21 de Novembro: Maria Santíssima, Mãe e Consoladora do purgatório



MARIA SANTÍSSIMA, MAE E CONSOLADORA DO PURGATÓRIO
Maria pode socorrer as almas

Um dia, escreve Santa Brígida nas suas Reve­lações, disse-me a Virgem Santíssima:
 — “Eu sou a Rainha do céu, eu sou a Mãe de misericórdia, e o caminho por onde voltam os pecadores a Deus. Não há pena no purgatório que não se alivie e que por mini não se torne menor do que si o fora sem mim”[1]. Outra vez a Santa ouviu Jesus dizer à sua Mãe: “Tu és minha Mãe, és a Rainha do céu, és a Mãe de mi­sericórdia, és o consolo dos que estão no purgatório e a esperança dos pecadores na terra”[2]. A provi­dencia maternal de Nossa Senhora se estende sobre seus filhos na terra e no purgatório. Ela nos socorre e ajuda até depois da morte nas chamas expiadoras. É uma verdade de fé que as almas do purgatório po­dem ser não só aliviadas em seus padecimentos, mas até libertadas das chamas expiadoras pelas orações, sa­tisfações e boas obras, e pelo Santo Sacrifício da Missa, enfim, pelos sufrágios dos vivos. Todavia, a Igreja nada definiu sobre o socorro que possam os Santos do céu dar às almas padecentes. Não houve necessi­dade de uma definição, porque o que os hereges con­testaram desde Lutero principalmente, foi o sufrágio dos vivos e até a existência do purgatório. Quem en­tretanto pode negar que a Igreja triunfante possa au­xiliar a Igreja padecente?
Segundo Santo Tomás de Aquino, duas coisas concorrem para que o sufrágio dos vivos aproveitem aos mortos: a caridade que une a todos, e a intenção que tem eles de socorrer os mortos. Quanto ao pri­meiro, nenhum meio existe maior de um vínculo de caridade que o Santo Sacrifício da Missa, o Sacra­mento que é o vínculo dos fiéis da Igreja. Quanto à outra, a oração, tem a vantagem de levar nossa in­tenção diretamente a Deus quando se invoca a Divina Misericórdia.
Ora, quem pode negar que os Santos do céu já purificados, possuam a caridade em estado de perfei­ção na glória e a intenção reta de ajudar às benditas almas sofredoras? Quem melhor do que eles conhece o sofrimento daquelas almas? Não há dúvida, os San­tos na glória podem e socorrem as almas do purga­tório. Quanto mais a Rainha dos Santos!
Contestaram alguns com subtilidades teológicas que Maria nada poderia fazer pelas almas entregues à Justiça Divina no purgatório. “Alguns autores, diz o piedoso Pe. Faber, pretendem que a Santíssima Vir­gem não pode ajudar as almas do purgatório senão de uma maneira indireta, porque não está mais em esta­do de satisfazer por elas. Não gosto de ouvir isto. Não gosto que falem de uma coisa que nossa terna Mãe não possa fazer”[3].
 Pois se Maria tem todo poder no céu e na terra, se é Mãe dos remidos, Mãe de Deus, não há de poder socorrer como e quando queira os seus filhos da Igre­ja padecente?
 Sim, não há teólogo seguro que o conteste, e a tradição de tantos séculos confirma esta consoladora verdade: Maria socorre seus fiéis servos depois da morte. Estende até o purgatório seu manto prote­tor de Mãe e Refúgio dos pecadores.
  
Como socorre Maria as almas sofredoras?
 Há muitas maneiras do poder misericordioso de Maria socorrer às benditas almas padecentes. O pri­meiro meio e mais frequente, diz o Pe. Terrien, S. J.[4] é o pensamento e a vontade que inspira aos fiéis ainda vivos neste mundo, de orar, sofrer e tra­balhar pela libertação das pobres almas. Quantos de­votos de Nossa Senhora não sentem de repente uma inspiração, um desejo de sufragar os seus mortos queridos ou o desejo de trabalharem pelo sufrágio do purgatório! É a Mãe bendita quem inspira estes bons desejos e resoluções. Não tem Ela nas mãos os cora­ções de seus filhos? Um dia um santo Irmão coadju­tor da Companhia de Jesus orava fervorosamente diante de uma imagem da Virgem Imaculada. En­quanto rezava, veio-lhe um certo escrúpulo do pouco zelo que tinha em orar e sufragar as almas do pur­gatório. Uma voz misteriosa lhe disse, então:
— “Meu filho, meu filho, lembra-te dos defuntos!
— Sim, minha Mãe, o farei doravante, respondeu o piedoso Irmão. E desde aquele dia se entregou às boas obras e sacrifícios e orações pelas almas[5].
Quantas vezes Nossa Senhora em tantas reve­lações particulares pediu orações pelos mortos! Ain­da em Fátima recomenda aos Pastorinhos a jaculatória: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do in­ferno, aliviai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas!”. Maria, pois, ajuda os fiéis do purgatório inspirando sufrágios aos seus filhos da terra e depois, oferecendo por estas almas cativas, não as satisfações atuais, pois no céu não há sofri­mento nem expiação, mas o que Ela padeceu e mere­ceu neste mundo. Haverá maior tesouro depois dos méritos de Cristo que os méritos de Maria?
Maria Santíssima, pois, por estes dois meios po­de e realmente socorre as almas. A Igreja, na sua liturgia, confirma esta piedosa crença e esta verdade consoladora quando assim ora na Missa dos Defun­tos: “Ó Deus que perdoais aos pecadores e desejais a salvação dos homens, imploramos a vossa clemên­cia por intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem, e de todos os Santos em favor de nossos ir­mãos, parentes e benfeitores que saíram deste mun­do, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.
Por terem as almas maior precisão de socorro, escreve Santo Afonso de Ligório, empenha-se a Mãe de Misericórdia com seio ainda mais intenso em au­xiliá-las. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino que Maria desce ao cárcere do purgatório onde tem certo domínio e poder para aliviar e libertar estas esposas de Jesus Cristo. Trás alívio às almas. Aplica-lhes o Santo es­ta palavra do Eclesiástico: Caminho por sobre as on­das do mar[6]. Compara as ondas às penas da pur­gatório, porque são transitórias, e por isso diferentes das do inferno, que nunca passam. Chama-as 0ndas do mar porque são penas muito amargas. Os de­votos da Virgem, aflitos com estas penas, são por Ela visitados e socorridos frequentemente. Eis, pois como socorre Maria as almas do purgatório.

Nossa Senhora do Carmo, Mãe do purgatório
As aparições da Virgem Misericordiosa a São Simão Stokler e ao Papa João XXII são muito conhe­cidas e hoje a piedade de toda Igreja tem na devoção à Virgem do Carmo um motivo para chamar a Nossa Senhora Mãe e Rainha do purgatório. Diz a Mãe de Deus a São Simão: “Recebe, meu querido filho, este escapulário de tua ordem como sinal distintivo da minha confraria e prova de privilégio que obtive para ti e para os filhos do Carmo. Aquele que morrer re­vestido do escapulário será preservado das penas do outro mundo. É um sinal de salvação, uma defesa nos perigos, o penhor de paz e proteção especial até o fim dos séculos”. Promete a Virgem a proteção aos seus fiéis devotos do escapulário. Esta promessa foi confirmada setenta anos depois, após uma revela­ção feita por Maria ao Papa João XXII. Declarou este Pontífice numa Bula, que estando em oração, Maria lhe apareceu e disse: “João, Vigário de meu Filho, és devedor da alta dignidade a que chegaste a mim, que pedi por ti. Eu te livrei dos laços dos teus adversários; espero de ti uma confirmação da Ordem do Carmo, que me foi sempre especialmente dedicada. Se entre os religiosos ou confrades, quando morrerem, se acharem alguns cujos pecados tiverem merecido o purgatório, eu descerei como terna Mãe no meio de­les, no purgatório, no sábado que seguir a sua morte. Livrarei aqueles que eu lá encontrar e os levarei à Montanha Santa, à feliz morada da vida eterna”.

