O FLUIDO



Já em 1823, em Paris, quando ainda não tinha 20 anos, o jovem Hipólito Leão Denizard Rivail (que só em 1857 se transformou em "Allan Kardec") começou a se interessar por aquilo que então era conhecido como "magnetismo animal", com suas teorias sobre o "sonambulismo provocado". Sua iniciação no espiritismo deu-se precisamente neste ambiente. Boa parte de sua terminologia e não poucas de suas teorias, que depois serão correntes no contexto espírita, têm sua origem no grupo "sonambulista" de Paris. Para entender tais termos e idéias, será útil estudar com mais atenção sua fonte.

1. O MESMERISMO
No ano de 1733 nasceu Francisco Antônio Mesmer, sobre o lago de Constância. 33 anos mais tarde, em 1766, doutorou-se o famoso médico austríaco. Na primeira metade daquele século, cientistas da Inglaterra, França e Áustria davam-se a uma série de pesquisas acerca duma possível ação terapêutica do ímã, principalmente para curar as doenças do estômago e dos dentes. Destacou-se entre estes investigadores o jesuíta de Viena, o padre Maximiano Hell.
Inspirado pelas experiências deste jesuíta, o Dr. Mesmer, em 1974, tentou as primeiras experiências de curar por meio da aplicação de peças imanizadas ou magnetizadas. Mesmer chegou então à conclusão de que o ímã continha, de fato, um agente terapêutico. Influenciado por idéias astrológicas, Mesmer julgou até que esta ação terapêutica provinha de um misterioso "agente geral", distribuído pelo universo ("fluido universal") e que tal propriedade não era exclusiva do ímã.
Assim, em 1775, dirigiu às principais academias européias uma famosa comunicação.
Nela declarava a natureza e a ação do magnetismo animal e a analogia das suas propriedades com as do ímã e da eletricidade. Dizia também que todos os corpos eram suscetíveis de receber esse princípio magnético, de o acumular e transmitir à distância.
Mas a mensagem de Mesmer não foi bem recebida pelo mundo da ciência. O médico austríaco teve mesmo de abandonar Viena e instalou-se em Paris em 1778. Aí redigiu sua célebre Mémoire sur Ia découverte du Magnetisme Animal. Nela apresentou pela primeira vez a redação definitiva de sua teoria. Consiste numa série de proposições, reduzindo a um corpo doutrinal sistemático certas idéias esparsas formuladas antes dele por Maxwell, Mead, Stahl, Santanelli, Borel, Kirchner, Paracelsus e outros.
Na primeira proposição, Mesmer estabeleceu a seguinte tese: "Existe uma influência mútua entre os corpos celestes, a terra e os corpos animados". Na segunda proposição explica:
"O meio desta influência é um fluido universalmente difundido e contínuo, de modo a não sofrer nenhum vazio; fluido duma sutileza sem igual e que, por sua natureza, é suscetível de receber, propagar e comunicar todas as impressões do movimento". Nas quatro proposições seguintes Mesmer afirma que desta ação recíproca submetida a leis mecânicas desconhecidas resultam efeitos alternados, que podem ser considerados como um fluxo e refluxo mais ou menos geral, mais ou menos composto, conforme as naturezas das causas que o determinam. Na 7ª proposição declara que as propriedades da matéria e dos corpos orgânicos dependem desta ação recíproca. Na 8ª proposição ensina que o corpo animal sofre os efeitos alternados deste agente, por uma ação direta sobre os nervos. Na 9ª proposição diz: "Manifestam-se
particularmente no corpo humano propriedades semelhantes às do ímã; nele também se distinguem pólos diferentes e opostos, que podem ser postos em comunicação, carregados, destruídos ou reforçados". Conclui então, na 10ª proposição, que esta propriedade do corpo animal, que o torna suscetível da influência dos astros e da ação recíproca dos corpos que o circundam, manifestada pela sua analogia com o ímã, faz com que, aptamente, se lhe dê o nome de magnetismo animal. Nas quatro proposições que se seguem afirma que tal ação pode ser  comunicada em maior ou menor grau a outros corpos, segundo a respectiva suscetibilidade, podendo ser por eles reforçada e propagada, mesmo sem a intervenção de um corpo intermédio.
Nas restantes proposições procura dar algumas aplicações práticas.
