, apraz-me crê-lo, às quais apressamos a felicidade, e que adoram, glorificam sem cessar a Majestade e a Beleza do Altíssimo, com uma perfeição indizível.
Ainda não é tudo. Esta generosa devoção produz um quarto fruto: faz rejubilar ao mesmo tempo a Igreja militante e a Igreja triunfante. Grande é a festa no céu quando um eleito vai engrossar o número dos seus habitantes; pois se os santos veem com transportes de alegria a penitencia de um pecador, que aliás pode voltar a cair no crime, qual não deve ser o seu prazer quando recebem em seu seio um novo cidadão que já não tornará a ofender a Deus! O seu anjo da guarda rejubila também e recebe mil felicitações dos espíritos bem-aventurados, pelo êxito com que desempenhou as suas funções tutelares. A alegria expande-se entre os santos, principalmente entre aqueles a cujo patrocínio esta alma estava especialmente confiada, e entre os seus parentes e amigos, ao feliz coro dos quais vai reunir-se, Maria rejubila igualmente pelo bom resultado das suas repetidas preces, ao mesmo tempo que Jesus enceleira com amor e complacência a madura messe do seu precioso sangue. O Espirito santo digna-se rejubilar com o triunfo dos seus dons e inspirações inumeráveis, e o Pai Eterno compraz-se na perfeição a que chegou a criatura de sua escolha, com a qual usou por tanto tempo de longanimidade. A Igreja militante também tem a sua parte de alegria, porque obtém um novo advogado. Os parentes, os amigos, a família desta alma para sempre feliz, a freguesia, a nação a que ela pertencia, todos têm motivo para rejubilar com o seu triunfo. Direi mais, todo os predestinados e toda a natureza encontram motivo de júbilo na entrada de um eleito no seio do seu Criador.
Mas podemos ainda colher um quinto fruto desta nossa devoção. O amor não sofre delongas. Poderíamos então deixar permanecer inútil, durante largos anos talvez, um tesouro que pode servir perfeitamente para a gloria de Deus e para os interesses de Jesus? Talvez não tenhamos necessidade, presentemente, das nossas satisfações nem das nossas indulgências. Mas se as escondemos no tesouro da Igreja, quem sabe quantos anos decorrerão sem que as nossas riquezas possam ser utilizadas, admitindo mesmo, com Lugo, que todas as satisfações dos santos serão aplicadas antes do dia do julgamento? [1] Ah! Por que não havemos de pôr desde já este dom ao serviço de Deus, abrindo quanto antes as portas do purgatório a algumas santas almas, que começarão, hoje mesmo talvez, o seu delicioso sacrifício de louvores eternos?
Finalmente, acrescentarei que aquilo que damos redunda abundantemente em nosso proveito, e este é o sexto fruto da nossa devoção. Em primeiro lugar, o próprio ato de tão grande e generosa caridade é por si mesmo uma satisfação pelos nossos pecados; pois se uma esmola dada para socorrer uma necessidade material satisfaz mais que a maior parte das outras boas obras, qual não será o poder destas esmolas espirituais? Depois, quem sacrifica alguma cousa pela glória de Deus recebe recompensa centuplicada. O Senhor nos concederá pois tais graças, de modo que apenas teremos uma pequena demora no purgatório, ou talvez inspire a outros fieis o pensamento de orarem por nós. De maneira que, se houvéssemos guardado para nós mesmo as nossas indulgências, muito tempo poderíamos gemer naquelas chamas vingadoras, enquanto assim, se por inspiração de Deus outros tratarem de ganhar indulgências para nós, entraremos muito mais depressa na glória celeste. E’ um axioma, que nada se perde quando se perde por Deus. Quando estivermos no purgatório, os bem-aventurados a quem apressamos a hora do triunfo verão em nós os seus benfeitores, e na nossa libertação uma dívida que a justiça lhes impõe. Por outro lado, não serão só eles a reconhecer esta dívida, e Nosso Senhor os ajudará a saldá-la.
Assim, dando todas as nossas satisfações, todas as nossas indulgências às almas do purgatório, longe de transtornarmos a ordem natural da caridade, servimos deste modo os nossos mais caros interesses. E’ uma devoção que promove singularmente a glória de Deus, favorece no mais alto grau os interesses de Jesus, e se inspira no amor das alma: abrange simultaneamente a Igreja militante, a Igreja purgante e a Igreja triunfante.Bendigamos Deus por nos haver concedido, em sua incompreensível liberalidade, o inestimável benefício de dispormos a nosso alvedrio das nossas indulgências e satisfações. E visto que nos pertencem, que podemos usar delas como mais nos agrade, alegre-se o nosso coração empregando-as em aumentar a gloria de Deus e em fazer abençoar o seu nome.
Vede até onde chegaram neste particular alguns grandes servos de Deus. O Padre Fernando de Monroy, homem eminentemente apostólico, fez à hora da morte uma doação por escrito, pela qual transferia para as almas do purgatório todas as missas que houvessem de ser ditas por sua alma, todas as penitencias oferecidas em seu benefício e todas as indulgências que para ele viessem a ser ganhas, Bem podia fazer esta doação, pois quase se não tem necessidade de semelhantes socorros quando se tem tido por Deus um amor tão delicado, quando se abraçaram os interesses de Jesus com tanto ardor como o último ato deste piedoso religioso nos leva a presumir que ele fez. “O amor é forte como a morte; as águas do mar veem quebrar-se contra a caridade, e as suas ondas não a podem submergir” [2]