É Maria revelando-se Mãe carinhosa das almas do purgatório.
A arte cristã sempre representa a Virgem do Carmo estendendo o seu escapulário sobre o purgató­rio onde as almas em meio das chamas expiadoras le­vantam os braços e olhos suplicantes implorando a misericórdia da boa Mãe e procurando no escapulário um meio de saírem das chamas.
Como isto é significativo e simbólico! Não é esta a Missão da Virgem Santíssima, Consolo e alívio e libertação do purgatório e o que encontram com segu­rança os devotos verdadeiros de Maria Santíssima? Podemos crer no grande privilégio dos Carmelitas. A Sagrada Congregação das Indulgências em 1.° de De­zembro de 1886 decidiu: “Seja permitido aos Padres Carmelitas pregarem ao povo que se pode crer pie­dosamente na assistência que esperam os Irmãos e confrades da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, a saber: que esta Senhora ajudará com suas orações contínuas e sufrágios e méritos e com uma proteção especial depois da sua morte (princi­palmente ao sábado, dia que lhe está consagrado pela Igreja), aos irmãos e confrades falecidos na carida­de, com a condição de que tenham levado durante a vida 0 escapulário, guardado a castidade de seu esta­do, rezado 0 Ofício Parvo, ou se não puderam rezá-lo, que hajam observado os jejuns da Igreja e abstido de carne nas quartas e sábados”.
Este decreto foi publicado em Roma em 15 de Fevereiro de 1615 pelo Santo Ofício. Ora, não é a Igreja confirmando a consoladora doutrina da assis­tência e proteção de Maria sobre o purgatório? Invo­quemos sempre a Mãe querida das pobres almas do purgatório. Sejamos devotos da Virgem do Carmo e do Santo Escapulário.

Exemplo
Maria liberta as santas almas nas suas festas
Diz o Venerável Dionizio Cartuziano que cada ano, nas grandes festas, a Mãe de Deus desce ao pur­gatório e liberta muitas almas do sofrimento, levan­do-as para a glória, sobretudo nas festas da Páscoa, do Natal e da Assunção. São Pedro Damião conta a propósito um caso que diz ter ouvido de um sacerdo­te fidedigno. Vou traduzi-lo do latim tal como o dei­xou escrito São Pedro Damião:
“Uma mulher em Roma entrou no dia da Assunção na basílica erigida em honra da Santíssima Virgem no Capitólio. Grande foi a sua surpresa ao ver ali uma das suas vizinhas, que um ano antes ha­via morrido. Não podendo chegar-se a ela pela multi­dão que enchia o templo, foi esperá-la ao sair da igre­ja numa das ruas estreitas da cidade, por onde havia de passar.
— Não és Marozia, minha vizinha, lhe pergun­tou, que morreu há cerca de um ano?
— Sim, sou eu mesma.
— E como estás aqui?
E Marozia confessou que havia sofrido muito no purgatório por umas faltas da meninice e acrescentou: ‘Hoje, porém a Rainha do mundo rogou por mim e tirou a mim e a muitas outras almas do lugar da ex­piação e é tão grande o número das almas libertadas, que sobrepuja aos habitantes de Roma. Eis porque visitamos, em ação de graças, os lugares consagrados à nossa gloriosa Rainha’.
E como prova da verdade da aparição, anunciou que a sua amiga dentro de um ano morreria também. O que de fato aconteceu”.
Santa Francisca Romana, favorecida com tan­tas visões, contemplou também, num dia da Assun­ção, o triunfo de Maria e uma multidão de almas liber­tadas do purgatório pela intercessão da Mãe de Mi­sericórdia. — (S. Petr. Damian. Opusc. XXXIV — Disput. de variis apparition, et miraculis. C. 3. P L. CXLV — 586-587.).

[1] Revel. Sanct. Birgitae — I, VI.
[2] Idem — Cap. X, I — Cap. XVI.
[3] Faber: “Tudo por Jesus” — C. IX — Purgatório, 5.
[4] Terrien, S. J. — La Mere de Dieu et La Mere de homes — Tom. II — Lib. X, cap. II.
[5] La Puente — Vida del P. Baltazar Alvares — C. 44.
[6] Eccl. XXXIV, 8 — “Glórias de Maria” — Santo Afonso — I. par. Cap. VIII.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

20 de Novembro: As almas mais abandonadas


AS ALMAS MAIS ABANDONADAS
Os esquecidos...

Como já dissemos, os mortos são muito esque­cidos. Os vivos os choram pouco tempo e depois os abandonam para sempre ao esquecimento das sepul­turas, e o que é mais doloroso, ao abandono e esqueci­mento no purgatório. Há no purgatório as almas que chamamos as mais abandonadas. Devem ser inume­ráveis. Por elas nem uma Santa Missa, nem uma ora­ção, nem um sufrágio sequer dos que elas amaram tanto neste mundo, e, quem sabe, encheram de be­nefícios e talvez estejam aproveitando o que deixa­ram aqui em herança e patrimônios. Que dura in­gratidão! Como sofrem estas pobres almas! O es­quecimento dói muito neste mundo. Que diremos no outro, no purgatório! Então, aquelas pobres al­mas parecem gemer, como o profeta Jó: Miseremini mei saltem vos amici mei, quia manus Domini teti­git me! Tende compaixão de mim, tende compaixão de mim, pelo menos vós, meus amigos, porque a mão de Deus me feriu!
Que gemido angustioso! Sim, a mão da Justiça de Deus fere as pobres almas para santificá-las e pu­rificá-las, e elas só dependem de nós. E quando se veem abandonadas dos seus, clamam: pelo menos vós, meus filhos, meus parentes, meus amigos, meus be­neficiados, vós que me amastes na terra!...
Em vão clamam tantas vezes! Não são ouvidas, porque seus amigos e parentes, preocupados com os prazeres, as honras, o dinheiro, as vaidades, nem querem pensar nos mortos, e nem se lembram num ato de fé, que podem seus parentes e seres muito caros estarem nas chamas expiatórias, a sofrer!
Daí o abandono das pobres almas. Há outras po­brezinhas que neste mundo nem deixaram amigos ou parentes. Não têm mesmo quem reze por elas. Po­bres criaturas que deixaram esta vida ignoradas. Quem se lembrará delas?
É verdade que nos desígnios misericordiosos de Deus, muitos sufrágios dos ricos Nosso Senhor apli­ca aos pobrezinhos, segundo dizia a Beata Ana Taigi, que numa revelação viu a alma de um cardeal sem receber no purgatório sufrágios de muitas Missas, porque Nosso Senhor as aplicava pelas almas dos po­brezinhos que morreram e ficaram abandonados. To­davia, não deixa de haver no purgatório almas abandonadas.
Em Fátima, Nossa Senhora pedia orações pelas almas abandonadas. Os pastorinhos rezavam: Meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, li­vrai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas.
É, sem dúvida, uma grande obra de caridade. Quantas graças não podemos alcançar por este ato de caridade tão agradável a Nosso Senhor!
Vamos, pois, tenhamos caridade, tenhamos pie­dade das pobres almas sofredoras. Deus não permi­tirá que sofra muito no purgatório quem neste mun­do socorreu os mortos. Portanto, é de nosso inte­resse sufragar os mortos. A devoção às almas é muito necessária! Milhões de fiéis devem sofrer no purgatório! Se ao invés de flores e túmulos pomposos e gastos inúteis, orassem e fizessem boas obras e oferecessem muitos a santa Missa pelos seus mortos, não haveria tantas pobres almas abandonadas!
Se ao invés de andarem à procura de centros de espiritismo para uma absurda comunicação com os mortos, tantos se lembrassem de que se iludem ou falam com o demônio iludidos e deixam seus parentes e amigos em maiores penas, ai, as pobres almas do purgatório não seriam almas abandonadas...
  