O modo como fora lançado o Mémoire de Mesmer, principalmente suas aplicações imediatas nos doentes, não podia deixar de desencadear vivos debates pró e contra. Já em 1784 o governo procedeu à nomeação de uma comissão de inquérito, composta de quatro médicos e cinco membros da Academia das Ciências. Sábios como Franklin e Lavoisier faziam parte desta comissão. As conclusões foram totalmente negativas. Eis aí a parte mais incisiva do parecer:
- "Os membros da comissão, tendo reconhecido que o fluido magnético animal não pode ser percebido por nenhum dos nossos sentidos; que não exerce nenhuma ação nem sobre eles nem sobre os doentes que lhe são submetidos; tendo chegado à certeza de que as pressões e os passes são causa de mudanças raramente favoráveis na economia animal e de choques sempre inconvenientes na imaginação; tendo por fim demonstrado, por experiências decisivas, que a imaginação sem magnetismo produz convulsões e que o magnetismo sem imaginação nada produz, concluíram unanimemente, quanto à questão da existência e utilidade do magnetismo, que nada há que prove a existência do fluido magnético animal; e que este fluido, por isso mesmo que não existe, não pode ser útil; que os efeitos violentos que se observam no tratamento
em massa são devidos aos passes, à imaginação excitada e à imitação instintiva que maquinalmente nos leva a fazer o que vemos. Julgam-se igualmente obrigados a acrescentar, como observação importante, que os passes, a ação repetida da imaginação para produzir crises, são perigosos, por causa da lei natural da imitação e que, por conseguinte, todo tratamento público, em que se põem em prática os meios do magnetismo, não pode deixar de ser, com o tempo, funesto".
Este parecer de 1784 foi objeto de acirrados debates. Pois Mesmer já conseguira notável número de entusiasmados seguidores. Mais tarde, em 1831, os magnetizadores solicitaram da Academia novo exame que, desta vez, lhes foi favorável. Mas graves e reiterados protestos e um estudo mais detido dos fatos e das teorias deram lugar a uma nova intervenção da Academia que, em 1837, lavrou contra o sistema uma sentença definitivamente condenatória. Entretanto, todos os movimentos ocultistas, esotéricos e secretos da época aceitaram e abraçaram com avidez e entusiasmo a teoria do magnetismo animal e do fluido universal.
Baseados nas arbitrárias proposições de Mesmer chegaram a elaborar extensos tratados e excogitaram métodos especificados para aplicar, mediante os famosos passes, a fantasiada ação terapêutica de um agente inexistente. AK, assistido, segundo ele, pelos espíritos superiores, aceitou plenamente as teorias mesmerianas (que, na realidade, não são nada "espíritas"). Hoje os espíritas, teósofos, esoteristas, rosacrucianos, umbandistas, curandeiros, astrólogos e ocultistas escrevem, falam e atuam como se o fluido universal e o magnetismo animal já fossem realidades definitivamente incorporadas ao patrimônio do conhecimento humano. Aplicam passes, distribuem águas fluidas ou outras peças "magnetizadas", como se vivessem ainda em 1780.
Os homens da ciência, todavia, os que de fato investigam e seriamente estudam, mantêm ainda o veredicto pronunciado pela academia em 1784. O Sr. Robert Amadou, por exemplo, que durante anos dirigiu a revista do Instituto Metapsíquico Internacional e o grupo de Parapsicologia de Paris, nos informa que a teoria fluídica é hoje "unanimemente rejeitada pelos homens da ciência”. E diz mais: "Hoje é evidente que a sugestão basta para explicar todos os efeitos atribuídos ao antigo magnetismo e que não há nenhuma necessidade de recorrer à idéia do fluido". Todos os fluidômetros imaginados fracassaram. Os efeitos observados no magnetômetro de Fortin, no biômetro de Baraduc, no estenômetro de Joire, no motor de Tromelin, ou nos fluidômetros elétricos de Leprince, de Müller e Givelet, tudo podia ser explicado pelo calor
do corpo, pelas correntes do ar, por débeis vibrações mecânicas, cargas e descargas elétricas ou, mesmo, por ilusões óticas etc.
Jamais o fluido foi confirmado experimentalmente, nem jamais ofereceram seus defensores o menor princípio de prova científica. A Revue Métapsychique, do Instituto Metapsíquico Internacional, dedicou em 1953 um fascículo inteiro ao estudo dos fluidos e os vários autores são unânimes em suas manifestações de muita reserva. Assim diz, por ex., René Dufoir, p. 72: "Realidade duvidosa, conceito equívoco, palavra mal escolhida, eis o juízo que somos levados a fazer sobre o fluido como tal". E outro autor não é menos categórico e claro:
"No estado atual da ciência, nada nos prova a existência do fluido magnético".