Agora vedes claramente o que vos peço. E’ necessário servir a Jesus dum modo ou de outro, sem o que não podeis salvar a vossa alma. Estais completamente sob a sua descendência. Não podeis fazer cousa alguma sem n’Ele terdes fé, sem recorrerdes aos méritos da Sua Vida, da Sua Morte, do Seu Sangue; sem a Sua Igreja e Seus Sacramentos. Não podeis dar um passo para o céu sem o Seu auxilio. Cada uma das vossas ações, dos vossos pensamentos, das vossas palavras não tem valor senão pela sua união com os merecimentos d'Ele. Não se pode conceber dependência mais completa, mais absoluta, mais constante, mais indispensável que a vossa dependência d'Ele. Portanto dum modo ou de outro, é necessário que sirvais a Jesus. A questão agora é saber se não vale mais servi-lo por amor. Qual tem sido até hoje a vossa maneira de o servir? Não tereis acaso cumprido os vossos deveres para com Deus como um pobre que paga uma dívida a um credor rico e que, a cada moeda que lhe vai passando para as mãos, espreita de soslaio a fisionomia do seu credor, para ver se este homem está realmente resolvido a esquecer a pobreza do seu devedor e a aceitar-lhe o pagamento integral da dívida? O vosso problema não terá sido encontrar o meio de chegar ao céu com o menor trabalho possível? Não tereis esmiuçado os mandamentos, truncado os preceitos, interpretado as regras, pedido dispensas? Com franqueza é a isto que chamais a vossa religião, o vosso culto a um Deus Encarnado, que levou o amor até à loucura, até se fazer amarrar ensanguentado ao patíbulo da cruz?
Pois eu entendo que servir a Jesus por amor é muito mais fácil do que servi-lo assim. Cousa alguma é fácil quando se não faz de boa vontade. A vossa religião tornou-vos felizes? Oh! não; pelo contrário foi para vós um fardo pesado; e se não fosse esta alternativa – o céu ou o inferno – há muito tempo que vos teríeis desembaraçado dela. Mas o céu e o inferno são fatos, lá estão, não há para nós meio termo. Ora, visto que é necessário sermos religiosos, eu sou pela religião que nos faz felizes. Não vejo a utilidade de me impor um culto penoso, se Deus me dá a escolher. Mas Deus faz mais: deseja que a minha religião me faça feliz; sim Ele quer que a religião seja o sol que alegre a minha vida. Mas uma religião, para fazer alguém feliz, deve ser uma religião de amor. O amor torna tudo fácil. Assim, a minha felicidade não depende senão de Jesus. E' a minha religião que me dá dias felizes. Se servir à Jesus por amor fosse cousa difícil, prodigiosa, como a contemplação dos santos, ou as suas austeridades, então o caso seria diferente. Mas realmente não é nada disso. Servir a Deus por temor de ir para o inferno e por desejo de ir para o céu, é cousa excelente, sem dúvida, e obra sobrenatural; mas é difícil. Pelo contrário, é tão suave servir a Deus por amor, que mal se explica como tanta gente neste mundo deixa de o fazer. Pobres almas, cegas até ao prodígio!
Mas uma felicidade ainda maior, é que tornando-nos felizes a nós mesmos, também fazemos feliz Nosso Senhor. Este pensamento aumenta a nossa alegria a ponto de quase não nos podermos conter, e isto é uma nova origem de contentamento para Jesus. E’ assim que a religião se torna cada vez mais agradável. A vida é uma extensa felicidade quando nela se cumpre sempre a vontade de Deus, e todos os momentos são empregados para glória Sua. Se vos identificais com os interesses de Jesus; se os abraçais como se fossem os vossos, como realmente são, penetra em vós o seu espirito, estabelece no vosso coração o seu trono, aí se coroa, e depois, com uma infinita meiguice, proclama-se rei do vosso coração. Uma amável conspiração lhe entregou o cetro, e durante todo este tempo nunca suspeitastes que o amor divino mirava a este fim. Entretanto, é assim. A glória de Deus torna-se-vos cara, tudo quanto diz respeito a Nosso Senhor é agora o vosso fraco, é como que a menina de vossos olhos sentis-vos atraídos para a salvação das almas porque é a sua obra predileta, e todas as vossas inclinações, todos os vossos gostos tomam este partido. Assim vão correndo as cousas, assim ides vivendo (não digo bem: vós não viveis, é Cristo que em vós vive) e assim morreis. Contudo, nunca vos passou pela ideia que éreis um santo, ou que vos aproximáveis da santidade. A vossa vida oculta-se em Deus com Jesus Cristo, mas é mais oculta para vós do que para os outros. Vós um santo! Semelhante pensamento vos faria rir, se não assustasse a vossa humildade. Mas, ó profunda misericórdia de Jesus, qual não será a vossa surpresa no dia do julgamento, ao ouvirdes a consoladora sentença pronunciada por sua boca, e ao verdes a brilhante coroa que Ele vos preparou! Só surpresa? Quase vos sentireis impelidos a discutir a vossa salvação! Nosso Senhor atribui esta linguagem aos escolhidos, no sagrado Evangelho: — “Senhor, quando foi que vós tivestes fome e eu vos dei de comer? Quando foi que tivestes sede e eu vos dei de beber?” Não podem compreendê-lo. Nunca pensaram que o seu amor tivesse tanta grandeza. Ah! servi, pois, a Jesus por amor; e por muito que façais, sabei que nunca O amareis tanto como Ele vos ama. Repito-vos, servi a Jesus por amor. Se seguirdes o meu conselho, eu ouso prometer-vos, que antes que vossos olhos se fechem, antes que o palor da morte tome o vosso rosto, antes que se certifiquem aqueles que rodearem o vosso leito de que exalastes o último suspiro, já vós tereis ouvido com surpresa, entre os cânticos dos Anjos, a sentença favorável do vosso amoroso Jesus, e a glória de Deus começará a brilhar para vós com um esplendor eterno!
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Tudo por Jesus, Pe. W.F. Faber, trad. portuguesa, H. Garnier, Livreiro-Editor, s.d.