Por que ficam abandonadas?
Já o dissemos: por indiferença dos vivos e fal­ta de uma fé mais viva no dogma do purgatório. De­pois, temos o costume de canonizar muito depressa os nossos defuntos. Morreu? Só nos lembramos das virtudes e do bem feito pelo falecido. É uma carida­de, não há dúvida. Parce sepultis! Perdoemos aos mortos e veneremos a sua memória. Dos mortos, ou falar bem ou calar-se. Não recordemos suas misé­rias e pecados. Pobrezinhos, já deram contas a Nos­so Senhor e estão entregues à Divina Justiça. Repi­to, é muito edificante nunca censurar os mortos e ter deles boa memória. Todavia, saibamos que a Jus­tiça, a Santidade de Deus, costuma ver defeitos até nos Anjos, e, para entrar no céu, é mister uma gran­de santidade. Dizemos: era um santo, era uma san­ta, e... os vamos deixando sofrer no purgatório! Disto é que tinha medo São Francisco de Sales, quan­do recomendava muito que orassem por sua alma depois da morte.
Frederico Ozanam recomendava, também, que não o deixassem no purgatório, esquecido, sob o pretexto de que era um santo e tinha ido direito para o céu! Eis um dos motivos também do abandono de algumas almas. Cuidado, pois; não canonizemos tão depressa nossos mortos, ainda que nesta vida tenham dado provas de grande virtude. Desconhecemos os rigores da Divina Justiça!
Depois, há o contrário: o julgarmos que a pobre alma, tendo deixado este mundo sem sinais de arre­pendimento e talvez em lamentáveis condições de pecado e de escândalo, e talvez tenha se condenado e esteja no inferno. A Igreja nunca permitiu que se dissesse que alguém está certamente no inferno. É verdade que muitos se condenam, mas não podemos afirmar sem temeridade que alguém esteja conde­nado. Ignoramos os segredos da divina Misericórdia e o que se passa com uma alma na hora derradeira entre o último suspiro e a eternidade.
Não abandonemos uma só alma, por mais que pareça ter sido condenada. A Igreja proíbe, é verda­de, os sufrágios públicos pelos suicidas, pelos hereges, pelos pecadores públicos escandalosos, mas per­mite os sufrágios em particular e não reprova que se reze por estes infelizes, em particular. Ninguém conhece os segredos da Justiça e da Misericórdia Di­vinas! Eis porque ficam muitas almas abandonadas. Rezemos por elas. Talvez estejam no purgatório, e que purgatório horroroso não há de ser o dos que es­caparam da eterna condenação por um milagre da Divina Misericórdia!
Oremos pelas almas dos infelizes que deixaram esta vida talvez em péssimas condições, sem Sacra­mentos, em mortes repentinas. Só Deus sabe o des­tino destes infelizes! Pelo menos em particular, em segredo, entre nós e Deus, podemos sufragar estas pobres almas. Daí a necessidade da devoção às al­mas mais abandonadas. Ó, que para a nossa carida­de, para a nossa fé, não haja almas abandonadas!
Lembremo-nos de todas, socorramos esta classe das pobrezinhas que padecem no purgatório!

Os Santos e as almas abandonadas
Muitos Santos tiveram esta devoção. Santa Ca­tarina de Genova, Santa Catarina de Sena, Santo Afonso de Ligório, São Francisco de Sales e princi­palmente o grande apóstolo da caridade, São Vicente de Paulo. Este grande coração, cuja vida se passou a ajudar os abandonados e infelizes da terra, por este mesmo instinto divino de caridade se voltava para as almas abandonadas e sofredoras do purgatório. Era a sua grande devoção socorrer as almas mais abandonadas.
Uma piedosa serva de Deus, Irmã Maria Denise da Visitação, e que no século se chamava Mme. Martignat, pertencente a família da nobreza, ao invés de encomendar a Nosso Senhor a alma dos pobrezi­nhos, recomendava a alma dos ricos e dos grandes da terra. Estranharam isto e ela dava as razões: “São às vezes as almas mais abandonadas e as que tem mais necessidade de sufrágios. Passaram uma vida folgada, não fizeram muita penitência e sabe Deus que terrível purgatório não lhes está reserva­do, se conseguiram se salvar pela Divina Misericór­dia”. E tinha razão. Além do mais, depois das pom­pas fúnebres nas quais entra muita vaidade da fa­mília, às vezes segue-se um esquecimento e abando­no completo do pobre morto. Oremos muito pelas almas abandonadas, porque elas não deixarão de pe­dir por nós quando libertadas por nossos sufrágios. Para a Igreja nunca seremos almas abandonadas, é verdade.
A Igreja, nossa Mãe, só ela nunca esquece e cada dia sem cessar, em milhares de altares em toda ter­ra, lembra, ante a Hóstia divina, os mortos. — Me­mento! Memento! Lembrai-vos, Senhor, daqueles que nos precederam com o sinal da fé e agora descansam no sono da paz. Nós Vos suplicamos, Senhor, dignai- vos concedê-la a estes e a todos que descansam em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Que tocante oração! Só para a Igreja os mortos não são esquecidos.
Tanta lágrima, tantas flores, tantos suspiros em alguns dias e meses. Depois... o frio e duro esqueci­mento. Dura lei! É verdade, não havemos de chorar a vida toda os nossos mortos, e a esperança cristã nos diz, no Prefácio da Missa, dos defuntos que a vida para eles não se acaba, muda-se — Vita mutatur, non tollitur. Eles, os nossos mortos, vivem no seio de Deus. E a maioria deles expia nas chamas do purgatório. É uma verdade terrível e consoladora. E por isto nosso esquecimento é grave e cruel.
Que para nós não haja almas abandonadas! Es­tejam todas em nossa lembrança e em nossos sufrá­gios. Depois da morte veremos quanto nos foi pro­veitosa esta bela devoção e este ato generoso de caridade.
Imitemos os Santos, que acudiam generosamente as almas mais abandonadas.
  
Exemplo
Uma alma abandonada e salva por Maria
Conta Santo Afonso nas suas “Glórias de Ma­ria”, este exemplo que é a um tempo uma glorifica­ção da misericórdia da Mãe de Deus e uma prova do abandono em que pode ficar uma alma no purgatório.
Lê-se na vida de soror Catarina de Santo Agos­tinho, que havia no lugar em que morava esta serva de Deus uma mulher chamada Maria. A infeliz le­vara urna vida de pecados durante a mocidade. E já envelhecida, de tal forma se obstinara na sua perversidade, que fora expulsa pelos habitantes da cida­de e obrigada a viver numa gruta abandonada. Ai morreu, finalmente, sem os sacramentos e sem a as­sistência de ninguém. Sepultaram-na no campo, como um bruto qualquer. Soror Catarina costumava reco­mendar a Deus com grande devoção as almas de to­dos os falecidos. Mas, ao saber da terrível morte da pobre velha, não cuidou de rezar por ela, pensando, como todos os outros, que já estivesse condenada. Eis que, passados quatro anos, em certo dia se lhe apresentou diante uma alma do purgatório, que lhe dizia:
— Soror Catarina, que triste sorte é a minha! Tu encomendas a Deus as almas de todos os que mor­rem e só da minha alma não tens tido compaixão?
— Mas, quem és tu? Disse a serva de Deus.
— Eu sou, respondeu ela, aquela pobre Maria, que morreu na gruta.
— E como te salvaste? Replicou soror Ca­tarina.
— Sim, eu me salvei por misericórdia da Vir­gem Maria.
— E como?
— Quando eu me vi próxima à morte, vendo-me juntamente tão cheia de pecados e desamparada de todos, me voltei para a Mãe de Deus e lhe disse: Senhora, vós sois o refúgio dos de­samparados. Aqui estou neste estado, abandonada por todos. Vós sois a minha única esperança, só vós me podeis valer; tende piedade de mim. Então a SS. Virgem obteve-me a graça de eu poder fazer um ato de contrição; depois morri e fui salva. Além disso, esta minha Rainha alcançou-me a graça de ser abre­viada minha pena por sofrimentos mais intensos, po­rém menos demorados. Só necessito de algumas Mis­sas para me livrar mais depressa do purgatório. Ro­go-te que as faças celebrar. Em troca, prometo-te pedir sempre a Deus e à SS. Virgem por ti.
 Soror Catarina logo fez celebrar as missas. De­pois de poucos dias, lhe tornou a aparecer aquela al­ma mais resplandecente do que o sol e lhe disse: Ago­ra vou para o paraíso, cantar as misericórdias do Se­nhor e rogar por ti.
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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

19 de Novembro: Via Sacra e o Rosário


VIA SACRA E O ROSÁRIO

Para alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino Redentor, nos lembra o Sangue Precio­síssimo derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora pa­ra nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São Boaventura: “Se quereis crescer de virtu­de em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”. A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.
Na Vida da V. Maria d’Antigna se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou des­ta. Um dia, uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse, gemendo: “Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sa­cra por mim e pelas almas como antes?”. Neste mo­mento apareceu-lhe Nosso Senhor: “Filha, disse-lhe o Salvador, estou muito triste com tua negligência.
É preciso que saibas que a Via Sacra é muito pro­veitosa para os defuntos, e eis porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro mais co­nhecido em favor das almas”.
Desde esse dia, a serva de Deus se dedicou a es­te exercício e o propagou com muito zelo. Pelo me­nos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.
Um dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras. Era nas planícies do Languedoc. Um homem incrédulo zom­bou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas sofredoras.
Quantos prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da morte no pur­gatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrá­gio das pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não per­camos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Va­mos aliviá-las com nosso rosário bendito!