Aliás, até mesmo o Dr. Richet, talvez o mais crédulo dos cientistas que se ocuparam com estas questões, está inclinado a negar os fluidos e o magnetismo: "A hipótese mais simples, que tende a ser adotada hoje, é aquela que ensina ser por sugestão que se adormece um paciente, sugestão essa que pode ser verbal ou não, dando em conseqüência que todos os passes chamados magnéticos são acessórios, inúteis - pois que não passam de símbolos de sugestão" (Tratado de Metapsíquica, trad. bras., I, 148). Na página seguinte é ainda mais categórico: "Os passes nunca são mais que símbolos". "Deixarei pois de lado as teorias de Reichenbach acerca do od, de Baraduc acerca dos eflúvios, de Chazarain acerca da polaridade humana, porque as suas alegações, em geral mais místicas do que científicas, não são baseadas senão em bases
insuficientes" (p. 150). Sustenta ainda que "de maneira nenhuma se pode emprestar muito valor
às afirmativas dos magnetizadores acerca da visibilidade dos eflúvios" (p. 152). Resumindo, escreve: "A aura, o corpo astral, o perispírito, o eflúvio ódico, são expressões diversas para exprimir um mesmo fenômeno, uma radiação humana (ou animal). e possível que essa radiação exista, já que tudo é possível; mas até o presente momento ninguém a pôde demonstrar... nem há mesmo qualquer possibilidade de prova" (p. 153). Richet repete várias vezes semelhantes afirmações. E ele conhece e cita as experiências de Reichenbach, Baraduc, Maingot, Magnin, Ochorowicz, Cannelle, Faivre, Alrutz, de Rochas, Joire, Janet Boirac, Héricourt, Dusart e as dele mesmo: "Mas para usar logo de franqueza: nem as minhas nem as deles nos levam à convicção do fato" (p .157).

2. O FLUIDISMO ESPÍRITA
A ciência nos diz, pois, que o magnetismo animal e o fluido universal não passam de pura fantasia e arbitrária suposição. Entretanto, precisamos ocupar-nos com esse misterioso agente universal porque ele tem nos livros espíritas e particularmente nas obras de AK uma posição absolutamente central. Riscado o fluido, a literatura kardequiana se reduziria a um montão desordenado de pensamentos truncados e frases despedaçadas. Por todas as páginas despontam fluidos das mais várias espécies e denominações: é o fluido universal, o fluido cósmico, o fluido perispirítico, o fluido divino, o fluido magnético, o fluido vital, o fluido elétrico animalizado, o fluido curador, o fluido vivificante. Aparecem imagens fluídicas, envoltórios fluídicos, corpos fluídicos, eflúvios fluídicos, atmosfera fluídica, força fluídica, corrente fluídica, irradiação fluídica,
criações fluídicas, raios fluídicos. Ou, então, o magnetismo animal, o magnetismo espiritual, o magnetismo semi-espiritual, humano-espiritual etc. "e essencial esse estudo - diz Kardec, falando dos fluidos - porque está nele a chave de uma imensidade de fenômenos que não se conseguem explicar unicamente com as leis da natureza" (VI, 260).
É sobretudo no livro A gênese (escrito em 1868), capítulo XIV, que Kardec expõe suas teorias fluídicas. Pensa ele que o fluido cósmico universal é a "matéria cósmica primitiva" ou o "princípio elementar de todas as coisas", o "princípio elementar do universo".
No cap. VI (p. 104), o espírito de Galilei já lhe havia dito: "Há Um fluido que enche o espaço e penetra os corpos. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, geradora do mundo e dos seres". Depois. "A matéria cósmica primitiva fez com que sucessivamente nascessem turbilhões, aglomerações desse fluido difuso. A matéria cósmica primitiva continha os elementos materiais, fluídicos e vitais de todos os universos...". O elemento fluídico, entretanto, não é uniforme. Modifica-se conforme o ambiente. "Os
fluidos mais próximos da materialidade, os menos puros, compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse meio, onde igualmente vários são os graus de pureza, que os espíritos encarnados e desencarnados, deste planeta, haurem os elementos necessários à economia de suas existências" (p. 260). "São a matéria do mundo espiritual" (p. 261). Pois assim como os peixes precisam da água e o homem do ar, assim os espíritos precisam do fluido e nele vivem: "O fluido etéreo está para as necessidades do espírito, como a atmosfera para as dos encarnados" (p. 264).