[1] A doutrina d'esta passagem, como se lia na primeira edição deste livro, era fundada num trecho duvidoso de Nieremberg, Avarizi* santa, c. 27. Foi agora retificada segundo a teoria de Lugo, Dd Sac. Poenit, disp. 26, szc. 2, n. 24.
[2] Cant. VIII, 6, 7.


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29 de Novembro: As últimas vontades dos mortos


                       AS ÚLTIMAS VONTADES DOS MORTOS
                                        
Somos obrigados a executar com justiça e consciência as últimas vontades dos nossos mortos. O que no leito de morte nos pediram, o que deixaram em testamento seja respeitado, porque daremos contas severas a Deus desta tremenda injustiça se lesarmos os direitos dos mortos e não cumprirmos suas últimas vontades.
As pobres almas do purgatório são vítimas da Justiça de Deus, porque devem expiar seus pecados, e muitas vezes também vítimas das injustiças dos homens. Herdeiros que defraudam os bens dos mortos e nem se lembram de lhes sufragar a pobre alma com uma só Missa! Filhos que discutem e se odeiam por uma miserável herança e cometem toda sorte de injustiças, lesando-se mutuamente numa louca ambição, ao invés de em paz honrarem a memória dos pais e cumprirem as cláusulas dos testamentos. É uma das mais tremendas injustiças. Lesar os vivos é um pecado, mas lesar os mortos tirando-lhes os sufrágios por injustiça, é um pecado que só pode atrair a vingança de Deus. Diz o Espírito Santo que haverá um juízo sem misericórdia para quem não usou de misericórdia. “Que juízo tremendo e duro não há de ser o de quem defraudou os direitos dos mortos? Lesar um pobre, disse o Quarto Concilio de Cartago, é se fazer assassino do pobre”. Que não será o que lesa o direito das pobres almas?
Cumpramos as últimas vontades de nossos mortos com muito escrúpulo e cuidado, porque, ai de nós se não o fizermos! Têm-se visto castigos tremendos pesar sobre os que roubam os direitos dos defuntos. Se deixaram legados para Missas, dinheiros para obras de caridade, propriedades para determinados fins, respeitemos estas vontades! Façamos executar o mais depressa possível os testamentos. Principalmente não retardemos as Missas que deixaram para serem celebradas. É um perigo! Tomemos bem nota das úl­timas recomendações dos agonizantes. O Concilio de Trento recomenda aos Bispos que velem atentamen­te o cumprimento dos legados feitos pelos fiéis defuntos. Vários concílios chegam a lançar excomu­nhão sobre os que cometem injustiças e fraudes nos legados, sobretudo de Missas. É preciso cumprir com fidelidade os testamentos o mais depressa que for possível. As demoras muita vez importam em grande sofrimento no purgatório para os defuntos e prejuízo para os vivos.
Muito cuidado com os testamentos! Procurai não entregar, a não ser em mãos seguras, os legados de Missas. São os mais sérios e importantes. Segundo muitas revelações particulares, estas injustiças têm custado anos e até séculos de purgatório a muitos! Não se roube o que é do direito dos fiéis defuntos!
Lembremo-nos das expressões severas do Concilio de Cartago: “Egentium necatores” — são assassinos das almas necessitadas, os que lesam os testamentos e não cumprem as últimas vontades dos mortos. Depressa, sem hesitação sejamos fidelíssimos e pressurosos em cumprir as últimas vontades dos mortos. Com isto nos livraremos de muitos castigos. Não se brinca com o severo juízo de Deus na defesa dos direitos dos mortos!