O De Profundis
Que é o De Profundis? É o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Pro­fundis. Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepul­tura, de novo reza o Salmo dos mortos. No cemité­rio e a caminho da sepultura, sem o De Profundis. Os fiéis, depois do Padre Nosso e da Ave Maria, re­zam o De Profundis. Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque assim come­ça: De profundis... Das profundezas... Não pare­ce um gemido saído do purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3 e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5 e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma espe­rança de perdão e de redenção copiosa (6 a 8).
Ora, estes gemidos, estas aspirações de reden­ção e de perdão copioso, este clamor doloroso coloca­mos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no abismo do purgatório. Não é verdadeira­mente próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De Profundis? Eis agora o texto do Sal­mo na tradução nova do Novo Saltério:
“Das profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi, Senhor, a minha voz!
Atendam os vossos ouvidos
O brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em Vós está o perdão dos pecados,
Para que sejais servido com reverência.
No Senhor ponho a minha esperança,
Espera minha alma na sua palavra.
Aguarda minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim, mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque no Senhor a misericórdia,
Nele a redenção abundante.
E Ele resgatará Israel
De todas as suas iniquidades”.
Eis o Salmo na nova tradução. Muita gente nos­sa o recita já de cor e em outras palavras. Não im­porta. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se lembrem de que é o Salmo dos defuntos, mui­to alívio pode trazer às benditas almas do purgatório.

Práticas devotas
Há muitos meios de sufragar os mortos. Esco­lhamos a segunda feira consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o pie­doso costume de se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos comungar, assistir a San­ta Missa nesse dia, enfim, fazermos por juntar mui­tos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Do­mingo, dia do Senhor, a terça, consagrada aos San­tos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao Santíssi­mo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em algumas paróquias e comu­nidades religiosas há piedosos exercícios neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles frequentados os estabelecidos onde não se fa­zem? Muitas pessoas entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estra­da, ou pelos campos pelas almas do purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito supersticioso. Velas acesas sem ora­ções pouco adiantam para os mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e ben­ta, é um sacramental.
Por que não acender então velas bentas? E re­zar mais ao invés de queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos que hou­vesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defun­tos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito mate­rial o belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressio­nante a multidão de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim repro­var tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu simbolismo e preferiria ver ace­sas velas bentas nas sepulturas e nos cemitérios.
Nosso povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas ve­zes degeneraram em abusos. Estão abolindo um cos­tume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove dias, a contar do dia da mor­te, todas as noites se reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das Almas em sufrágio do morto. Por que não conser­var esta bela tradição?
Enfim, já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!

Exemplo
Proteção das santas almas
Mons. Louvet, na sua obra “Le purgatoire d’ápres les revélations des Saints”, narra um fato pro­digioso da proteção das almas aos que a elas socor­rem com sufrágios.
Um padre italiano, Luiz Monaci, religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das al­mas. Em toda parte e em todas as ocasiões procura­va meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para roubar. Pelo caminho, o bom pa­dre não perdia tempo: ia recitando piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avis­tar de longe o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa hospedaria próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram curiosos:
— Que padre é este que anda acompanha­do pelas estradas de soldados que o protegem?
— Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem...
Os bandidos, furiosos, procuraram entrar em pa­lestra com o sacerdote e perguntaram-lhe do bata­lhão que o escoltava.
— Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me protejam.
— Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.
Os bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e confessaram-se humildemente.
O Pe. Rossignoli e outros autores contam inú­meros casos de proteção das santas almas em favor dos seus benfeitores.
Na verdade, mesmo nas coisas temporais os de­votos caridosos que nunca se esquecem de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção segura da divina Providência em to­das as circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande caridade.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

18 de Novembro. O ato heróico



O ATO HERÓICO
Que é o “ato heróico”?
“É o ato que consiste em oferecer à Divina Ma­jestade, em proveito das almas do purgatório, todas as obras satisfatórias que fizermos durante a vida e todos os sufrágios que forem aplicados pela nossa alma depois da nossa morte”.
Tal é a definição autêntica deste ato aprovado oficialmente pela Igreja e indulgenciado. Chama-se heróico, porque realmente exige uma abnegação de todos os tesouros que possamos lucrar com nossas boas obras e contém uma renúncia de todos os su­frágios que oferecerem por nossa alma depois da nos­sa morte, em favor das almas do purgatório. Este ato há de ser feito, para ser válido, em perpétuo. É irrevogável na intenção de quem o faz. Não obriga sob pena de pecado. Se alguém, a quem faltou gene­rosidade ou teve receio de se privar de sufrágios de­pois da morte, quis de novo adquirir para si as suas obras satisfatórias, renunciou ao voto heróico, não comete pecado nem mortal nem venial.
Pelo ato heróico não renunciamos o mérito de nossas boas obras, isto é, o que nos dá nesta vida um acréscimo da graça e a glória no paraíso. Este  me­recimento é nosso e não o podemos perder nem dá-lo aos outros. O ato heróico é uma obra muito meritó­ria, e este mérito de uma obra tão bela e heroica não o podemos perder. Só o mérito do ato heróico quanto não vale para nossa alma! Este mérito não o perde­mos. Depois desta obra satisfatória, tudo o mais que fizermos será das almas do purgatório. Desde que fazemos o ato heróico, todas as indulgências que lucramos são das almas. Tudo que de bom possamos fazer e ter mérito e lucrar alguma coisa será do pur­gatório, direito e propriedade das almas. É uma re­núncia total. Só a indulgência plenária da hora da morte não pode ser oferecida para as almas e será nossa, porque não é aplicável aos defuntos.
O ato heróico não impede de rezar nas próprias intenções e pelos mortos. Quando fazemos um ato de penitência e de oração, por exemplo, recitando um terço de joelhos, há neste ato, para falar uma lin­guagem teológica, três frutos diferentes: um fruto meritório que não o podemos perder é o mérito pes­soal de quem o pratica — o valor satisfatório do ato que é a penitência, o sacrifício feito, e este é para as almas é do ato heróico — e finalmente, uma força impetratória que é da oração como oração. A oração é uma força e Deus prometeu ouvi-la. O ato heróico não nos impede utilizar a força impetratória da oração.
Quem faz o ato heróico é como um religioso que fez o voto de pobreza: tudo o que ganha não lhe per­tence. A diferença é que o voto de pobreza obriga em consciência e o ato não. O abandono que a alma generosa faz em favor das almas do purgatório é fei­to, em geral, por todas e nunca em favor de uma ou outra alma. O ato heróico não impede que se ore por esta ou aquela alma em particular e se ofereça a Nosso Senhor muito sufrágio pelos nossos mortos queridos.
Não pode tudo isto ser feito na oferenda geral que fizermos a Deus?