Os fluidos, ensina AK, adquirem as qualidades do ambiente: "Modificam-se pelos eflúvios desse meio como o ar pelas exalações, a água pelos sais" (p. 268): "São excitantes, calmantes, penetrantes, adstringentes, irritantes, dulcificantes, suporíferos, narcóticos, tóxicos, reparadores, expulsivos". Os maus pensamentos corrompem os fluidos como os miasmas deletérios corrompem o ar.
"No estado ordinário denota matizes diversos, conforme os indivíduos que o emitem: ora vermelho, ora azulado, ora acinzentado, qual ligeira bruma. As mais das vezes espalha sobre os corpos circunjacentes uma coloração amarelada, mais ou menos forte." Essas minúcias Kardec as revela em suas Obras póstumas (p. 99). E sabe mais: "Nenhum corpo lhe opõe obstáculo; ele os penetra e atravessa todos. Até agora nenhum se conhece que seja capaz de o isolar. Somente a vontade lhe pode ampliar ou restringir a ação. A vontade, com efeito, é o seu mais poderoso princípio. Pela vontade dirigem-se-lhe os eflúvios através do espaço, saturam-se de alguns objetos, ou faz-se que ele se retire dos lugares onde superabunda". Por aí já se compreende, dentro das teorias fluidísticas, o valor e a função da concentração e dos atos de vontade. Daí
nasceu nosso Círculo Esotérico do Pensamento.
Mas o fluido cósmico também se individualiza: "Cada um de nós tem, pois, seu fluido próprio, que envolve e acompanha em todos os movimentos, como a atmosfera acompanha cada planeta (sic!). É muito variável a extensão da irradiação dessas atmosferas individuais.
Achando-se o espírito em estado de absoluto repouso, pode essa irradiação ficar circunscrita nos
limites de alguns passos; mas, atuando a vontade, pode alcançar distâncias infinitas (sic). A vontade como que dilata o fluido, do mesmo modo que o calor dilata os gases. As diferentes atmosferas individuais se entrecruzam e misturam, sem jamais se confundirem... Pode-se, por conseguinte, dizer que cada indivíduo é centro de uma onda fluídica, cuja extensão se acha em relação com a força da vontade" (VII, 100). "Em seu movimento de translação, cada um de nós leva consigo a sua atmosfera fluídica, como o caracol a sua concha; esse fluido, porém, deixa vestígios da sua passagem; deixa um como sulco luminoso, inacessível aos nossos sentidos" (ib. p. 101).
Além dessa "atmosfera fluídica" (que outros denominam também "aura"), que sempre anda conosco, tem ainda cada um de nós uma porção de fluido condensado: o perispírito: "e uma condensação desse fluido em tomo de um foco de inteligência ou alma" (VI, 262). Ainda teremos que ocupar-nos com esse misterioso perispírito. "O conhecimento dele - diz Kardec - foi a chave da explicação de uma imensidade de fenômenos e permitiu que a ciência espírita desse largo passo, fazendo-a enveredar por nova senda. .." (III, 121). Outras correntes ocultistas dão-lhe também o nome de "corpo astral", "corpo ódico", "od". Daí vem também o não menos famoso ectoplasma, mediador plástico ou a "força ectênica”.
Vê-se que a "ciência espírita" avança mais que a "ciência oficial". Enquanto esta ainda não descobriu sequer um vestígio deste mirífico e onipotente fluido, aquela já lhe conhece com bastantes particularidades as qualidades e propriedades específicas.
Não nos esqueçamos também das poderosas criações fluídicas. "O pensamento do espírito cria fluidicamente os objetos que ele esteja habituado a usar" (VI, 267). Há mais: "Criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico, como num espelho, toma nele corpo e aí, de certo modo, se fotografa. Tenha um homem, por exemplo, a idéia de matar a outro: embora o corpo material se lhe conserve impassível, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento e reproduz todos os matizes deste último; executa fluidicamente o gesto. . ." (p. 267). Em suas Obras póstumas, pp. 106s., AK repete as mesmas palavras e acrescenta: "A teoria das criações fluídicas e, por conseguinte, da fotografia do pensamento é uma conquista do moderno espiritismo e pode, doravante, considerar-se como firmada em princípio...". O que admira, em tudo isso, não é apenas o minucioso conhecimento que AK alardeia
acerca destas coisas invisíveis e imperceptíveis, mas, sobretudo, a admirável segurança e serenidade com que discorre sobre as mais mirabolantes fantasias.