Respeitai os mortos!
Estamos numa época de lamentável ausência de respeito e veneração pelas coisas sagradas. Uma ho­ra de impiedade e irreverência. O homem moderno paganizado zomba de tudo, deturpa a verdade, nada leva a sério. Uma das manifestações mais dolorosas desta irreverência é o desrespeito à memória dos defuntos, e quando não os deixam no esquecimento, zombam deles, ou os trazem à baila em anedotas e conversas imorais.
É uma impiedade. Respeitemos a memória dos defuntos. Os pagãos tinham este senso quando diziam: parce sepultis! Perdoa aos mortos! Cometeram erros? Foram maus? Já estão entregues à Justiça de Deus. Rezemos por eles! Que poderemos fa­zer então? Não nos podemos vingar dos defuntos. Podemos lamentar o que fizeram, mas sejamos dis­cretos e não vamos muito além do que pode mandar a justiça ou a reparação de algum escândalo que deixaram.
Nosso povo graças a Deus é tão delicado e sen­sível à memória dos defuntos! Como é edificante ou­vir sempre a nossa gente se referir aos defuntos com expressões de caridade e respeito: Deus lhe perdoe! Deus o tenha em bom lugar! Deus que o não castigue na eternidade! É este o modo de falar do povo. É mister conservá-lo e guardemos esta tradição de respeito pelos mortos. Infelizmente, uma imprensa sem critério e irreverente e até imoral vai arrancando do povo este sentimento delicado. Hoje ouvem-se referências estúpidas e atrevidas à memória até de entes queridos. Com que linguagem se referem alguns aos mortos! Anedotas grosseiras, brincadeiras de mau gosto, com os defuntos e com motivos fúnebres! Não, isto não pode ser! Os pagãos não admitiriam isto, porque entre eles o culto dos mortos é sacratíssimo. E cristãos civilizados desrespei­tam a memória até dos seus entes queridos! É isto fruto do materialismo de nossa época.
Eduquem os pais no lar aos filhos, no culto e na reverência aos mortos. É um capítulo da boa edu­cação. A Igreja cerca de veneração os cadáveres, manda-nos reverenciar os mortos e orar por eles no dia de Finados. Por que havemos de permitir que até no seio de famílias cristãs se brinque e se zombe da memória sagrada de nossos defuntos?
Outro sintoma alarmante desta irreverência é o desrespeito nos enterros e nas cerimônias fúnebres. Missas de sétimo dia e aniversário nas quais se veem nos templos além da indiferença para com o altar, ver­dadeiras profanações nas atitudes e conversas. Enterros nos quais se fumam e as palestras versam sobre assuntos até impróprios. Enterros sem uma oração, sem uma manifestação de fé cristã! É doloroso, é lastimável tudo isto! Somos um povo de tradições piedosas e de veneração pelos mortos. Porque não guardar estas tradições que, graças a Deus, ainda vi­goram por aí afora em nosso interior, onde esta estúpida civilização paganizada ainda não chegou. Felizmente, muitas famílias nossas ainda conservam nossos hábitos cristãos e piedosos do culto dos mortos. Todavia, é mister façamos uma campanha pelo respeito nos funerais, pelo respeito aos defuntos.

Sejamos apóstolos do purgatório!
Sejamos apóstolos do purgatório! Que significa isto? Há o apostolado da salvação das almas neste mundo, apostolado necessário, urgente e indispensá­vel, dizia Pio XI aos leigos da Ação Católica. Todo sacerdote foi chamado por Deus a salvar a sua alma com uma condição: a de salvar também as almas dos seus irmãos. Onde há almas que possam glorificar a Deus, lá deve estar o apóstolo para lutar por elas e salvá-las. Há multidões de pobres almas sofredoras nas chamas expiadoras do purgatório. Podemos ficar indiferentes à sorte das pobres almas? É nosso interesse também trabalhar pelo purgatório. “Eu nunca vi, disse Santo Agostinho, eu nunca vi e não me lem­bro de ter lido jamais que aquele que reza pelos mor­tos tenha tido morte no pecado, ou simplesmente du­vidosa”.
Não queremos salvar nossa alma? Procuremos esta garantia que nos poderá dar da perseverança fi­nal, a nossa perseverança na caridade para com os defuntos.

Nosso Senhor socorre os que socorrem os mortos.
Façamos tudo que pudermos para que se multipliquem os sufrágios das almas. Um zelo engenhoso procura sempre ocasiões e não perde oportunidade de fazer o apostolado do purgatório. Propaganda de bons livros que tratem do assunto, distribuição de folhas volantes, orações, etc. É mister propagar o uso da Comunhão mensal pelos mortos, o rosário pelas almas, as novenas, e sobretudo uma campanha pela Santa Missa. Mandar celebrar Missas pela alma dos pobrezinhos, fazer economias nos cofrezinhos das almas, para Missas. Ao invés de tantas promessas inú­teis, mandar celebrar Santas Missas pelas almas mais abandonadas, a fim de alcançar de Nosso Senhor por esta caridade as graças desejadas.
Finalmente, há uma prática que se vai propagando entre nós e que tem dado excelentes resultados e concorrido muito para incrementar a devoção pelo purgatório: é o Natal das Almas. Em que consiste? Não costumamos ser carinhosos e festejarmos o Natal de Jesus com presentes e obséquios aos nossos pobres? Pois lembremo-nos daquelas miseráveis e pobres almas que gemem no purgatório, vamos preparar-lhes um Natal de sufrágios. Durante alguns meses antes do Natal, ou melhor, durante o ano todo, vamos formando um tesouro espiritual de Missas mandadas celebrar, Missas assistidas, Comunhões, esmolas, mortificações, Vias Sacras, Novenas das almas, enfim, um ramalhete com toda sorte de sufrágios, e ofereçamos tudo pelo Natal das Almas, para que Nosso Senhor dê às pobres Almas sofredoras um Natal no céu, um Natal eterno na Glória. Prepare-mos cada ano este Natal das Almas. É um meio de estimular a devoção e socorrer muitas almas abandonadas do purgatório.
Enfim, o que não há de inventar o zelo esclarecido de uma alma caridosa e que compreende a necessidade e o sofrimento das almas do purgatório!
Sejamos apóstolos do purgatório. Na hora da morte e na eternidade, havemos de ver quantos méritos e quantos favores do céu receberemos por esta grande caridade!