Origem do ato heróico
O ato heróico em si, não é uma devoção nova na Igreja, como pretendem alguns. Em séculos passa­dos, muitos homens de grande santidade e grandes almas generosas ofereceram a Deus seus tesouros de obras satisfatórias em favor das pobres almas do purgatório. Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Santa Liduina e muitos outros santos tiveram esta generosidade. Santa Teresa fez este ato em favor de um mestre espiritual, o Provincial dos Carmelitas, falecido, e ela libertou-o do purgatório com suas ora­ções. Todavia, consideramos como fundador e apósto­lo do ato heróico o Pe. Gaspar Olinden, clérigo regu­lar dos Teatinos. Este sacerdote piedoso tinha uma devoção muito grande pelo Purgatório e sua grande preocupação e todo seu zelo ardente o empregava em favor das pobres almas. Lembrou-se deste ato heróico, desta oferenda generosa a Deus em favor do purgatório e apresentou-o ao Santo Padre Bento XIII, que não só o aprovou, mas o enriqueceu de indulgên­cias e privilégios. Depois, todos os Pontífices confir­maram a aprovação e estimularam e abençoaram tão belo ato.
Bento XIII, não contente de aprovar o ato heróico, ainda fez publicamente, e do púlpito, a entre­ga de todos os seus bens espirituais pelos mortos, como se pode ver nos sessenta sermões que pregou sobre este assunto.
Naquela época viram-se Ordens inteiras recomen­darem o ato heróico. O Superior Geral da Companhia de Jesus mandou recomendá-lo a todos os seus súditos. O Pe. Ribadanera piedoso hagiógrafo propa­gou muito o ato heróico e o Pe. Nierenberg. O Pe. de Montroy, no leito de morte, não só deu às almas o mérito de todas as obras satisfatórias feitas em vida, mas a sua caridade se estendeu além. Fez um tes­tamento sublime, diz o Pe. Faber “que não sei de ou­tro igual”: cedeu sem exceção para as almas do pur­gatório todos os méritos, orações, Missas, indulgên­cias que a Companhia de Jesus costuma aplicar aos seus membros defuntos, todos os sufrágios que seus amigos pudessem oferecer por ele e tudo enfim, pe­las almas.
Há muitos exemplos admiráveis de atos heróicos pelo purgatório.
Finalmente, nos últimos tempos Nosso Senhor suscitou uma grande alma devotíssima do purgató­rio e fundadora de uma Congregação religiosa espe­cialmente destinada a sufragar as santas almas e entregue toda a serviço do purgatório num ato heróico de caridade. Foi a Madre Maria da Providência. Des­de pequenina, esta serva de Deus sentia grande com­paixão pelas almas sofredoras. Um dia a encontra­ram muito pensativa e grave em meio dos brinque­dos da criançada. — Que esta pensando? — Sabem no que penso? Disse Eugênia (tal era o seu nome no século), eu penso numa prisão de fogo de onde não se pode sair e da qual com uma palavra se podem tirar os prisioneiros.

As companheiras a olharam surpreendidas. “Es­ta prisão de fogo é o purgatório e com uma palavra, com a oração, podemos libertar as almas”.
Mais tarde foi a fundadora de uma Congregação, única na Igreja, cujos membros se oferecem a Deus pelas almas e vivem o voto heróico.
Eis como se desenvolveu, nos últimos tempos, a bela prática do ato heróico.

Vantagens do ato heróico
Um ato tão generoso e que nos despoja de tan­tas riquezas e nos deixa até sem sufrágios depois da morte, poderá ter vantagens, lucra muito, porven­tura, quem o fez? Sim, mil vezes sim! É um engano pensar que se perde muito com o ato heróico. Ao invés, lucra-se mil vezes mais. Deus se deixa vencer em generosidade? Não há gratidão nas almas salvas por tão grande socorro?
O ato heróico é um ato cheio de mérito, é um ato perfeito que nos faz esquecer de nós mesmos para cuidar de nossos irmãos e da glória de Deus. Quem faz o ato heróico aumenta por este ato seu grau de graça neste mundo e o grau de gloria no outro. E o ato de caridade que pratica, não há de atrair a mise­ricórdia daquele Senhor que prometeu cem por um e o reino do céu ao menor bem que se faz neste mun­do por amor de Deus? “A caridade cobre a multidão dos pecados”, diz a Escritura, e este gesto de cari­dade heroica não há de obter perdão e descontar mui­tos pecados de quem o faz? E a indulgência plenária que se ganha com o ato heróico? E a indulgência ple­nária da hora da morte que nos pertence e não pode­mos aplicá-la para ninguém? E Nosso Senhor se dei­xará vencer em generosidade? Não tenha receio de sair prejudicado quem faz o ato heróico em favor das almas do purgatório. Este heroísmo de caridade será recompensado com superabundância de graças neste mundo e de glória no outro. Não nos preocupemos porque não podemos dispor de nossos tesouros em fa­vor de nossos mortos queridos como bem entendemos. Nosso Senhor cuidará deles muito mais, e nossa ca­ridade lhes há de ser um refrigério tão grande no purgatório e talvez concorra para libertá-los do pur­gatório muito mais depressa do que se estivessem dependendo de nossos pobres sufrágios muita vez até esquecidos.
E para terminar, vejamos as condições e as in­dulgências do ato heróico:
Para fazer o ato heróico é mister consultar o diretor espiritual ou um prudente confessor, procurar conhecer bem o que vai fazer e saber a responsabili­dade que assume. Não se deve fazê-lo levianamente e num momento de fervor irrefletido. É muito sé­rio e é preciso lembrar que é heróico! Não é pres­crita nenhuma fórmula especial. Poder-se-ia usar uma como esta: “Para vossa glória, ó meu Deus, e para imitar o melhor possível o Coração generoso de Jesus, meu Redentor, a fim de mostrar também minha dedicação para com a Santíssima Virgem Ma­ria, minha Mãe e Mãe das almas do purgatório, en­trego em suas mãos todas as minhas obras satisfa­tórias assim como o fruto de todas as que, porven­tura, se venham a fazer por minha intenção depois de minha morte, a fim de que Ela faça a aplicação às almas do purgatório segundo a sua sabedoria e como melhor lhe aprouver”. Quem faz o ato heróico pode lucrar as seguintes indulgências, aplicáveis aos defuntos: uma indulgência plenária cada vez que se aproxima da Comunhão nas condições do costume; vi­sita à igreja e oração pelo Papa. Outra indulgência plenária cada segunda-feira, ao ouvir Missa pelos mortos. Os sacerdotes que fizerem o ato heróico gozam do altar privilegiado pessoal em todos os dias do ano (P. P. O. 547.).


Exemplo

Um voto heróico
Uma donzela chamada Gertrudes, acostumara-se desde os mais tenros anos, a oferecer por inten­ção das almas do purgatório todas as suas boas obras. Era tão bem aceita esta devota prática no purgató­rio e no céu, que muitas vezes, o Salvador se com­prazia em designar-lhe as almas mais necessitadas. Estas, libertadas pela sua piedosa caridade, se lhe mostravam gloriosas, para lhe agradecerem e prometiam-lhe não esquecê-la no paraíso. Passava a vi­da neste santo exercício e, cheia de confiança, via em paz aproximar-se a morte, quando o infernal ini­migo, que de tudo sabe fazer ocasião para tentar os homens, começou a representar-lhe que ela se havia despojado de tudo e de todo mérito satisfatório de cada boa obra e ia cair no purgatório para nele ex­piar em longas penas todas as suas culpas.
Este tormento de espírito a lançara em tal de­solação, que seu Esposo celeste dignou-se de vir con­solá-la. “Por que, disse ele, ó Gertrudes, estás tão triste e pensativa? Tu que outrora gozavas da mais perfeita serenidade?”. Ah! Senhor, respondeu ela, em que deplorável situação me encontro! Vede, a morte se aproxima, achando-me eu privada da satisfação das minhas boas obras, que apliquei pelos defuntos; com que poderei pagar a dívida que contraí para com a divina Justiça? Replicou-lhe com ternura o Se­nhor: “Não temas, ó querida minha, porque ao con­trário, aumentastes pela tua caridade a soma de teus merecimentos, e não só tens bastantes para expiares as tuas leves culpas, mas adquiristes altíssimo grau de glória na bem-aventurança eterna. É assim que minha clemência reconhecerá com uma generosa recompensa, que cedo virás receber no paraíso a tua dedicação pelos defuntos”.
Desapareceu a estas palavras, e a alma de Gertrudes foi incendiada de um novo fervor e de um ardente desejo de socorrer as almas dos defuntos.
Enchamo-nos também de zelo e caridade para com essas almas, que rico galardão está prometido nos céus aos nossos esforços (Dyon, Cart. de nonviss. apud P. Mart. de Rox de statu animarum, cap. 20.).