Para AK e seus seguidores os fluidos explicam toda a vasta e curiosa fenomenologia espírita. "O fluido perispirítico é o agente de todos os fenômenos espíritas, que só se podem produzir pela ação recíproca dos fluidos que emitem o médium e o espírito" (VII, 52). Vejamos, pois, ainda que sumariamente, o fluidismo espírita aplicado aos fenômenos:
1. Efeitos físicos: "Quando um objeto é posto em movimento, levantado ou atirado para o ar, não é que o espírito o tome, empurre ou suspenda, como o faríamos com a mão. O espírito o satura, por assim dizer, do seu fluido, combinado com o do médium, e o objeto, momentaneamente vivificado desta maneira, obra como o faria um ser vivo" (III, 77). Por exemplo, para levantar a mesa, "o espírito haure no fluido universal o que é necessário para lhe dar uma vida factícia. Assim preparada a mesa, o espírito a atrai e move, sob a influência do fluido que de si mesmo depende, por efeito da sua vontade" (ib. p. 75). Assim também pode
levantar uma poltrona. "Se pode levantar uma poltrona, também pode, tendo força suficiente, levantá-la com uma pessoa sentada nela" (p. 83). "Quando a mesa se destaca do solo e flutua no espaço sem ponto de apoio, o espírito não a ergue com a força de um braço; envolve-a e penetra de uma espécie de atmosfera fluídica que neutraliza o efeito da gravidade, como faz o ar com os balões e papagaios" (VI, 285).
2. Os raps: "Quando as pancadas são ouvidas na mesa ou algures, não é que o espírito esteja a bater com a mão ou com qualquer objeto. Ele apenas dirige sobre o ponto donde vem o ruído um jato de fluido e este produz o efeito de um choque elétrico" (p. 286).
3. As curas: o fluido desempenha então o papel de agente terapêutico. Os espíritos derramam sobre o magnetizador fluidos especiais que curam (p. 279).
4. As obsessões: "O obsediado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele" (p. 289), ficando o paciente "enlaçado por uma como teia e constrangido a proceder contra a sua vontade" (p. 290).
5. As aparições: o espírito, por um ato de vontade, faz com que o perispírito se tome visível (p. 280).
Os mesmos princípios são aplicados também aos milagres do evangelho. AK lhes dedica
todo o longo capo XV de A gênese (pp. 292-336). Começa por lembrar que Jesus (que, segundo
ele, não era Deus) possuía "imensa força magnética" e tinha um perispírito especial, "tirado da
parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres" (p. 293). Com estas qualidades especiais é que
Jesus operava seus aparentes milagres. Exemplos:
1. A estrela dos magos: "Um espírito pode aparecer sob forma luminosa ou transformar uma parte do seu fluido perispirítico em foco luminoso" (p. 295).
2. As curas: "Exprimem o movimento fluídico que se operara de Jesus para o doente" (p.298). Geralmente bastava uma "irradiação fluídica manual para realizar a cura".
3. O cego de Betsaida: "Aqui é evidente o efeito magnético" (p. 299).
4. O cego de nascença: foi seu "fluido curativo" (p. 308).
5. A ressurreição da filha de Jairo: não estava morta: "Apenas síncope ou letargia": seu "fluido vivificante" operou a cura (p. 315). Assim também Lázaro, que de fato não estava morto: "letargia" (p. 316)...
6. Caminhar sobre as águas: "Pela mesma força fluídica que mantém no espaço uma mesa, sem ponto de apoio" (p. 317).
7. Transformação da água em vinho: "Ação fluídica" que mudou as propriedades da água, dando-lhe um sabor de vinho (p. 320).
8. Multiplicação dos pães: "Poderosa ação magnética", que ele exercia sobre os que o
cercavam que, assim, não experimentavam a necessidade de comer (p. 321).