Exemplo
As últimas vontades de nossos mortos
É preciso muito cuidado e muito escrúpulo no cumprimento das últimas vontades de nossos defuntos. Executemos as suas ordens e testamentos com toda justiça, porque muitas vezes os maus herdeiros ou ingratos não cumprem o que lhes foi deixado em testamento e fazem sofrer no purgatório as pobres almas e preparam também para si próprios um terrível purgatório, porque Deus sempre castiga os que são causa do sofrimento das pobres almas.
Conta o Pe. Rossingnoli em seu livro “As maravilhas das almas do purgatório”, este exemplo entre muitos:
Em Milão, uma fertilíssima plantação ficou destruída por uma chuva de pedras, que tudo devastou. E o que era para se admirar é que em torno do sítio não caiu um só granizo e nem houve estrago por menor que fosse. Foi revelado o castigo de Deus sobre os seus donos. Aquela propriedade era de uns jovens que a haviam herdado do pai, falecido, e não cumpriram as últimas vontades do defunto. Trabalhavam aos domingos e se esqueciam de sufragar a alma do pai.
Outro fato se conta do tempo de Carlos Magno. Narra um antigo cronista que um bravo soldado que havia seguido o grande Imperador em todos os cam­pos de batalha, ao sentir se aproximar a morte cha­mou um neto, único herdeiro do que possuía, e lhe disse: Meu filho, toda a minha riqueza consiste nas armas e no belo cavalo que possuo. As minhas armas ficarás com elas e o meu cavalo será vendido e o pre­ço entregue aos sacerdotes, a fim de que uns me so­corram com as orações e outros com o Santo Sacrifício da Missa por minha alma.
O neto, em pranto, prometeu cumprir a vontade do avô agonizante. Todavia, mal o havia sepultado, já se esquecera das recomendações. Pensou consigo: este cavalo tão belo eu o venderei mais tarde e cumprirei a última vontade de meu avô. Vou aproveitá-lo antes.
E passavam-se dias e meses e o jovem em pas­seios a cavalo. Passaram-se seis meses e um dia o avô lhe aparece:
— Ai! Meu neto ingrato e cruel! Não tivestes piedade do teu desgraçado avô... Onde está o que me prometestes? Por tua causa estou padecendo horrivelmente nas chamas do purgatório, mas Deus teve piedade de mim e hoje mesmo vou para o céu. Por justo castigo de Deus deverás sofrer no purgatório as penas que me faltam, e morreras logo.
Poucos dias depois o jovem caia doente e em estado grave. Mandou chamar um sacerdote, fez uma boa confissão e narrou-lhe a aparição e a sua falta. Morreu piedosamente e na certeza de ir padecer no purgatório o sofrimento de que foi causa ao pobre avô, pelo descuido em cumprir suas últimas vontades.
Não defraudemos os mortos! A causa dos mor­tos está entregue à Justiça de Deus!

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão
Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

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Seis vantagens da aplicação das nossas indulgências às almas do Purgatório.

Seis vantagens da aplicação das nossas indulgências às almas do Purgatório.

Tudo por Jesus, Pe. W.F. Faber,

trad. portuguesa, 
H. Garnier, Livreiro-Editor, s.d.