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

17 de Novembro: A esmola


A ESMOLA
O sufrágio da esmola
Um socorro aos mortos dos mais valiosos é a esmola. Não é mister lembrar aqui o valor da cari­dade. É auxílio ao pobre na terra, alívio aos mortos nas chamas expiadoras do purgatório. Há tanta mi­séria a socorrer no mundo! Por que não fazermos do dinheiro, que perde tanta gente, um meio de sal­vação para nossa alma, e alívio do pobre e alívio do Purgatório? Não é conselho de Nosso Senhor que aproveitemos e façamos da riqueza meio de salva­ção empregando-a nas boas obras como os pecadores a empregam para o mal?

Socorramos o pobre em sufrágio das almas do pur­gatório.
Contam piedosos autores esta parábola tão ex­pressiva: Um homem tinha três amigos. Dois lhe eram muito queridos. O terceiro nem por isso. Um dia fora acusado e levado ao Tribunal da Justiça. Chama os amigos para o defender.
O primeiro escusou-se. Tinha negócios e famí­lia, era impossível!
O segundo foi até à porta do Tribunal e o deixou.
O terceiro o acompanha sempre fiel, defende-o com ardor, dá testemunho de sua inocência e salva o acusado do castigo.
Assim, o homem tem neste mundo três amigos: o dinheiro, os parentes e as boas obras. O dinheiro o abandona na morte, quando há de comparecer no Tribunal da Justiça de Deus. Os parentes o levam até a beira da sepultura e o deixam; e o esquecem de­pois. O terceiro amigo — as boas obras, a caridade praticada, as obras de misericórdia, tudo quanto o homem fez de bom neste mundo, só isto o acompa­nha e o defende no Tribunal da Justiça de Deus.
Pois bem. Neste mundo toda sorte de boas obras se­jam os nossos amigos. Tudo o mais falha. Diz São João que as obras do homem o hão de seguir depois da morte: Opera enim illorum sequntum illos.
Socorramos o pobre em sufrágio dos mortos. Praticaremos dupla obra de caridade. E tenhamos a certeza de que Aquele Deus de Misericórdia não dei­xará que se perca nossa pobre alma no Tribunal do Dia do Juízo.
Eis porque rezar pelos mortos, socorrer as almas do purgatório na prática da caridade pela esmola, é das maiores riquezas do cristão neste mundo.
A esmola, disse o Anjo a Tobias, salva o ho­mem da morte, apaga os pecados e faz achar a graça diante de Deus[1]. O Livro Eclesiástico ensina que “assim como a água extingue o fogo mais ardente, assim a esmola apaga o pecado"[2].
Sim, e a esmola apaga também o fogo do pur­gatório.
Dai esmola ao pobre em sufrágio das benditas almas. As lágrimas que vossas esmolas enxugarem, o alívio que tiverdes dado aos que padecem fome, sede e frio, serão alívio no purgatório para as almas sofredoras, talvez almas de vossos entes queridos. É uma dupla caridade socorrer os pobres por amor das santas almas.

A esmola que salva
São João Crisóstomo faz este belo e poético elo­gio da esmola: “A esmola, diz ele, é uma celeste in­dústria e a mais hábil de todas. Protege os que a exercem. É amiga de Deus e está ao lado do Senhor e alcança facilmente a graça aos que ela ama. Que­bra os ferros, dissipa as trevas, extingue o fogo... Diante dela se abrem com toda segurança as portas do reino do céu[3]”. Como se aplicam bem as pa­lavras do eloquente e Santo Doutor à esmola dada em sufrágio para alívio e libertação das almas do purga­tório! Nossa esmola ao pobre vai quebrar as cadeias de ferro e fogo que retém no purgatório as pobres almas, dissipa-lhes as trevas horríveis da ausência e da separação do Bem Infinito que tanto as faz so­frer naquele cárcere medonho. E diante da esmola, quantas vezes não se abrem com segurança as portas do reino do céu às pobres cativas! Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão miseri­córdia, diz Nosso Senhor no evangelho.
Sim, sejamos agora misericordiosos para com os infelizes, os desgraçados, os pobres, e alcançaremos misericórdia para nós e para as almas do purgatório. Diz o Livro de Tobias: “As esmola livra de todo pe­cado e da morte, e não deixará a alma descer nas trevas"[4]. Sim, a esmola nos livrará da morte eterna, e, se nesta vida tivermos aplicado nossos recursos em socorrer os pobrezinhos, livraremos nossa alma da eterna morte, das trevas do inferno, e livraremos as almas das trevas do purgatório.

Pelas almas sofredoras tenhamos compaixão dos pobres.
Um dia, em Saint Lazare, São Vicente de Paulo ia dar a bênção à mesa frugal da comunidade dos seus padres, quando de repente sentiu-se profunda­mente comovido e as lágrimas lhe corriam pelas fa­ces. Soluçava. O seu pensamento sentia-se agora transportado para a Lorreine, onde o povo tinha fo­me como nas províncias devastadas pela guerra. Ah! Dizia o Santo, lá há muita fome, muita fome...
“Ó, si nós soubéssemos meditar e ter compaixão daquelas pobres almas que têm fome de Deus! E Je­sus, que na pessoa do pobre tem fome e sede, como nos diz no Evangelho, não sentirá também a fome das benditas almas? Tive fome e me destes de comer, estive doente e me visitastes. Jesus nos fala assim nas almas do purgatório[5]”.
“A esmola, escreveu o ilustrado Henri Bremond[6], é, no pensamento da Igreja, um dos ele­mentos essenciais do culto dos mortos. Obra de cari­dade e de sacrifício eucarístico, o ágape primitivo reunia estes dois elementos. Muito antes de ter sido abolido, o ágape era uma espécie de reunião de bene­ficência para socorrer os pobres, visando obter por esta obra o alívio e a libertação das almas do purgatório. Os Santos Padres falam sempre nisto. Na Ida­de Média, esta idéia de socorrer os pobres para alívio das almas do purgatório teve uma influência decisi­va na organização das obras de caridade”.

Dupla caridade
Podemos dizer: dar esmola em sufrágio e para alívio e libertação das almas do purgatório é dar duas vezes, é dupla esmola. Socorre os vivos e os mortos. Os amigos das santas almas não deixam esquecido este meio poderoso e meritório de praticar a caridade.
São Pedro Damião conta que, numa festa da Assunção de Maria, um homem de Deus teve uma visão. Viu na igreja a Santíssima Virgem num tro­no, cercada de Anjos e de Santos. Diante dela apa­rece uma pobre mulher em andrajos, em estado de grande miséria, mas trazendo sobre os ombros uma capa de seda e pedrarias ricas. Ajoelhou-se a po­brezinha diante da Virgem e entre lágrimas lhe disse: “Ó Mãe de misericórdia, eu vos suplico, tende pie­dade de João Patrizzi que acaba de morrer e sofre no purgatório. Sabei, ó Mãe de misericórdia, que eu sou aquela mendiga que um dia pedia esmola na por­ta da vossa basílica e tiritava de frio. João, a quem pedi uma esmola, privou-se da sua capa para me co­brir”. Ao ouvir isto, a Virgem Santíssima sorriu, cheia de bondade, e disse: “O homem pelo qual pedes misericórdia estava condenado a sofrer muito tempo na expiação, mas já que ele praticou este ato de ca­ridade, e além disto sempre teve muita devoção para comigo, adornou meus altares, eu quero usar de bondade para com ele”. E Patrizzi foi logo libertado do purgatório[7].
Assim fará para conosco a Mãe de Deus, se jun­tarmos a sua devoção bem fervorosa à caridade para com os infelizes. É muito grande o mérito da esmola.
São João Crisóstomo aconselhava, numa exorta­ção, uma maneira de aliviar o sofrimento da sauda­de dos mortos, de um filho querido que a morte arre­batou, de um ente, enfim, que vimos partir para a eternidade, deixando-nos saudosos. Diz o Santo Dou­tor: “Perdeste um filho querido e não sabeis o que fazer para testemunhar a vossa dor. Quereis ser útil ainda ao vosso filho? Nada mais simples. Assiste a um coerdeiro pobre. Tomai um pobre para socor­rer. Dai aos pobres o que desejaríeis dar ao morto querido que chorais. Não tereis perdido o herdeiro do céu e arranjareis um coerdeiro na terra, que é o pobre. Em vez de uns miseráveis bens temporais que havíeis de deixar para um filho, lhe dareis a he­rança da posse de Deus no céu nos bens eternos. Eis como podeis socorrer vossos entes queridos muito mais do que se estivessem neste mundo[8]”.
Ordena a admirável e santa Regra de São Bento que quando morra um monge, durante trinta dias se ofereçam por sua alma o Santo Sacrifício e a ração de alimento que lhe pertencia seja dada aos pobres.
Que bela tradição! Sejamos caridosos para com os pobres da terra o apliquemos o mérito desta cari­dade para o alívio e libertação das santas almas so­fredoras do purgatório. Pratiquemos a dupla caridade.
  