9. Aparições de Jesus, depois da morte: "Jesus se mostrou com o seu corpo perispirítico" (p. 331).
Como se vê, tudo claro, fácil, positivo, sem milagre e sem mistério. Uma única coisa, apenas, permaneceu misteriosa: como chegou AK a saber da existência do fluido e da realidade de sua ação? E outra: se os espíritos dispõem de tão grande quantidade e variedade de fluido, se basta um ato de vontade deles e um pensamento dirigido, por que necessitam eles ainda de médiuns humanos?

3. FLUIDISMO CURANDEIRISTA
Muitos procuram os centros espíritas e os terreiros umbandistas em busca da saúde. A promessa da cura é indiscutivelmente o mais poderoso fator de atração que o espiritismo oferece à massa popular. Ainda aqui estamos apenas diante de um caso particular de aplicação do fluidismo espírita em geral. AK, pessoalmente, em suas obras, não desenvolve muito esse assunto, embora faça freqüentes alusões aos fluidos curadores e vivificadores. Aqui no Brasil, entretanto, o espiritismo se transformou num autêntico movimento curandeirista. Daí lhe veio a popularidade entre nós. Precisamos, por isso, ocupar-nos também com este aspecto particular e ver como procedem e com que mentalidade. Da parte espírita foi publicado sobre o assunto um livro interessante pelo Sr. Wenefledo de Toledo, ajudado por 89 colaboradores: Passes e curas
espirituais (São Pau1o), com uma apresentação feita pelo médico espírita Dr. Sérgio Valle. A obra está toda ela decalcada sobre as teorias fluidicistas de Mesmer e AK. Veremos o que nos dizem sobre as doenças, os passes e a água fluídica:
1. As doenças: "Nós, espíritas convictos, militantes da doutrina, não procuramos a doença no corpo físico"; "as enfermidades vêm do espírito, ainda mesmo as hereditárias" (p. 81); "todas as doenças penetram no corpo através do espírito" (p. 165). Realmente, dizem eles, as doenças são apenas "pontos de aglutinação dos fluidos doentios" (p. 81). De maneira que, para curar, é preciso atuar "fluidicamente" sobre os fluidos, nada mais. Em concreto, as causas determinantes das doenças seriam:
a) Predisposição cármica, causando "doenças cármicas": "oriundas do perispírito enfermo que, ao reencarnar, transmite e traz já ao nascituro, mesmo na vida intra-uterina, os males que a matéria ou o espírito têm que sofrer" (p. 81). Seriam, pois, conseqüências (castigos) de vidas anteriores. Contra esta espécie de doenças, dizem eles, não há remédio eficaz. Pois a "lei do carma" é inflexível.
b) Predisposição atraída: baseia-se no princípio de que "semelhantes atraem semelhantes".
Uma criatura colérica, "vibrando sempre maldade e pestilência", só pode atrair para si fluidos maldosos e pestilentos e, conseqüentemente, acaba doente, principalmente no coração, no fígado, nos pulmões, no estômago e nos intestinos. Para curar tais pessoas, elas devem ser doutrinadas, até terem pensamentos de bondade e amor.
c) Predisposição hereditária: é quase como a "cármica". No caso são os pais que transmitem aos filhos os males. A sementeira é que está cheia de fluidos perniciosos.
d) Predisposição do ambiente: neste caso a causa dos males está no ambiente em que vivemos, na casa, principalmente na sala de refeições e nos quartos de dormir. "Nestes lugares, os pensamentos emitidos estão condensados em nuvens, forrando o teto, que se movimentam por toda a casa..." (p. 84). Também "os objetos de uso pessoal e até mesmo os alimentos trazem as emanações de quem os manipulou, desde a colheita até a cozinha" (p. 108). "Às vezes formam massas compactas escuras que seguem os emitentes como sombras que se avolumam sobre suas cabeças, não raro se engrossando pela lei da atração das que lhe são afins" (p. 116). Muitas vezes é a empregada que, com seus maus eflúvios, perturba a paz e a serenidade do lar (p. 167). - O remédio será a "operação de limpeza", com "passes de desembaraçamento dos fluidos pesados". Os umbandistas inventaram para isso os defumadores. Outras vezes será
remédio eficaz mandar embora a empregada...
e) Também os inimigos, os invejosos e os perseguidores causam doenças. Temos então o "quebranto". "A princípio são ligeiras influenciações obsidiantes dos maus fluidos emitidos pelo perseguidor. Encontrando acolhida favorável, ou seja, vibração semelhante, as nuvens escuras vão se acercando da presa até o seu envolvimento completo" (p. 166).
f) O espírito vingador: "O espírito de vingança sobrevive após a morte do corpo carnal.