                Há pessoas que aplicam às almas do purgatório todas as indulgências que lucram; outras pelo contrário, guardam-nas todas para si mesmas, e ninguém tem o direito, certamente, de condenar este modo de proceder. Pois quem ousaria contestar a quem quer que fosse uma liberdade que a Igreja lhe concede? Graças a Deus, não tenho semelhante pretensão. Sem embargo, vou expor livremente o meu modo de sentir a este respeito. Contudo, cingir-me-ei estritamente ao que dizem sobre esta matéria os teólogos e os autores espirituais.
                A graça é um benefício tão grande, que devemos procurar aumentá-la por todos os meios possíveis; e não há caminho mais curto para chegar a este fim, que converter a satisfação em mérito: é o que faremos ganhando indulgências para as almas do purgatório. Esta devoção acumular-nos-á grandes tesouros espirituais, e ao mesmo tempo que será agradável a Deus tiraremos dela uma imensa utilidade para nós mesmos. Examinemos alguns dos frutos que produz esta devoção, o que nos tornará mais generosos para essas filhas de Deus, essas esposas do Espirito Santo, que nós favoreceremos com nossas orações e boas obras, sem receio de que o fruto destas seja perdido para nós. Realmente, tira-se um grande proveito não reservando nenhuma parte das próprias obras de satisfação, das indulgências que se ganham, mas oferecendo-as por inteiro pelas santas esposas do nosso amadíssimo Redentor, que gemem entre os mais cruéis sofrimentos. 
O primeiro fruto que colheremos será o acréscimo de merecimentos. Das três prerrogativas que Deus concede às boas obras dos justos, a saber, o merecimento, a impetração e a satisfação, a maior é o merecimento, pois nos torna mais agradáveis a Deus, estreita os laços da nossa amizade com Ele, atrai-nos graças mais abundantes, e prepara-nos assim maior glória no céu. E', pois, evidente que quem chegar a converter a satisfação, preço das suas boas obras, em equivalente novo merecimento, independente do mérito, que já houvesse adquirido e a mais desse mérito, muito lucrará nesta troca. Estabeleçamos esta verdade com outro raciocínio. O bem da glória dos bem-aventurados é, sem comparação, muito mais real, muito maior do que o mal dos sofrimentos do purgatório; por consequência, o direito a um aumento de glória vale mais que o direito a uma diminuição de pena. Ora, aquele que oferece pelas almas do purgatório as satisfações das suas boas obras e as indulgências ganhas faz precisamente a troca de que falamos, converte essas satisfações em méritos. Nesta caridade encontra-se um ato heroico de virtude, que confere ao seu autor a vida eterna, cousa que a satisfação não pode fazer, a não ser convertida em merecimento. Este ponto exige alguma reflexão, além de que, como dissemos, a gloria do céu é um bem maior que o mal do purgatório, devemos lembrar-nos que um aumento de glória é cousa eterna, enquanto que um alívio de sofrimentos do purgatório é passageiro, como o próprio purgatório, de sorte que a distância entre o aumento de glória e o refrigério dado aos sofrimentos do purgatório é infinita. O gozo dos bens eternos, mesmo no ínfimo grau, não seria comprado demasiadamente caro pelos sofrimentos e males temporais mais violentos. Devemos acrescentar que em todas as cousas se deve fazer o que é mais agradável aos olhos de Deus, não buscando o que melhor conviria aos nossos interesses e gostos, mas o que mais apraz ao Senhor. Vale mais agradar a Deus que evitar sofrimentos. Ora, um indivíduo que arrecada para si as satisfações e as indulgências que pode ganhar, não tem em mira senão poupar-se a sofrimentos, ao passo que quem as oferece todas em benefício das almas do purgatório torna-se por este mesmo facto mais querido de Deus, pelo requinte de amor que brilha neste ato heroico de misericórdia e de caridade, que não era obrigado a praticar, mas que faz por um rasgo generoso da sua vontade livre.
As santas almas do purgatório não podem tirar nenhum proveito dos seus sofrimentos; o tempo de merecer passou para elas; e enquanto gemem naquele lugar de dores, a Jerusalém celeste conserva-se privada dos seus habitantes, e a Igreja, na terra, também privada de protetores que intercedam por ela junto de Deus. Daí um segundo fruto da nossa devoção. Aquela alma, a quem nós abrimos as portas do purgatório, contraiu conosco uma obrigação especial, em primeiro lugar, por causa da glória cuja posse lhe abreviamos, e depois, por causa dos terríveis sofrimentos a que a arrancamos. Portanto, é para ela um dever obter para os seus benfeitores as graças e bênçãos de Deus. Os bem-aventurados sabem quanto é grande, infinito, o benefício que receberam; e como são essencialmente gratos, esforçam-se por mostrar um reconhecimento proporcionado a felicidade que fruem. Assim, quem oferece as indulgências que ganha em favor das almas do purgatório, tem nestas outros tantos agentes, no céu, a cuidar dos seus interesses eternos; e muito melhor é assegurar a salvação nesta vida, por meio das graças obtidas pelos nossos protetores celestes, do que nos subtrairmos ao perigo de mais demorada permanência no purgatório, por havermos dado a outros o fruto das nossas indulgências. Mas não adquirimos só um direito a benevolência das almas que libertamos; obtemos também o amor dos seus anjos da guarda e dos santos pelos quais essas almas tiveram uma devoção especial; ao mesmo tempo tornamo-nos mais queridos do Coração de Jesus, pelo prazer que experimenta com a libertação da sua cara esposa e com a sua entrada na alegria do céu.
