18 de Novembro. O ato heróico



O ATO HERÓICO
Que é o “ato heróico”?
“É o ato que consiste em oferecer à Divina Ma­jestade, em proveito das almas do purgatório, todas as obras satisfatórias que fizermos durante a vida e todos os sufrágios que forem aplicados pela nossa alma depois da nossa morte”.
Tal é a definição autêntica deste ato aprovado oficialmente pela Igreja e indulgenciado. Chama-se heróico, porque realmente exige uma abnegação de todos os tesouros que possamos lucrar com nossas boas obras e contém uma renúncia de todos os su­frágios que oferecerem por nossa alma depois da nos­sa morte, em favor das almas do purgatório. Este ato há de ser feito, para ser válido, em perpétuo. É irrevogável na intenção de quem o faz. Não obriga sob pena de pecado. Se alguém, a quem faltou gene­rosidade ou teve receio de se privar de sufrágios de­pois da morte, quis de novo adquirir para si as suas obras satisfatórias, renunciou ao voto heróico, não comete pecado nem mortal nem venial.
Pelo ato heróico não renunciamos o mérito de nossas boas obras, isto é, o que nos dá nesta vida um acréscimo da graça e a glória no paraíso. Este  me­recimento é nosso e não o podemos perder nem dá-lo aos outros. O ato heróico é uma obra muito meritó­ria, e este mérito de uma obra tão bela e heroica não o podemos perder. Só o mérito do ato heróico quanto não vale para nossa alma! Este mérito não o perde­mos. Depois desta obra satisfatória, tudo o mais que fizermos será das almas do purgatório. Desde que fazemos o ato heróico, todas as indulgências que lucramos são das almas. Tudo que de bom possamos fazer e ter mérito e lucrar alguma coisa será do pur­gatório, direito e propriedade das almas. É uma re­núncia total. Só a indulgência plenária da hora da morte não pode ser oferecida para as almas e será nossa, porque não é aplicável aos defuntos.
O ato heróico não impede de rezar nas próprias intenções e pelos mortos. Quando fazemos um ato de penitência e de oração, por exemplo, recitando um terço de joelhos, há neste ato, para falar uma lin­guagem teológica, três frutos diferentes: um fruto meritório que não o podemos perder é o mérito pes­soal de quem o pratica — o valor satisfatório do ato que é a penitência, o sacrifício feito, e este é para as almas é do ato heróico — e finalmente, uma força impetratória que é da oração como oração. A oração é uma força e Deus prometeu ouvi-la. O ato heróico não nos impede utilizar a força impetratória da oração.
Quem faz o ato heróico é como um religioso que fez o voto de pobreza: tudo o que ganha não lhe per­tence. A diferença é que o voto de pobreza obriga em consciência e o ato não. O abandono que a alma generosa faz em favor das almas do purgatório é fei­to, em geral, por todas e nunca em favor de uma ou outra alma. O ato heróico não impede que se ore por esta ou aquela alma em particular e se ofereça a Nosso Senhor muito sufrágio pelos nossos mortos queridos.
Não pode tudo isto ser feito na oferenda geral que fizermos a Deus?