Mormente quando, entre dois, um reencarna primeiro, o que demonstra certo merecimento. O que fica no espaço, usando do poder que lhe é peculiar, como mau, projeta a sua perseguição sobre a pequena vítima reencarnada" (pp. 167s.). Temos então o perigoso e popular "encosto", ou "espírito encostado".
2. Os passes: "O passe é uma transfusão de fluidos do médium curador ou passista para o doente" (p. 133), ou um "condensador de fluidos" (p. 190). O passe se faz principalmente através das mãos. Aí é preciso notar que "a mão direita carrega acorrente positiva, a esquerda a negativa" (p. 99). Nesse ponto os conhecimentos dos espíritas são bastante minuciosos. "As mãos dos médiuns, quando concentrados no momento em que transmitem o passe, tomam uma coloração azul-clara com nuanças de verde, muito fosforescentes, que atingem alguns centímetros de espessura. Das pontas dos dedos são projetados os fluidos, emitidos pela vontade do médium, formando um chuveiro magnético, na direção que lhes for imprimida. Os dedos de projeção mais forte são os polegares e logo em seguida os indicadores. . Quando os dedos se juntam em forma de feixe, os fluidos perdem a forma dispersa e caem em jatos fortíssimos,
penetrando profundamente no organismo" (p. 101).
Para o bom passe, há uma regra importante: "As mãos arrastam os fluidos pelas correntes e, para que eles não retornem ao corpo do doente, elas se fecham para depois abrirem-se afastadas do corpo do médium, dando dispersão aos maus fluidos para os lados. Assim as mãos voltam limpas para reiniciar o passe" (p. 141). Observe-se também que nunca se devem cruzar as pernas e os braços durante a concentração, "para que as correntes centrífugas e centrípetas tenham livre curso na trajetória das suas direções" (p. 147).
Há três tipos de passes distintos: o passe magnético, o passe mediúnico e o passe espiritual (p. 133):
a) O passe magnético é exclusivamente do médium, fornecendo somente ele seus próprios fluidos. Este pode ser longitudinal (de cima para baixo, nunca de baixo para cima), rotatório,transversal e perpendicular. Cada um tem o seu efeito próprio.
b) O passe mediúnico é realizado pelo médium incorporado por um espírito passista. Neste passe concorrem os fluidos do médium e os do espírito que é quem dirige todo o trabalho e que pode servir-se dos fluidos do ambiente e da flora medicinal (p. 143). Este é propriamente o "passe espírita".
c) O passe espiritual é feito exclusivamente pelos espíritos passistas. Pode ser suplicado pelo médium ou por qualquer pessoa interessada e é eficiente também à distância (p. 143). Mas também os médiuns podem fazer passes à distância. "Os médiuns apenas concentram-se na mentalização, a fim de que seus fluidos possam servir nas mãos dos espíritos curadores" (p. 149).
O passe pode ser administrado ou em tratamento individual ou em grupo ou sessão.
a) Para o tratamento individual é preciso preparar o paciente e conseguir dele a necessária  redisposição que o coloque em estado passivo, "facilitando enormemente a penetração dos fluidos curadores" (p. 115). Melhor seria recolher-se ao leito, sozinho no quarto, deitar-se de costas, com os braços estendidos ao longo do corpo, relaxar os músculos, os nervos e concentrar-se com os guias espirituais (pp. 117s.). - Evidentemente um estado excelente para receber sugestões e desencadear reflexos condicionados...
b) Para o tratamento em grupo ou sessão: devem estar presentes somente o dirigente, os médiuns escolhidos e os doentes. As pessoas acompanhantes devem permanecer fora da corrente, "recomendando-se com rigor não trazer adultos que manifestem idéias contrárias ao espiritismo" (p. 178, d. também p. 122). A ordem de trabalho mais aconselhável é a seguinte: 5 minutos de silêncio para preparo do ambiente; 5 minutos para prece e abertura dos trabalhos; 25 minutos para a doutrinação espírita; 5 minutos para vibrações à distância e curas; 5 minutos para prece de encerramento. Ao todo 45 minutos (p. 179).