Podemos ainda colher desta devoção um terceiro fruto não menos útil para nós. E' uma grande felicidade termos alguém no céu, que ame, louve e glorifique a Deus por nós. Quem tem por Deus um amor terno e fervoroso não pode abster-se de empregar todos os esforços para que a Majestade divina seja exaltada e glorificada, mas por causa dos nossos pecados e das misérias desta vida, não nos é possível render a esta adorável Majestade as homenagens e o culto perfeitos que os bem-aventurados lhe prestam no céu. Que alegria e consolação não devemos pois sentir ao pensar que outros, arrancados pelas nossas orações às chamas do purgatório, desempenham por nós este sublime dever; e que enquanto nós penamos ainda neste mundo, eles entoam já no céu o cântico dos louvores eternos! Certamente não há nenhuma alma no purgatório que não seja mais santa que a nossa e mais própria para glorificar a Deus. Por isso, quando introduzimos uma alma no céu, proporcionamos com ela mais gloria a Deus do que nós mesmos lhe podemos dar aqui na terra. Enquanto comemos, bebemos, dormimos e trabalhamos (ó delicioso pensamento!), há no céu uma alma, ou almas, apraz-me crê-lo, às quais apressamos a felicidade, e que adoram, glorificam sem cessar a Majestade e a Beleza do Altíssimo, com uma perfeição indizível.
Ainda não é tudo. Esta generosa devoção produz um quarto fruto: faz rejubilar ao mesmo tempo a Igreja militante e a Igreja triunfante. Grande é a festa no céu quando um eleito vai engrossar o número dos seus habitantes; pois se os santos veem com transportes de alegria a penitencia de um pecador, que aliás pode voltar a cair no crime, qual não deve ser o seu prazer quando recebem em seu seio um novo cidadão que já não tornará a ofender a Deus! O seu anjo da guarda rejubila também e recebe mil felicitações dos espíritos bem-aventurados, pelo êxito com que desempenhou as suas funções tutelares. A alegria expande-se entre os santos, principalmente entre aqueles a cujo patrocínio esta alma estava especialmente confiada, e entre os seus parentes e amigos, ao feliz coro dos quais vai reunir-se, Maria rejubila igualmente pelo bom resultado das suas repetidas preces, ao mesmo tempo que Jesus enceleira com amor e complacência a madura messe do seu precioso sangue. O Espirito santo digna-se rejubilar com o triunfo dos seus dons e inspirações inumeráveis, e o Pai Eterno compraz-se na perfeição a que chegou a criatura de sua escolha, com a qual usou por tanto tempo de longanimidade. A Igreja militante também tem a sua parte de alegria, porque obtém um novo advogado. Os parentes, os amigos, a família desta alma para sempre feliz, a freguesia, a nação a que ela pertencia, todos têm motivo para rejubilar com o seu triunfo. Direi mais, todo os predestinados e toda a natureza encontram motivo de júbilo na entrada de um eleito no seio do seu Criador.
Mas podemos ainda colher um quinto fruto desta nossa devoção. O amor não sofre delongas. Poderíamos então deixar permanecer inútil, durante largos anos talvez, um tesouro que pode servir perfeitamente para a gloria de Deus e para os interesses de Jesus? Talvez não tenhamos necessidade, presentemente, das nossas satisfações nem das nossas indulgências. Mas se as escondemos no tesouro da Igreja, quem sabe quantos anos decorrerão sem que as nossas riquezas possam ser utilizadas, admitindo mesmo, com Lugo, que todas as satisfações dos santos serão aplicadas antes do dia do julgamento? [1] Ah! Por que não havemos de pôr desde já este dom ao serviço de Deus, abrindo quanto antes as portas do purgatório a algumas santas almas, que começarão, hoje mesmo talvez, o seu delicioso sacrifício de louvores eternos?
Finalmente, acrescentarei que aquilo que damos redunda abundantemente em nosso proveito, e este é o sexto fruto da nossa devoção. Em primeiro lugar, o próprio ato de tão grande e generosa caridade é por si mesmo uma satisfação pelos nossos pecados; pois se uma esmola dada para socorrer uma necessidade material satisfaz mais que a maior parte das outras boas obras, qual não será o poder destas esmolas espirituais? Depois, quem sacrifica alguma cousa pela glória de Deus recebe recompensa centuplicada. O Senhor nos concederá pois tais graças, de modo que apenas teremos uma pequena demora no purgatório, ou talvez inspire a outros fieis o pensamento de orarem por nós. De maneira que, se houvéssemos guardado para nós mesmo as nossas indulgências, muito tempo poderíamos gemer naquelas chamas vingadoras, enquanto assim, se por inspiração de Deus outros tratarem de ganhar indulgências para nós, entraremos muito mais depressa na glória celeste. E’ um axioma, que nada se perde quando se perde por Deus. Quando estivermos no purgatório, os bem-aventurados a quem apressamos a hora do triunfo verão em nós os seus benfeitores, e na nossa libertação uma dívida que a justiça lhes impõe. Por outro lado, não serão só eles a reconhecer esta dívida, e Nosso Senhor os ajudará a saldá-la.
Assim, dando todas as nossas satisfações, todas as nossas indulgências às almas do purgatório, longe de transtornarmos a ordem natural da caridade, servimos deste modo os nossos mais caros interesses. E’ uma devoção que promove singularmente a glória de Deus, favorece no mais alto grau os interesses de Jesus, e se inspira no amor das alma: abrange simultaneamente a Igreja militante, a Igreja purgante e a Igreja triunfante. Bendigamos Deus por nos haver concedido, em sua incompreensível liberalidade, o inestimável benefício de dispormos a nosso alvedrio das nossas indulgências e satisfações. E visto que nos pertencem, que podemos usar delas como mais nos agrade, alegre-se o nosso coração empregando-as em aumentar a gloria de Deus e em fazer abençoar o seu nome.
Vede até onde chegaram neste particular alguns grandes servos de Deus. O Padre Fernando de Monroy, homem eminentemente apostólico, fez à hora da morte uma doação por escrito, pela qual transferia para as almas do purgatório todas as missas que houvessem de ser ditas por sua alma, todas as penitencias oferecidas em seu benefício e todas as indulgências que para ele viessem a ser ganhas, Bem podia fazer esta doação, pois quase se não tem necessidade de semelhantes socorros quando se tem tido por Deus um amor tão delicado, quando se abraçaram os interesses de Jesus com tanto ardor como o último ato deste piedoso religioso nos leva a presumir que ele fez. “O amor é forte como a morte; as águas do mar veem quebrar-se contra a caridade, e as suas ondas não a podem submergir” [2]