Exemplo
Esmola pelas almas
Cristovão Sandoval, ainda menino, era devotís­simo das santas almas do purgatório. Procurava so­corrê-las de todos os modos. Privava-se até do ne­cessário para sufragar as pobres almas sofredoras. Quando estudava na Universidade de Louvain, aconteceu que as cartas da Espanha demoravam a che­gar com recursos e o pobre estudante ficou reduzido a uma extrema miséria sem ter do que se sustentar. Sempre que lhe pediam alguma esmola em nome das almas do purgatório, nunca a negava. Doía-lhe o co­ração ver pobres rogando: uma esmola por amor das santas almas do purgatório! Assim amargurado en­trou numa igreja pensando: não posso socorrer as almas do purgatório com minhas esmolas, mas posso rezar por elas. Quero ajudá-las com minhas orações. Acabou de rezar e ao sair da igreja um moço muito educado e de ar nobre o veio cumprimentar, dizendo estar de volta da Espanha, e lhe entregava uma gran­de soma de dinheiro, porque quando voltasse à Es­panha, seu pai lhe havia de pagar. Convidou-o para um almoço. Sandoval aceitou o generoso convite, pois até àquela hora nada havia comido. Depois, o moço desapareceu. Nunca mais Sandoval chegou a saber quem era aquele moço. Fez várias pesquisas, mas tu­do em vão. Um dia, contou o fato ao Papa Clemen­te VIII. O Santo Padre lhe disse: Meu filho, é pre­ciso publicar muito este fato para mostrar como Deus recompensa os que dão esmolas em nome das almas do purgatório e sufraga os mortos com atos de ca­ridade.
Uma mulher em Nápoles, conta Rossingnoli (91.ª Maravilha), chegou a uma extrema miséria, porque o marido fora preso por muitas dívidas. Os filhos passavam fome. Recorreu a um grande rico da cida­de e pediu-lhe uma esmola. Recebeu uma moeda de prata. Entrou numa igreja e pôs-se a considerar a triste situação em que se encontrava. Recorreu às almas do purgatório, procurando sufragá-las com fervorosas preces. Depois, tomou a moeda de prata, im­portância exata de uma espórtula de Missa, e mandou celebrar uma santa Missa pelas almas. Sai da igreja muito consolada e cheia de confiança. Encontra na rua logo um velho muito pálido que lhe quer falar.
 — Coragem, minha senhora, diz-lhe o desconhe­cido, peço o favor de me levar esta carta a Fulano, tal rua, número tal. É um dos homens mais conhecidos e ricos do lugar.
A senhora executou logo o pedido. O jovem des­tinatário tomou a carta, abriu-a e empalideceu:
— A letra de meu pai... E meu pai já morto!
Indagou muito e veio a concluir que aquela po­bre viúva havia salvo do purgatório a alma do seu pai querido. A carta dizia assim: “Meu filho, teu pai acaba de ser libertado do purgatório graças a uma santa Missa mandada celebrar por esta senhora, por­tadora desta. Está ela numa extrema miséria e eu a recomendo à tua gratidão”.
Grande foi a comoção do jovem. Após acalmar­-se disse à pobre: “Minha senhora, acaba de fazer uma grande obra de caridade e lhe devo uma eterna gratidão: libertou meu pai do purgatório com uma Missa, esta manhã... Doravante eu me encarrego de protegê-la”. 
E assim o fez. — (Carfora — For­tuna hominis. Lib. I — Rossignoli, 91.ª Maravilha).

[1] Tob. XVV, 9.
[2] Eccl. II, 33.
[3] S. —. Cripost. Hom. XXXII — Epist. ad Hebreus
[4] Tobias — IV, 8, 12.
[5] Rousic — Le Purgatoire — C. XXIV
[6] Bremond — Le Correspondent — 11, 916 — Priere pour les morts.
[7] S. Petr. Dami. Opus. 34 c. 4.
[8] Crepost — Sermo de fide ressuctionis.

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Fonte:
Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!
30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão
Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

16 de Novembro: As indulgências

AS INDULGÊNCIAS
Que são as indulgências?

Entende-se por indulgência a remissão ou per­dão das penas temporais devidas a Deus pelos peca­dos já perdoados em quanto à culpa, remissão con­cedida pela Igreja pela autoridade eclesiástica fora do Sacramento da Penitência.
As penas eternas são perdoadas ao pecador que faz penitência, mas nem sempre as penas temporais. Há necessidade de fazer penitência e sofrer um pou­co em reparação dos pecados cometidos. Daí a pena temporal pelos pecados. Ora, a Igreja que recebeu o poder de perdoar a pena eterna, muito mais o tem para remir da pena temporal. “Tudo o que ligares na terra, será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu”, disse Jesus a Pedro. Na Igreja primitiva os fiéis recebiam grandes penitências pelos seus pecados acusados. Havia pe­nitências públicas bem duras e longas. Jejuns a pão e água por vários dias na semana e por alguns anos. Em crimes mais graves como o homicídio, por exem­plo, o penitente fazia doze e mais anos de penitên­cias públicas, algumas das quais bem humilhantes. Nas faltas mais leves, o jejum de quarenta dias (uma quarentena). Depois, com o tempo, atendendo à fraqueza humana e aos tempos, a Igreja permitiu que as penitências públicas fossem substituídas por es­molas, cruzadas, peregrinações e outras obras que ser­viam para expiação dos pecados. As penas canôni­cas foram substituídas pelas indulgências concedi­das aos que fizessem algumas boas obras ou atos de piedade. Quando eram perdoadas todas as penitên­cias, era a indulgência plenária, e quando uma par­te, a indulgência parcial. Assim, quando se diz uma indulgência plenária quer dizer que o fiel lucra um perdão de todas as penitências que deveria fazer pe­los seus pecados e os castigos que deveriam merecer suas faltas com penas temporais. Uma indulgência de cem dias, por exemplo, se entende que deveria fazer cem dias de penitências por seus pecados e com uma oração recitada piedosamente ou outra boa obra po­de satisfazer esta dívida que tem para com Deus.
A indulgência é uma espécie de absolvição das penas temporais, é uma anistia do Soberano Juiz de nossas almas. Não se poderia dizer propriamente que a indulgência é a remissão das penas canônicas, mas uma remissão verdadeira da pena com que Deus castiga o pecado. Não dispensa a penitência e nem a confissão humilde de nossos pecados.
Há muita noção errada sobre as indulgências. Assim, muita gente pensa que ganhar indulgências, por exemplo, de trezentos dias é perdoar trezentos dias de purgatório, ou uma indulgência plenária im­porta numa remissão total das chamas expiadoras. Também não significa que ao ganhar duzentos ou quinhentos dias de indulgências pelas almas do pur­gatório lhes aliviamos outros tantos dias de sofrimento. Esta medida do tempo da expiação é o segre­do de Deus e depende muito do fervor e das disposi­ções de quem lucra as indulgências.
A Igreja, pelos méritos superabundantes de Jesus Cristo e os méritos de Maria e dos Santos, e pelo tesouro das boas obras dos justos, aplica para o bem dos fiéis neste mundo e para alivio das almas do purgatório as indulgências.

Vantagens das indulgências
Todo pecado trás como consequência duas coi­sas: a culpa e a pena. Pela verdadeira contrição e pelo sacramento da Penitência, ficam perdoadas as culpas e a pena eterna. Deus nos perdoa e nos livra da condenação eterna. Todavia, fica-nos o dever da penitência e da reparação do mal que cometemos. Fica uma dívida que devemos pagar à Justiça de Deus, neste mundo ou no purgatório, se a dor destes pecados não foi tão grande que tudo tivesse remido. Pelas indulgências podemos diminuir e até pagar toda esta pena temporal. Tiramos do tesouro da Igre­ja, formado pelo Sangue de Cristo, os méritos, e de Maria e dos Justos, o que precisamos para o paga­mento de nossas enormes dívidas. É o que demons­tram os teólogos.