3. A água fluídica. "A água, pela sua própria natureza, Já é um fluido condensado. Porém, em espiritismo, entende-se por água fluida aquela em que os fluidos medicamentosos foram imergidos, por ação magnética do médium ou por intermédio dos espíritos benfazejos" (p. 157).
A água pode ser fluidificada:
a) pela própria pessoa: coloca-se, então, uma vasilha com água diante de si, com a boca destampada e, em prece, suplica-se o que se deseja que seja feito na água. Pronto. Para qualquer efeito desejado. Pois é a vontade que dirige os fluidos como quer...;
b) pelo médium: toma a vasilha com uma das mãos, abrangendo com os dedos, ligeiramente separados, as faces laterais da mesma e, com a outra mão, faz a devida "imposição técnica";
c) pelos espíritos: deixa-se a água exposta ao sereno da noite. "No dia seguinte estará fluidificada pelos espíritos do bem" (p. 158).
"Quando houver necessidade de certa quantidade de água fluida apenas um copo que esteja fluido poderá servir até para fluidificar uma talha ou mais, misturando-se os líquidos.
Uma colher basta para um copo e este chega para um litro" (p. 159).
Assim podem ser fluidificados outros objetos: as roupas de uso, os alimentos e até o próprio ar (p. 159). Basta querer. Barato e eficiente... Particular alívio dará o banho se a água for fluida. Para isso é necessário "passar ambas as mãos, com as pontas dos dedos, de um a outro lado dentro da água, repetindo muitas vezes esta operação" (p. 160).
A água fluida combate qualquer mal. Deve-se tomar pelo menos um copo em jejum, pela manhã, e outro à noite, ao deitar-se (p. 119). Ela reajusta as disfunções orgânicas. "Se há prisão de ventre, será regulada, como também corrigirá as chamadas solturas dos intestinos em qualquer forma" (p. 119).
Já AK conhecia a água fluida ou magnetizada. Em O livro dos médiuns, cap. VIII, discorre sobre o "laboratório do mundo invisível" e então, no n. 130, recorda que os espíritos têm a faculdade de modificar a propriedade das substâncias materiais. Assim também podem modificar a propriedade da água. E explica na p. 142: "Ele (o espírito do magnetizador) opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, como atrás dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica ou elemento universal. Ora, desde que ele pode operar uma modificação nas propriedades da água, pode também produzir um fenômeno análogo cm os fluidos do organismo, donde o efeito curatório da ação magnética, convenientemente dirigida".
Pena que é pura fantasia o magnetismo animal e o fluido universal dos magnetizadores e espíritas. Mas aí temos um exemplo de como a inteligência humana é capaz de construir enormes sistemas sobre um fundamento imaginado e fantástico.
Nossos centros espíritas, porém, continuam atuando como se o fluido e seus passes fossem verdades inconcussas. Todos eles continuam curandeiristas. O manual de Administração das Instituições Espíritas, de 1985, documento do Conselho Federativo Nacional, continua mandando fazer a "assistência espiritual", sessões especiais que, na segunda parte, devem obedecer às seguintes determinações:
a) O dirigente da primeira parte dos trabalhos deve solicitar a saída do recinto, em silêncio, dos que não sentirem a necessidade de receber passes.
b) Introdução inicial de um grupo ou de todos os enfermos, quando for o caso, no local destinado à segunda parte dos trabalhos, sem que seja preciso classificá-los anteriormente, por tipos de passes por qualquer meio ou processo, e acomodá-los em bancos ou cadeiras.
c) Prece inicial feita pelo dirigente dos trabalhos de passes, rogando o auxílio dos benefícios espirituais.
d) O dirigente deverá designar, para cada enfermo, um único médium passista.
e) Os médiuns passistas aplicarão os passes em cada um dos enfermos, sem incorporação
ou manifestação dos espíritos.
f) Os enfermos sairão do recinto após o recebimento do passe, permitindo a entrada de novos enfermos.
g) Prece final, proferida pelo dirigente ou por um dos médiuns da equipe em agradecimento aos benefícios recebidos, sem a presença dos beneficiados.
h) Os médiuns passistas não deverão atender a qualquer pedido de orientação ou consulta formulados pelos enfermos na hora prevista para as transmissões dos passes.
i) As pessoas que procurarem o centro espírita em busca de orientação espiritual, e que a solicitarem por exclusiva e livre vontade, deverão ser encaminhadas ao colaborador escalado para esta tarefa.

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