Agora vedes claramente o que vos peço. E’ necessário servir a Jesus dum modo ou de outro, sem o que não podeis salvar a vossa alma. Estais completamente sob a sua descendência. Não podeis fazer cousa alguma sem n’Ele terdes fé, sem recorrerdes aos méritos da Sua Vida, da Sua Morte, do Seu Sangue; sem a Sua Igreja e Seus Sacramentos. Não podeis dar um passo para o céu sem o Seu auxilio. Cada uma das vossas ações, dos vossos pensamentos, das vossas palavras não tem valor senão pela sua união com os merecimentos d'Ele. Não se pode conceber dependência mais completa, mais absoluta, mais constante, mais indispensável que a vossa dependência d'Ele. Portanto dum modo ou de outro, é necessário que sirvais a Jesus. A questão agora é saber se não vale mais servi-lo por amor. Qual tem sido até hoje a vossa maneira de o servir? Não tereis acaso cumprido os vossos deveres para com Deus como um pobre que paga uma dívida a um credor rico e que, a cada moeda que lhe vai passando para as mãos, espreita de soslaio a fisionomia do seu credor, para ver se este homem está realmente resolvido a esquecer a pobreza do seu devedor e a aceitar-lhe o pagamento integral da dívida? O vosso problema não terá sido encontrar o meio de chegar ao céu com o menor trabalho possível? Não tereis esmiuçado os mandamentos, truncado os preceitos, interpretado as regras, pedido dispensas? Com franqueza é a isto que chamais a vossa religião, o vosso culto a um Deus Encarnado, que levou o amor até à loucura, até se fazer amarrar ensanguentado ao patíbulo da cruz?
Pois eu entendo que servir a Jesus por amor é muito mais fácil do que servi-lo assim. Cousa alguma é fácil quando se não faz de boa vontade. A vossa religião tornou-vos felizes? Oh! não; pelo contrário foi para vós um fardo pesado; e se não fosse esta alternativa – o céu ou o inferno – há muito tempo que vos teríeis desembaraçado dela. Mas o céu e o inferno são fatos, lá estão, não há para nós meio termo. Ora, visto que é necessário sermos religiosos, eu sou pela religião que nos faz felizes. Não vejo a utilidade de me impor um culto penoso, se Deus me dá a escolher. Mas Deus faz mais: deseja que a minha religião me faça feliz; sim Ele quer que a religião seja o sol que alegre a minha vida. Mas uma religião, para fazer alguém feliz, deve ser uma religião de amor. O amor torna tudo fácil. Assim, a minha felicidade não depende senão de Jesus. E' a minha religião que me dá dias felizes. Se servir à Jesus por amor fosse cousa difícil, prodigiosa, como a contemplação dos santos, ou as suas austeridades, então o caso seria diferente. Mas realmente não é nada disso. Servir a Deus por temor de ir para o inferno e por desejo de ir para o céu, é cousa excelente, sem dúvida, e obra sobrenatural; mas é difícil. Pelo contrário, é tão suave servir a Deus por amor, que mal se explica como tanta gente neste mundo deixa de o fazer. Pobres almas, cegas até ao prodígio!
Mas uma felicidade ainda maior, é que tornando-nos felizes a nós mesmos, também fazemos feliz Nosso Senhor. Este pensamento aumenta a nossa alegria a ponto de quase não nos podermos conter, e isto é uma nova origem de contentamento para Jesus. E’ assim que a religião se torna cada vez mais agradável. A vida é uma extensa felicidade quando nela se cumpre sempre a vontade de Deus, e todos os momentos são empregados para glória Sua. Se vos identificais com os interesses de Jesus; se os abraçais como se fossem os vossos, como realmente são, penetra em vós o seu espirito, estabelece no vosso coração o seu trono, aí se coroa, e depois, com uma infinita meiguice, proclama-se rei do vosso coração. Uma amável conspiração lhe entregou o cetro, e durante todo este tempo nunca suspeitastes que o amor divino mirava a este fim. Entretanto, é assim. A glória de Deus torna-se-vos cara, tudo quanto diz respeito a Nosso Senhor é agora o vosso fraco, é como que a menina de vossos olhos sentis-vos atraídos para a salvação das almas porque é a sua obra predileta, e todas as vossas inclinações, todos os vossos gostos tomam este partido. Assim vão correndo as cousas, assim ides vivendo (não digo bem: vós não viveis, é Cristo que em vós vive) e assim morreis. Contudo, nunca vos passou pela ideia que éreis um santo, ou que vos aproximáveis da santidade. A vossa vida oculta-se em Deus com Jesus Cristo, mas é mais oculta para vós do que para os outros. Vós um santo! Semelhante pensamento vos faria rir, se não assustasse a vossa humildade. Mas, ó profunda misericórdia de Jesus, qual não será a vossa surpresa no dia do julgamento, ao ouvirdes a consoladora sentença pronunciada por sua boca, e ao verdes a brilhante coroa que Ele vos preparou! Só surpresa? Quase vos sentireis impelidos a discutir a vossa salvação! Nosso Senhor atribui esta linguagem aos escolhidos, no sagrado Evangelho: — “Senhor, quando foi que vós tivestes fome e eu vos dei de comer? Quando foi que tivestes sede e eu vos dei de beber?” Não podem compreendê-lo. Nunca pensaram que o seu amor tivesse tanta grandeza. Ah! servi, pois, a Jesus por amor; e por muito que façais, sabei que nunca O amareis tanto como Ele vos ama. Repito-vos, servi a Jesus por amor. Se seguirdes o meu conselho, eu ouso prometer-vos, que antes que vossos olhos se fechem, antes que o palor da morte tome o vosso rosto, antes que se certifiquem aqueles que rodearem o vosso leito de que exalastes o último suspiro, já vós tereis ouvido com surpresa, entre os cânticos dos Anjos, a sentença favorável do vosso amoroso Jesus, e a glória de Deus começará a brilhar para vós com um esplendor eterno!

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[1] A doutrina d'esta passagem, como se lia na primeira edição deste livro, era fundada num trecho duvidoso de Nieremberg, Avarizi* santa, c. 27. Foi agora retificada segundo a teoria de Lugo, Dd Sac. Poenit, disp. 26, szc. 2, n. 24.
[2] Cant. VIII, 6, 7.



Fonte: http://angueth.blogspot.com.br/2013/02/seis-vantagens-da-aplicacao-das-nossas.html