A Igreja, todavia, nunca ensinou que as indul­gências nos dispensassem de fazer penitência e levar a cruz da mortificação. Com umas poucas orações e boas obras, quantas graças não podemos obter para nós e para os fiéis defuntos?
Três coisas são necessárias para se ganharem indulgências: o estado de graça — em estado de pe­cado grave não se lucram indulgências. A intenção de lucrar as mesmas. Para isto basta a intenção vir­tual e podemos já fazer pela manhã a intenção de lucrarmos todas as indulgências anexas às orações e boas obras que praticarmos naquele dia. E, finalmente, é mister praticar as obras prescritas, por exemplo, rezar tais e tais orações, visitas às igrejas, etc. Ora, já pelas suas condições vemos que as indulgências são de grande vantagem para quem as deseja lucrar, pois obriga-o a levar uma vida de es­tado de graça e procurar se aperfeiçoar sempre para poder lucrá-las com mais segurança. O estímulo das indulgências leva os fiéis a muitas obras meritórias. Para lucrar a indulgência plenária é mister a con­fissão e a Santa Comunhão e orar nas intenções do Soberano Pontífice, além das orações ou obras pres­critas para lucrá-las. Não é um estímulo para a prá­tica dos Sacramentos, e para que tenhamos sempre a consciência limpa? Não percamos o tesouro das in­dulgências que é riquíssimo na Santa Igreja. A con­dição da confissão e comunhão para lucrar a indul­gência plenária se satisfaz com a confissão semanal ou de quinze em quinze dias, excetuadas as indul­gências do Jubileu do Ano Santo, que exigem uma confissão e comunhão especiais para lucrá-las.
O zelo pelas indulgências leva o cristão a ter sempre seu coração livre do pecado e fazer penitên­cia, porque bem sabe, que quanto mais pura for nos­sa alma diante de Deus, tanto mais méritos pode ob­ter e salvar muitas almas do purgatório.
E demais, quantas penitências não deveríamos fazer por tantos e tão grandes pecados que comete­mos em nossa vida! Aproveitemos o tesouro das in­dulgências que irão descontando nossas enormes dí­vidas, e além do mais, socorrendo tantas pobres al­mas sofredoras no purgatório. Seremos muito bem recompensados por este grande ato de caridade. Quantas vantagens, pois, nas indulgências! E como se perdem e se desprezam tamanhos tesouros!

Indulgências pelos fiéis defuntos
Podemos lucrar indulgências pelos nossos mor­tos? — Diz Santo Tomás de Aquino com a sua autoridade de Doutor da Igreja: “Não há razão algu­ma para que a Igreja, que pode transferir os méritos dos vivos, não possa também transferi-los aos mor­tos, pois Santo Agostinho ensina que as almas dos que morreram na amizade de Deus não são separa­das da Igreja”.
Muito antes de Santo Tomás o Concilio de Arraz ensinou esta doutrina: “É preciso não acreditar que a penitência aproveita só aos vivos e não aos defun­tos”. Muitos doutores da Igreja, como São Gregório Magno nos seus Diálogos, e outros mais antigos, en­sinam esta consoladora doutrina que vem dos primeiros séculos da Igreja.
As indulgências podem, pois, servir aos vivos e aos mortos. Em linguagem teológica podem ser apli­cadas aos vivos e aos defuntos. Santa Madalena de Pazzis aproveitava quantas indulgências podia lu­crar pelos defuntos. Deus a recompensou com uma miraculosa visão. Uma das suas irmãs, muito vir­tuosa, acabava de falecer e fôra condenada ao pur­gatório. Santa Madalena se pôs a rezar e ganhar indulgências pela defunta. Havia quinze horas que a morta havia comparecido diante de Deus, quando apareceu à Santa e lhe disse, toda bela e resplande­cente: Adeus, ó minha irmã querida!
“Ó alma feliz, exclama Santa Madalena, como é grande a vossa glória! Como foi curto vosso purga­tório! Vossos restos mortais ainda não foram sepul­tados e já entrastes na eterna pátria!”.
Nosso Senhor revelou à grande Santa que esta alma deveria ter um longo purgatório, mas se livrou em tão pouco tempo pelas indulgências que ela ha­via lucrado pela defunta.

Conta-se na Vida de Santa Teresa, a Matriarca do Carmelo, um fato consolador. Uma Carmelita de uma vida muito simples e que em nada se distinguia das outras, veio a falecer, e a Santa a viu subir ao céu com grande glória pouco tempo depois da morte, de sorte que teria tido talvez um brevíssimo purga­tório. E como Teresa revelasse grande surpresa com isto, Nosso Senhor lhe disse que aquela religiosa sempre teve grande respeito pelas indulgências da Santa Igreja e durante toda vida sempre se esforçou por ganhar o maior número que lhe foi passível. E isto fez com que tivesse pago a maior parte das suas dívidas para com a Divina Justiça.
Aliviemos os sofrimentos de nossos mortos que­ridos, procurando ganhar por eles muitas e numero­sas indulgências. Grande parte deste tesouro é apli­cável às almas. Deus aceita sempre esta satisfação dos vivos pelos mortos, diz o grande teólogo Suarez. Talvez haja para nós dificuldades e obstáculos para lucrarmos indulgências, porém Deus sempre as acei­ta pelas almas do purgatório.
O Santo Rosário, a Via Sacra, que riqueza de indulgências para os mortos nos oferecem estas duas práticas piedosas! Recitemos jaculatórias indulgen­ciadas. É tão fácil repeti-las em toda parte e a toda hora! Duplo proveito: nossa união com Deus e alívio das pobres almas. Vamos, pois, cheios de generosi­dade aproveitar o tesouro das indulgências em favor do purgatório!

Exemplo
O que vale um Requiem
Autores antigos como Dorlandus, na Crônica Cartusiana, e Teófilo Regnaud, em Heter Spirituale — Pars II, Sect. II — narram este fato que por aí às vezes tem sofrido variantes acrescentadas pelo povo:
Um rico senhor, de uma fortuna bem considerável, deixou uma herança para o filho, único herdei­ro. Este, muito piedoso, lembrou-se logo da alma do pai e quis sufragá-la generosamente. Logo após o enterro do pai, vai a um mosteiro e oferece uma gran­de soma ao Prior, rogando muitas orações pelo mor­to querido. No mesmo instante, os monges se reuniram e o Prior lhes disse: “Meus irmãos, acaba do falecer e foi hoje sepultado um grande benfeitor des­te convento. Oremos por sua alma”. Imediatamente os monges entoaram um “Requiescat in pace”. E o Superior responde: Amen. Logo depois se retiram to­dos do coro.
O moço, filho do benfeitor, admirou-se de tão pouca oração, após ter oferecido tão grande soma. “Tão pouco, diz ele ao Prior, por tão generosa ofer­ta?” O Prior, inspirado por Deus, quis dar uma lição ao jovem e mostrar-lhe o valor da oração. Mandou que os religiosos escrevessem todos num papel estas palavras que rezaram: Requiescat in pace! E depois lho trouxessem. Mandou chamar ao jovem e pôs os papeis num prato de balança, e noutro prato a soma de dinheiro em moedas pesadas, oferecidas pelo ben­feitor. Ó prodígio! No mesmo instante o prato da balança pendeu para o lado do papel, com admiração geral. Diante disto, reconheceram todos o quanto vale um Requiescat in pace pelos defuntos. O moço se retirou contente e convencido de que não se po­dem comparar os bens materiais com os espirituais.

A Bem-aventurada Maria de Quito foi arrebata­da em êxtase e viu uma mesa cheia de pedrarias e jóias e moedas de ouro. Uma voz lhe dizia: Estas são as riquezas oferecidas a todos. Cada um pode delas se servir como queira. Era uma figura das riquezas espirituais das indulgências que todos podemos juntar e aproveitá-las para nossa alma e principalmente em favor das pobres almas do purgatório.