Origem do ato heróico
O ato heróico em si, não é uma devoção nova na Igreja, como pretendem alguns. Em séculos passa­dos, muitos homens de grande santidade e grandes almas generosas ofereceram a Deus seus tesouros de obras satisfatórias em favor das pobres almas do purgatório. Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Santa Liduina e muitos outros santos tiveram esta generosidade. Santa Teresa fez este ato em favor de um mestre espiritual, o Provincial dos Carmelitas, falecido, e ela libertou-o do purgatório com suas ora­ções. Todavia, consideramos como fundador e apósto­lo do ato heróico o Pe. Gaspar Olinden, clérigo regu­lar dos Teatinos. Este sacerdote piedoso tinha uma devoção muito grande pelo Purgatório e sua grande preocupação e todo seu zelo ardente o empregava em favor das pobres almas. Lembrou-se deste ato heróico, desta oferenda generosa a Deus em favor do purgatório e apresentou-o ao Santo Padre Bento XIII, que não só o aprovou, mas o enriqueceu de indulgên­cias e privilégios. Depois, todos os Pontífices confir­maram a aprovação e estimularam e abençoaram tão belo ato.
Bento XIII, não contente de aprovar o ato heróico, ainda fez publicamente, e do púlpito, a entre­ga de todos os seus bens espirituais pelos mortos, como se pode ver nos sessenta sermões que pregou sobre este assunto.
Naquela época viram-se Ordens inteiras recomen­darem o ato heróico. O Superior Geral da Companhia de Jesus mandou recomendá-lo a todos os seus súditos. O Pe. Ribadanera piedoso hagiógrafo propa­gou muito o ato heróico e o Pe. Nierenberg. O Pe. de Montroy, no leito de morte, não só deu às almas o mérito de todas as obras satisfatórias feitas em vida, mas a sua caridade se estendeu além. Fez um tes­tamento sublime, diz o Pe. Faber “que não sei de ou­tro igual”: cedeu sem exceção para as almas do pur­gatório todos os méritos, orações, Missas, indulgên­cias que a Companhia de Jesus costuma aplicar aos seus membros defuntos, todos os sufrágios que seus amigos pudessem oferecer por ele e tudo enfim, pe­las almas.
Há muitos exemplos admiráveis de atos heróicos pelo purgatório.
Finalmente, nos últimos tempos Nosso Senhor suscitou uma grande alma devotíssima do purgató­rio e fundadora de uma Congregação religiosa espe­cialmente destinada a sufragar as santas almas e entregue toda a serviço do purgatório num ato heróico de caridade. Foi a Madre Maria da Providência. Des­de pequenina, esta serva de Deus sentia grande com­paixão pelas almas sofredoras. Um dia a encontra­ram muito pensativa e grave em meio dos brinque­dos da criançada. — Que esta pensando? — Sabem no que penso? Disse Eugênia (tal era o seu nome no século), eu penso numa prisão de fogo de onde não se pode sair e da qual com uma palavra se podem tirar os prisioneiros.

As companheiras a olharam surpreendidas. “Es­ta prisão de fogo é o purgatório e com uma palavra, com a oração, podemos libertar as almas”.
Mais tarde foi a fundadora de uma Congregação, única na Igreja, cujos membros se oferecem a Deus pelas almas e vivem o voto heróico.
Eis como se desenvolveu, nos últimos tempos, a bela prática do ato heróico.

Vantagens do ato heróico
Um ato tão generoso e que nos despoja de tan­tas riquezas e nos deixa até sem sufrágios depois da morte, poderá ter vantagens, lucra muito, porven­tura, quem o fez? Sim, mil vezes sim! É um engano pensar que se perde muito com o ato heróico. Ao invés, lucra-se mil vezes mais. Deus se deixa vencer em generosidade? Não há gratidão nas almas salvas por tão grande socorro?
O ato heróico é um ato cheio de mérito, é um ato perfeito que nos faz esquecer de nós mesmos para cuidar de nossos irmãos e da glória de Deus. Quem faz o ato heróico aumenta por este ato seu grau de graça neste mundo e o grau de gloria no outro. E o ato de caridade que pratica, não há de atrair a mise­ricórdia daquele Senhor que prometeu cem por um e o reino do céu ao menor bem que se faz neste mun­do por amor de Deus? “A caridade cobre a multidão dos pecados”, diz a Escritura, e este gesto de cari­dade heroica não há de obter perdão e descontar mui­tos pecados de quem o faz? E a indulgência plenária que se ganha com o ato heróico? E a indulgência ple­nária da hora da morte que nos pertence e não pode­mos aplicá-la para ninguém? E Nosso Senhor se dei­xará vencer em generosidade? Não tenha receio de sair prejudicado quem faz o ato heróico em favor das almas do purgatório. Este heroísmo de caridade será recompensado com superabundância de graças neste mundo e de glória no outro. Não nos preocupemos porque não podemos dispor de nossos tesouros em fa­vor de nossos mortos queridos como bem entendemos. Nosso Senhor cuidará deles muito mais, e nossa ca­ridade lhes há de ser um refrigério tão grande no purgatório e talvez concorra para libertá-los do pur­gatório muito mais depressa do que se estivessem dependendo de nossos pobres sufrágios muita vez até esquecidos.
E para terminar, vejamos as condições e as in­dulgências do ato heróico:
Para fazer o ato heróico é mister consultar o diretor espiritual ou um prudente confessor, procurar conhecer bem o que vai fazer e saber a responsabili­dade que assume. Não se deve fazê-lo levianamente e num momento de fervor irrefletido. É muito sé­rio e é preciso lembrar que é heróico! Não é pres­crita nenhuma fórmula especial. Poder-se-ia usar uma como esta: “Para vossa glória, ó meu Deus, e para imitar o melhor possível o Coração generoso de Jesus, meu Redentor, a fim de mostrar também minha dedicação para com a Santíssima Virgem Ma­ria, minha Mãe e Mãe das almas do purgatório, en­trego em suas mãos todas as minhas obras satisfa­tórias assim como o fruto de todas as que, porven­tura, se venham a fazer por minha intenção depois de minha morte, a fim de que Ela faça a aplicação às almas do purgatório segundo a sua sabedoria e como melhor lhe aprouver”. Quem faz o ato heróico pode lucrar as seguintes indulgências, aplicáveis aos defuntos: uma indulgência plenária cada vez que se aproxima da Comunhão nas condições do costume; vi­sita à igreja e oração pelo Papa. Outra indulgência plenária cada segunda-feira, ao ouvir Missa pelos mortos. Os sacerdotes que fizerem o ato heróico gozam do altar privilegiado pessoal em todos os dias do ano (P. P. O. 547.).


Exemplo

Um voto heróico
Uma donzela chamada Gertrudes, acostumara-se desde os mais tenros anos, a oferecer por inten­ção das almas do purgatório todas as suas boas obras. Era tão bem aceita esta devota prática no purgató­rio e no céu, que muitas vezes, o Salvador se com­prazia em designar-lhe as almas mais necessitadas. Estas, libertadas pela sua piedosa caridade, se lhe mostravam gloriosas, para lhe agradecerem e prometiam-lhe não esquecê-la no paraíso. Passava a vi­da neste santo exercício e, cheia de confiança, via em paz aproximar-se a morte, quando o infernal ini­migo, que de tudo sabe fazer ocasião para tentar os homens, começou a representar-lhe que ela se havia despojado de tudo e de todo mérito satisfatório de cada boa obra e ia cair no purgatório para nele ex­piar em longas penas todas as suas culpas.
Este tormento de espírito a lançara em tal de­solação, que seu Esposo celeste dignou-se de vir con­solá-la. “Por que, disse ele, ó Gertrudes, estás tão triste e pensativa? Tu que outrora gozavas da mais perfeita serenidade?”. Ah! Senhor, respondeu ela, em que deplorável situação me encontro! Vede, a morte se aproxima, achando-me eu privada da satisfação das minhas boas obras, que apliquei pelos defuntos; com que poderei pagar a dívida que contraí para com a divina Justiça? Replicou-lhe com ternura o Se­nhor: “Não temas, ó querida minha, porque ao con­trário, aumentastes pela tua caridade a soma de teus merecimentos, e não só tens bastantes para expiares as tuas leves culpas, mas adquiristes altíssimo grau de glória na bem-aventurança eterna. É assim que minha clemência reconhecerá com uma generosa recompensa, que cedo virás receber no paraíso a tua dedicação pelos defuntos”.
Desapareceu a estas palavras, e a alma de Gertrudes foi incendiada de um novo fervor e de um ardente desejo de socorrer as almas dos defuntos.
Enchamo-nos também de zelo e caridade para com essas almas, que rico galardão está prometido nos céus aos nossos esforços (Dyon, Cart. de nonviss. apud P. Mart. de Rox de statu animarum, cap. 20.).

Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 meditações e exemplos sobre o Purgatório e as Almas, por Monsenhor Ascânio Brandão

Livro de 1948 - 243 pags, Casa da U.P.C. Pouso Alegre

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